A violenta e complexa história da Amazônia, segundo este autor

Escritor manauense Márcio Souza lança obra que atravessa séculos para ampliar o conhecimento e combater estereótipos sobre a região. Em entrevista ao 'Nexo', fala sobre os desafios da sua pesquisa

Encarada como território misterioso e inóspito desde os tempos coloniais, a Amazônia sempre inspirou histórias fantasiosas e estereótipos errôneos. Nas histórias nacionais dos países que compõem seu território, “a região sempre aparecia num eterno e recorrente estado de descoberta e primeiro contato”, segundo o escritor manauense Márcio Souza.

Para Souza, o descaso e a falta de informação seguem vivos no presente. Ele cita como exemplo a coleção “Intérpretes do Brasil”, preparada pelo Ministério da Cultura em 2014 por ocasião do 5º Centenário do Descobrimento, “em que não há uma única linha sobre a Amazônia”.

O autor considera que o mercado editorial brasileiro apresenta um déficit de obras sobre a região. Em contraste com a produção acadêmica, rica e prolífica, o leitor comum se frustrará se quiser conhecer “os grandes traços do processo histórico da Amazônia”.

“Se você chegasse em Manaus e Belém em 1820 e falasse em Amazônia ninguém saberia do que se trata. Achariam que estava se referindo ao rio. Os nativos então se chamavam de portugueses americanos."

Márcio Souza

Escritor

Em “História da Amazônia” (Record, 2019), Souza procura suprir lacunas e combater chavões arraigados. Em entrevista ao Nexo, o autor afirmou que sua obra “pode pecar pela falta de aprofundamento em alguns temas, mas pelo menos os pontos principais e os debates sobre a Amazônia estão esgotados neste volume”. O livro é uma ampliação e atualização de “Breve história da Amazônia”, que Souza lançou em 1994.

O autor elaborou um livro de referência de larga abrangência. Comparando sua empreitada com tentar “escrever a história do Oceano Atlântico”, Souza parte da chegada do Homo sapiens à região para atravessar os séculos e chegar à atualidade dos conflitos, dos grandes projetos governamentais e da favelização das cidades da região.

Como romancista, Souza já havia oferecido aspectos da história e do universo amazônicos em obras como “Galvez, Imperador do Acre” (1976) e “Mad Maria” (1980), sobre a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que virou minissérie da TV Globo em 2005.

O escritor já trabalhou como diretor de planejamento da Fundação Cultural do Amazonas, diretor da Biblioteca Nacional e, entre 1995 e 2002, presidente da Funarte (Fundação Nacional de Arte). Também foi professor-assistente da Universidade de Berkeley, e escritor residente nas universidades de Stanford, Austin e Dartmouth, todas nos Estados Unidos.

Seis momentos da Amazônia

A história indígena

Durante o século 20, para muitos pesquisadores a região era local de povos “sem história”. A região seria então “culturalmente marginal”, em especial quando comparada com povos da América Central e do Peru. Segundo Souza, só recentemente a historiografia ocidental e suas regras “centradas no documento escrito” começaram a ser contestadas, “permitindo que um conjunto soterrado de material pudesse ser apreciado como fonte primária”. Entretanto, estudar os processos culturais dos povos amazônicos é um desafio significativo pois conceitos centrais da civilização ocidental como “tempo/história” e “espaço/lugar” não fazem sentido na compreensão indígena. “Espaço e tempo se inscrevem na natureza numa única forma de conhecimento histórico”, explica Souza. “A curva de um rio, a floração de uma árvore, bem como o episódio de uma narrativa, são sinais que relembram o passado”.

 

Fundação de Belém e Manaus

As duas maiores cidades da Amazônia surgiram como fortes portugueses. Entre 1600 e 1630 os colonizadores da pequena nação europeia “consolidaram seu total domínio da boca do rio Amazonas. Em 1616, ergueram o Forte do Presépio de Santa Maria de Belém, um posto que desrespeitava propositalmente o Tratado de Tordesilhas, que dividia a América do Sul em metade espanhola e metade portuguesa. A fortificação era alvo de agressões constantes, de outros europeus e dos tupinambás. Em 1669, com o objetivo de conter possíveis incursões holandesas vindas do Suriname, Portugal decidiu fortificar a boca do Rio Negro. Surgiu o Forte de São José da Barra do Rio Negro, que mais tarde se tornaria a cidade de Manaus.

Francisca, escrava e indígena

Em 1739, uma indígena manau escravizada entrou na Justiça de Belém para tentar conseguir sua liberdade. Segundo o autor, Francisca é uma das poucas mulheres indígenas a deixar seu nome registrado em documentos oficiais na história da região. Apesar de lograr vitória em primeira instância, uma decisão superior lhe devolveu à escravidão. Com 40 anos no momento em que moveu a ação, Francisca foi uma sobrevivente numa atividade em que se morria facilmente. Para Souza, a história desta mulher humilde, que contou com o apoio de testemunhas a favor, mostra que “na vida real da cidade mais importante da Amazônia as barreiras sociais e as injustiças (...) não conseguiam impedir que existissem laços de amizade e solidariedade entre os oprimidos”.

A revolta da cabanagem

Na visão de Souza, a revolta ocorrida entre 1835 e 1840, cujo foco principal era a então província do Grão-Pará, carece, na bibliografia nacional, de análise e compreensão que dê conta de suas dimensões sociais. Para o autor, um fenômeno “de natureza única nas Américas” foi “reduzido a um simples hiato de anarquia social das massas incultas”. O movimento da Cabanagem, um levante principalmente de índios e mestiços, teria feito ressurgir o “orgulho de uma Amazônia indígena, que saiu de sua letargia para dar o troco de dois séculos e meio de atrocidades”. Ao massacre pelos revoltosos das forças ligadas ao Império, incluindo o presidente do Grão-Pará, Bernardo Lobo de Souza, mereceu resposta brutal da Regência. Forças imperiais teriam assassinado cerca de 30 mil paraenses, um quinto da população da região.

O boom da borracha

“Um movimento de veículos de toda a sorte, um vaivém contínuo, que parecia mais um grande centro europeu do que uma cidade tropical”, disse um viajante europeu sobre a Belém do fim do século 19. “A mais refinada das civilizações chegou até o rio Negro”, teria afirmado outro, em referência ao Teatro Amazonas, erguido em Manaus. Entre 1870 e 1910, o extrativismo da borracha trouxe prosperidade e europeização para as grandes cidades amazônicas. Algo, obviamente, desfrutado apenas por uma minoria. Por debaixo da opulência, se encontrava “a mais criminosa organização do trabalho que ainda engendrou o mais desaçamado egoísmo”, conforme a descrição de Euclides da Cunha das condições dos seringueiros em “À Margem da História”, citado em “História da Amazônia”.

Governo militar

O período da ditadura foi palco de projetos de grande porte, mas de poucos benefícios às populações da região. Destaca-se a Transamazônica, uma empreitada cuja necessidade foi questionada desde o início. Projeto importante dentro da ideia de Brasília de “desenvolver” e “integrar” a Amazônia, a estrada não foi concluída. “Em menos de dez anos, a selva reivindicou de volta quase todo o trajeto da Transamazônica”, escreveu Souza. Além disso, governo e Congresso foram acusados de “internacionalizar” a Amazônia ao facilitar a instalação de projetos de mineração e agropecuária de empresas norte-americanas. A mais conhecida dessas iniciativas foi o Projeto Jari, em que o bilionário Daniel Ludwig produziu celulose em uma fazenda com área equivalente ao estado de Sergipe.

‘A Amazônia não é uma fronteira primitiva’

Marcio Souza conversou com o Nexo por telefone sobre a pesquisa de “História da Amazônia” e questões centrais para a região.

A produção de livros sobre a história da Amazônia é escassa. O que isso diz sobre como o Brasil enxerga a região?

Márcio Souza Desde que o Grão-Pará foi derrotado pelo Império do Brazil [na revolta da Cabanagem] essa região aqui foi tratada como sub-colônia. A produção de estudos sobre a Amazônia é imensa fora do Brasil. Os maiores especialistas sobre Amazônia pré-histórica vêm da Holanda, são pesquisas refinadas, feitas com a ajuda de imagens captadas por satélite. Se você pesquisar na [loja virtual] Amazon, todo mês saem, em média, 30 títulos [estrangeiros] sobre a Amazônia em diversos campos.

No Brasil, há uma produção razoável de livros editados, mas não no mercado, e sim no circuito acadêmico. Há excelentes profissionais trabalhando com o tema, mas os resultados têm difusão muito pequena. Outra coisa é que, especialmente em São Paulo, não se considera que a Amazônia tenha vida intelectual. Você provavelmente nunca ouviu falar da Universidade do Estado do Amazonas, que tem 17 campi pelo estado, sendo a maior multicampi do país. Aulas são transmitidas via telão para as diferentes unidades. É que o Brasil é composto de várias ilhas, o Norte e o Nordeste hoje são todos “paraíbas”.

 

Quais os maiores desafios de compilar essa história? Você pesquisou mais no exterior do que aqui?

Márcio Souza Sim, passei mais tempo pesquisando fora do que aqui. Levantei muita coisa nas universidades do Texas, em Austin, e da Flórida, em Gainsville. Também pesquisei na França e Inglaterra. Inicialmente, fui à Biblioteca Nacional, que tem um acervo muito rico. Tive acesso a documentações e arquivos, mas nem tudo está lá. Encontrei coisas também no arquivo do Exército no forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ali encontrei, por exemplo, a planta do forte de São José da Barra do Rio Negro, de onde surgiu a Manaus portuguesa. O Arquivo Público do Pará, recentemente modernizado, foi crucial para a pesquisa. Pela primeira vez o arquivo da cabanagem estava disponível. Há muita coisa sobre qual não pude me debruçar. É o que digo no livro: tentar uma história da Amazônia é como tentar uma história do Oceano Atlântico.

Espero que o leitor perceba que a Amazônia não é uma fronteira primitiva, ao contrário, a partir do período pombalino para frente a história da Amazônia é uma história de modernidade, de métodos econômicos modernos que não existiam no Império do Brasil. A escravidão foi abolida em 1835 no Grão-Pará, no contexto da revolta da Cabanagem, antes do Império esmagar o movimento. Foi nessa época que surgiu o nome Amazônia. Se você chegasse em Manaus e Belém em 1820 e falasse em Amazônia ninguém saberia do que se trata. Achariam que estava se referindo ao rio. Os nativos então se chamavam de portugueses americanos.

No governo militar, falava-se muito em povoar e desenvolver a Amazônia. Quais foram as consequências sociais e econômicas desse esforço?

Márcio Souza Os militares dividiram a Amazônia em duas: Amazônia Oriental, que era o Pará, e a Amazônia Ocidental, que era o Amazonas. Inventaram super projetos para essas regiões. Foi tudo sendo partilhado. A região do Rio Jari ficou para Projeto Jari, por exemplo, o sul amazônico foi aberto à invasão dos paranaenses e gaúchos, que destruíram a cobertura vegetal. O Pará foi retalhado por ser um estado líder da Amazônia. O governador não tinha poder. Era um general no pedaço X, almirante no pedaço Y, brigadeiro em outro, eram eles que mandavam e desmandavam. No tempo do extrativismo, a terra não era uma questão. Só precisava das árvores para trabalharem. Aí começou a especulação de terras com a criação de gado. Hoje, a Amazônia tem a maior estrutura de campo para gado, que é o Baixo Amazonas. Resolveram então fazer criação de gado no Acre, roendo toda a cobertura vegetal do estado. Lamento dizer que Chico Mendes morreu por nada. Logo que ele morreu, abriram uma autopista de Rio Branco até a fronteira com a Bolívia.

Mesmo no governo Dilma, foram construídas as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e do Jirau [em Rondônia] e as obras resultaram no assoreamento do rio Madeira, o que é um absurdo. O Rio Madeira foi o centro da economia do látex e não derrubaram uma árvore. Mas o governo militar foi o ápice da megalomania. Destruíram muitas comunidades. Hoje, há a invasão do meridiano da soja. Às vezes, americanos vêm dizer para mim que são eles que estão destruindo a Amazônia. Eu digo que o problema não são os americanos, mas os paranaenses, gaúchos e paulistas.

Muitos brasileiros estão conhecendo uma nova faceta da Amazônia, a da violência urbana. Quais as causas desse fenômeno?

Márcio Souza O desenvolvimento econômico da cocaína é um fator central. Até os anos 1920, a coca era uma commodity, um insumo importante para a indústria farmacêutica, especialmente a alemã. Era comprado em farmácia. Os EUA lideraram a proibição dessa droga.  Assim como aconteceu com o álcool, o narcotráfico organizado prosperou com essa situação. Em Manaus, quando eu era criança ainda se falava dos fumadores de “dirijo”, o nome dado à maconha por grupos indígenas. Era algo muito raro.

Hoje, no Amazonas você tem três organizações poderosas, riquíssimas, capazes de fabricar um submarino que venha navegando da Colômbia até aqui sem ser notado. Aqui em Manaus, há uma área de preservação ambiental que se tornou uma favela chamada Cidades das Luzes. Fica às margens do rio Tarumã. Os barcos chegam facilmente para descarregar a droga nessa área. Uma das organizações, a Família do Norte, comprou armas de guerrilheiros das Farc que não se renderam, e agora estão em guerra com Comando Vermelho. A Família tem feito bons negócios. Eles têm primazia na compra da droga na Tríplice Fronteira, com Paraguai, Bolívia. Isso gerou uma violência que não existia na região.

A questão ambiental da Amazônia é uma preocupação mundial. Essa é uma pauta presente na política e nos debates locais?

Márcio Souza Está presente, mas não dentro do poder público, só da academia e dos movimentos sociais. para você ter uma ideia, o INPA [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia], que é o maior centro científico aqui, não tem verba. O salário do diretor é menor que o de um motorista do Palácio do Planalto. Não tem interesse. Isso daqui é para manter subdesenvolvido, com a ampliação do meridiano da soja e de um novo extrativismo, chamado extrativismo selvagem, que é o garimpo no modelo Brumadinho. Na população, a maior parte formada por migrantes nordestinos, a preocupação é com o que se vai comer hoje à noite ou amanhã. Já os empresários acreditam que se for preciso destruir para ganhar lucro, tudo bem.

De que forma os projetos e intenções do governo Bolsonaro podem transformar a Amazônia?

Márcio Souza Se ele tiver sucesso. Aqui entre nós, eu não sei o que ele pensa, não. Já estamos vendo as consequências. No Amapá, voltou o garimpo que tinha acabado, a pedido da França, porque estavam invadindo o território da Guiana Francesa. Essa estrada que sai de Manaus para Porto Velho é feita em cima de alagados. No dia da inauguração [em 1972], eu vi uma cena incrível. O [então ministro dos Transportes] Mário Andreazza, num carro conversível, indo pela estrada de terra, e do lado, uma lancha da segurança o acompanhando. Essa estrada exigia um número enorme de pontes. Para construir, era inviável economicamente. Hoje está fechada. A Marinha tentou fazer a sinalização dos rios, mas não conseguiu. Não tem verba. Muita coisa provavelmente não vai sair do papel. Coisas importantes para a população, como as comunicações, são feitas pelo Comando Militar da Amazônia. Aqui no interior, você não pode falar mal de duas [delas], da FAB e da Virgem Maria. 

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