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Por que acreditar em superstições pode ser ruim para o mundo

O psicólogo britânico Stuart Vyse dedicou a carreira a entender o apelo de crendices de diversos lugares. Em entrevista ao ‘Nexo’, ele alerta sobre o perigo de perdermos tempo com medos irracionais

De origem árabe, a palavra “nazar” tem como significados principais “olho” e “visão”. Nazar também é o nome dado a um amuleto usado para se proteger de olhares invejosos. Nesse sentido, o termo pode ser entendido desde os Balcãs até o subcontinente indiano, e é adotado em idiomas que vão do albanês ao hindu.

A superstição do “mau-olhado” é uma das mais recorrentes que o psicólogo e escritor britânico Stuart Vyse encontrou em suas pesquisas sobre crenças ao redor do mundo. “Contra o mau-olhado eu carrego meu patuá”, advertia o samba-enredo “É Hoje”, da União da Ilha do Governador, de 1982. Em 2017, a socialite americana Kim Kardashian desfilou com um nazar do tipo que se encontra para vender nas ruas de Istambul.

Por muito tempo, Vyse se dedicou a entender os aspectos psicológicos de crendices assim. Em 1999, ele transformou a pesquisa no livro “Believing in Magic: The Psychology of Superstition” (Acreditar na magia: a psicologia da superstição, em tradução livre). O livro ganhou uma edição atualizada em 2013.

Uma das principais conclusões do trabalho é que, embora o caminho da ciência e da razão seja a nossa melhor alternativa como sociedade, há situações em que “crenças mágicas poderiam beneficiar o crente”. Para Vyse, o desafio seria encontrar o equilíbrio entre esses dois polos.

Entretanto, para o autor, sempre houve uma situação de desequilíbrio em um mundo onde, por exemplo, uma vasta parcela da população não acredita nem mesmo em postulados elementares da ciência, como a Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin. Ele cita uma pesquisa da revista Science que revelou que apenas 40% dos americanos crê na teoria.

Vyse emite um alerta: “não podemos nos dar ao luxo de perder tempo em preocupações irracionais e improdutivas”. O fato de tantas pessoas acreditarem em notícias falsas e teorias conspiratórias (à época da segunda edição do livro, uma mentira popular era dizer que o então presidente Barack Obama era muçulmano) mostra para o autor “o quão desesperadamente precisamos promover o pensamento científico”.

Para o psicólogo, o apelo das crenças mágicas é compreensível pois elas nos ajudam a escapar do mundano e do previsível. No entanto, Vyse defende, “se queremos sentir mágica em nossas vidas, não é preciso olhar além do panorama oferecido pela própria ciência”.

Um perguntador cético

 

Graças ao livro, Vyse se tornou um especialista requisitado na mídia, chamado para comentar sobre superstições e comportamentos irracionais em datas como o Halloween e sextas-feiras 13. O autor apareceu em reportagens do New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, CBS e CNN International.

Vyse também mantém desde 2014 uma coluna no site Skeptical Inquirer (o perguntador cético, em tradução livre) chamada Behavior & Belief (comportamento e crença). No espaço, ele se vale de temas da atualidade para abordar comportamentos irrefletidos, pseudociência e suposições versus fatos.

Uma coluna de 2015 afirma que “infelizmente, comprar uma arma não vai lhe deixar mais seguro. Ao contrário, a evidência sugere que trazer uma arma para casa aumenta as chances de você ser morto”. Ele menciona diversos estudos, incluindo um levantamento de 2014 que indica que mulheres têm mais chance de morrer quando há uma arma na casa do que de homens.

Em sua coluna de julho de 2019, o pesquisador abordou o tema da homeopatia. Ele registra que a homeopatia foi desmascarada como “pseudociência” entre o fim do século 19 e o início do 20. “Medicamentos homeopáticos não são melhores que os placebos porque eles mesmos são placebos”, escreveu Vyse. Ainda assim, ele lamenta que essa forma alternativa de medicina ainda tenha seguidores e que “médicos homeopatas ainda estejam atendendo”.

Em agosto de 2019, Vyse vem ao Brasil para uma palestra no Instituto Questão de Ciência, que defende o uso de bases científicas para a formulação de políticas públicas. Ele concedeu uma entrevista ao Nexo por e-mail.

Você pesquisou sobre superstições em todo o mundo. Encontrou algumas especialmente curiosas?

Stuart Vyse Sou fascinado pela superstição do olho do mal. Ela é encontrada em todo o mundo, mas tem diferenças de acordo com o lugar. Por exemplo, a versão italiana do mau-olhado (“malocchio”) inclui um ritual em que se derrama óleo na água a fim de determinar se a doença de uma pessoa é por causa do mau-olhado. A ideia básica de um olhar perigoso projetado com base na inveja é bastante universal, mas as formas de joalheria usadas para evitá-lo diferem de acordo com a cultura.

Do ponto de vista psicológico, qual a função do comportamento supersticioso?

Stuart Vyse A superstição tende a emergir quando queremos que algo importante aconteça, mas não conseguimos ter certeza de que acontecerá. As superstições são um método que nos dá uma sensação de controle sobre o incontrolável. É uma ilusão de controle, mas a ilusão fornece um benefício psicológico.

Como podemos nos beneficiar de um comportamento supersticioso?

Stuart Vyse As superstições podem ajudar as pessoas a lidarem com a ansiedade. Quando um atleta está esperando um jogo começar, pode ser uma hora de muita ansiedade. A superstição ou um ritual realizado regularmente podem ajudar a reduzir a ansiedade e dar ao atleta algo para fazer.

Quando o comportamento supersticioso pode ser considerado insalubre?

Stuart Vyse É quando ele leva as pessoas a usarem tratamentos médicos alternativos ineficazes ou perigosos em vez de procurarem um médico. É quando a crença na sorte mantém um jogador dentro do cassino quando ele deveria ir embora. Ou quando as pessoas gastam dinheiro com videntes ou adivinhos.

Por que os humanos, em geral, permanecem tão supersticiosos, apesar do avanço da ciência e do conhecimento?

Stuart Vyse Muito disso acontece devido à socialização. As pessoas aprendem muitas superstições desde cedo, de seus pais ou da família, e elas são difíceis de desaprender. Elas têm um forte apelo emocional. Além disso, o mundo continua muito incerto e as pessoas seguirão à procura de um meio de controle.

Em seu livro, você alerta sobre perder tempo com preocupações irracionais. Desde então, notícias falsas se tornaram uma preocupação central. Até o terraplanismo se tornou visível. Qual a sua opinião sobre esse estado de coisas?

Stuart Vyse As coisas estão definitivamente piorando. Ataques na arena pública a fontes respeitadas de informação colocam a voz de todo mundo no mesmo patamar. É um estado de coisas muito perigoso que espero que não continue.

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