Como lidar com um presidente que mente, segundo este professor

Lucas Graves, pesquisador do Instituto Reuters de Jornalismo e autor do livro ‘Decidindo o que é Verdade’ fala ao ‘Nexo’ sobre mídia, fatos e falsidades na política atual

A estratégia política de mentir, omitir, exagerar e distorcer a realidade é tão antiga quanto o próprio discurso político em praça pública. A novidade é que, hoje, quando a inverdade é descoberta, os políticos já não mais se emendam. Eles dobram a aposta. E são aprovados e aplaudidos por seus seguidores.

Essa é, em resumo, a constatação do cenário atual feita ao Nexo pelo professor da Escola de Jornalismo e de Comunicação de Massa da Universidade de Wisconsin, nos EUA, Lucas Graves, em entrevista concedida por telefone nesta quarta-feira (31).

Graves, que é também pesquisador sênior do Instituto Reuters de Jornalismo e autor do livro “Deciding What’s True” (Decidindo o que é Verdade, em tradução livre), diz que é difícil insistir na importância de se dizer a verdade quando a própria elite política de um país já não faz questão de se ater a ela. Na visão do pesquisador, a constatação vale tanto para o caso do presidente dos EUA, Donald Trump, quanto para o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

A entrevista com Graves foi feita num mês especialmente carregado de mentiras e desmentidos, nos dois países. Trump disse, por exemplo, que a deputada democrata Ilhan Omar elogiava o grupo terrorista Al-Qaeda, e que outra congressista do mesmo partido opositor, Alexandria Ocasio-Cortez, “chama os EUA e o povo americano de lixo”. A agência americana de checagem de fatos Politic Facts classificou ambas declarações como inteiramente “falsas”.

No Brasil, Bolsonaro já disse, por exemplo, que o dissidente político Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira foi assassinado por seus próprios companheiros de um grupo de esquerda, apesar de a certidão de óbito, emitida pela Comissão Especial para Mortos e Desaparecidos Políticos, formada por especialistas, atribuir a morte “ao Estado brasileiro” durante a ditadura militar (1964-1985). Também recorreu a informações falsas para atacar a jornalista Miriam Leitão. Ainda afirmou, sem base em fatos comprováveis, que os cubanos que participavam do programa Mais Médicos estavam no Brasil para formar “núcleos de guerrilhas”.

Como lidar com presidentes que mentem?

Lucas Graves Não estou certo de que haja um bom jeito de lidar com isso, porque mesmo a checagem de fatos, mesmo a publicação de artigos que mostram claramente a razão pela qual uma determinada declaração presidencial não corresponde à verdade, só funciona nos casos em que há algumas normas vigentes, quando há discursos razoáveis que podem ser impostos por outras elites políticas.​

Uma das razões de ser tão difícil que os checadores de fatos tenham qualquer efeito sobre o presidente Trump, por exemplo, é que membros do partido dele [Republicano] são incapazes de fazê-lo pagar um preço. Eles são incapazes de responsabilizá-lo em casos em que jornalistas e checadores de fato mostraram que o que foi dito pelo presidente é flagrantemente falso. Então, não há custo nenhum para ele em seguir repetindo falsas declarações para satisfazer suas próprias bases. As normas que costumam reger os discursos razoáveis estão sendo rompidas neste país.

Foto: Carlos Barria/Reuters - 05.07.2019
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Donald Trump em entrevista

Tampouco significa dizer que tenhamos vivido anos dourados num passado em que os políticos eram obrigados a dizer a verdade se não quisessem se encrencar. É claro que os políticos sempre exageraram e distorceram ou mesmo disseram coisas totalmente falsas, mas o nível de falsidade de um líder como Donald Trump é, de fato, algo extraordinário.

No longo prazo, a única forma de lidar com um padrão de comportamento como esse é construindo instituições políticas que estabelecem os custos para alguém que queira violar as normas sobre discursos racionais. O mesmo é verdade, certamente, no contexto brasileiro, no qual a polarização crescente tende a jogar contra essas normas.

Em contextos assim, é menos provável que as declarações falsas proferidas por um líder se choquem com o que seu grupo deseja ouvir, mesmo em casos nos quais esses líderes sabem que estão dizendo coisas que simplesmente são falsas. Em ambientes como esses, é mais difícil impor o valor de se dizer a verdade.

Também é verdade que o sucesso de políticos populistas como Trump e Bolsonaro mostra a outros membros de seus partidos o quanto esse tipo de estratégia pode ser efetiva. Mostra que há vantagem em abandonar algumas normas convencionais sobre dizer a verdade, pois não haverá necessariamente um preço a pagar aos eleitores por se mover na direção das declarações mais ofensivas e menos verdadeiras.

Essa é uma prática completamente nova ou é apenas uma velha prática renovada?

Lucas Graves É uma velha prática renovada, pelos menos no caso americano. O discurso político nos anos 1800, nos anos 1830, 1840, em todo o período da Guerra Civil [1861-1865] foi selvagem e extravagante. Mesmo no início dos anos 1900, na origem dos debates, no século 20, havia informações tremendamente falsas circulando sobre filhos bastardos ou sobre a vida sexual íntima, em campanhas muito sujas. Promessas inexequíveis eram feitas aos eleitores, diziam-se coisas como “eu trarei de volta os bons e velhos tempos, vou restaurar a manufatura e a economia”. Isso tudo era obviamente falso. E há inúmeros exemplos de discursos assim ao longo de toda a história.​

Porém, se algo pode ser dito sobre o caso americano é que, no meio do último século, nós vivemos uma exceção, e passamos a ver um firme consenso na ordem internacional, na ordem da Guerra Fria, na qual havia algo como um certo consenso político em torno de uma certa visão do Estado de bem-estar social, no plano doméstico. As pessoas aceitavam um Estado grande, aceitavam os gastos governamentais com certos programas e aceitavam uma política externa americana muito musculosa contra o perigo percebido do comunismo. Tudo isso criou uma espécie de piso intermediário estável para a elite política, para os presidentes e os parlamentares, que passaram a dialogar num escopo bastante estreito.

Antes 'era mais fácil forçar normas a uma elite política em relação ao comportamento político. As tradições estavam postas pelas organizações partidárias'

A questão é que naquela época o país tinha apenas três grandes emissoras de televisão e alguns grandes jornais poderosos, de maneira que os jornalistas funcionavam como fiscais do discurso público de uma forma que é impossível hoje. A combinação de todas essas circunstâncias fazia com que o discurso político fosse mantido num patamar estável. Era mais fácil forçar normas a uma elite política em relação ao comportamento político. As tradições estavam postas pelas organizações partidárias.

Obviamente, havia um outro lado nisso. O espaço público era muito mais exclusivo e privativo sobretudo para os homens brancos. Grande parte das maiores preocupações de todo o restante da população sequer era objeto desse discurso político. Mas todos esses fatores combinados davam a impressão de haver um espaço de consenso expresso no discurso, sem loucuras, extravagâncias e mentiras. Muito mudou desde então, tanto no sistema midiático quanto político. Nós vivemos num mundo muito diferente hoje.

Essas mudanças fizeram do mundo um lugar melhor ou pior? E por quê?

Lucas Graves Essa é uma questão realmente complicada. Hoje nós temos muito mais vozes no discurso público. Isso é bom. Isso aponta para uma sociedade mais democrática. Há não muito tempo nós celebrávamos o fato de a internet estar trazendo vozes de fora para dentro do discurso político, o que desafiou um tipo de jornalismo que tinha uma visão muito estreita do mundo, de gente que reportava as campanhas políticas como um tipo de jogo, tendo como base uma ideologia muito centralizada.​

Foto: Ricardo Moraes/Reuters - 11.11.2018
Jair_Bolsonaro
Jair Bolsonaro em entrevista

Então, a boa notícia é que nós ampliamos a arena política para pessoas que tinham sido deixadas de fora. O lado negativo é que há menos controle. Há menos mecanismos de responsabilização. Quando vemos a autoridade do jornalismo tradicional sendo desafiada, nós ficamos preocupados. É interessante ter o New York Times e o Washington Post tendo pelo menos uma autoridade básica para colocar os termos do debate, fixando pontos em relação a onde a prioridade deve estar. Agora, ter um presidente que questiona abertamente a legitimidade de toda a imprensa, dizendo que não se pode confiar nas matérias publicadas pelas mais respeitáveis organizações de mídia, é um desdobramento realmente assustador, porque muitos seguidores de quem diz isso acreditam no que está sendo dito.

Essa é uma das razões pelas quais se tornou impossível responsabilizar um político pelo que ele diz. Trump sempre poderá dizer a seus seguidores “não acreditem nisso, nessa checagem. Ela foi feita para me prejudicar”. É claro que, nesse ambiente, torna-se muito mais difícil conseguir consensos mínimos sobre as políticas públicas e mesmo sobre os termos do debate político. Há uma lista enorme de problemas reais americanos que foram completamente ignorados enquanto nos obcecamos constantemente com o que Trump diz. E eu sei que o mesmo ocorre no Brasil, com Bolsonaro. Então, muito progresso foi feito. Mas também há a sensação de que podemos perder muito.

Qual o futuro de tudo isso – do jornalismo, dos mentirosos profissionais – tanto nas próximas eleições presidenciais quanto no horizonte mais distante?

Lucas Graves É muito difícil dizer. O surgimento das agências de checagem foi um desenvolvimento realmente interessante, por exemplo. Você vê isso pelo mundo, esse novo elemento incorporado ao acompanhamento do discurso público. É uma nova criatura, que não existia antes. São pessoas dedicadas a realmente verificar a verdade, a checar o que está sendo dito publicamente, o que está circulando online. Isso é interessante como resposta a todas as mudanças que eu mencionei anteriormente. E isso é também uma resposta às oportunidades que as novas tecnologias criaram. São novas formas de jornalismo, novas formas de discurso.​

Em algum sentido, você pode considerar a checagem de fatos como uma nova instituição política, uma instituição que tem futuro para os que se preocupam com a verdade. Porém, ao mesmo tempo, é difícil imaginar essas vozes ganhando a autoridade que a chamada mídia mainstream um dia teve, num ambiente muito mais aberto de comunicação.

Pode ser que surja uma rede ampla e abrangente preocupada com o discurso verdadeiro, com o discurso razoável. Nós vimos isso acontecer nos EUA de maneira progressiva, como uma resposta à corrupção e à extravagância de uma certa elite que tinha tanto poder e tanta influência sobre as políticas de todo um país na virada para o século 20. Estou falando das reformas eleitorais, políticas e democráticas, da criação de corpos de fiscalização. Todo esse movimento foi acompanhado pelo crescimento dos métodos de investigação científica e da valorização da ciência como uma área capaz de dar uma contribuição efetiva para a vida pública e para o discurso público. Isso fez crescer o respeito pelos fatos. Tenho a esperança de que haja um movimento semelhante agora, mas isso tem que acontecer de baixo para cima, de maneira a prover uma checagem mínima sobre o comportamento dos políticos. Esse seria o melhor cenário possível. Mas será um processo de décadas, não de anos.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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