Como não buscar a felicidade, segundo Luc Ferry

O escritor, professor de filosofia e ex-ministro da Educação francês fala ao ‘Nexo’ sobre os falsos ‘mercadores da felicidade’

 

Luc Ferry não tem a resposta para a pergunta “como ou onde encontrar a felicidade?”, que a maioria dos livros de autoajuda e alguns dos coaches mais bem pagos do mundo afirmam responder. Mas ele diz saber onde e como não procurá-la: nos livros de autoajuda e em coachings da moda.

O escritor francês, que em novembro vem a São Paulo para participar do Fronteiras do Pensamento, critica os falsos gurus, ou “mercadores da felicidade”, como ele os chama. Ferry crê que esses teóricos varejistas tratam a felicidade como um estado fácil de ser descrito, alcançado e mantido.

Para ele, a busca mercantilista das emoções acaba tratando, em paralelo, a infelicidade como algo não apenas evitável em tese, mas também algo a ser evitado a todo custo. “A infelicidade não é uma doença nem tampouco uma falha moral”, disse Ferry ao Nexo, em entrevista por e-mail realizada em 25 de julho de 2019.

A trajetória de Ferry, que foi ministro da Educação da França no governo do presidente Jacques Chirac, entre 2002 e 2004, assim como professor de filosofia e de ciência política, o coloca em posição de opinar tanto sobre a psicologia quanto sobre os rumos da globalização e o crescimento da extrema direita.

Como um defensor da aplicação da filosofia no cotidiano e de um conceito de espiritualidade laica, Ferry não dissocia o estado de espírito de seu tempo dos fatos que perturbam o humor humano. Para ele, nenhuma teoria que proponha uma espécie de otimismo alienado pode interessar ao ser humano. A resposta, diz Ferry, está na lucidez.

Por que a busca por serenidade vale mais que a busca pela felicidade?

Luc Ferry A busca da felicidade e da serenidade andam juntas, e eu não consigo ver como distingui-las no discurso da moda depois que os psicólogos americanos inventaram a psicologia positiva e as teorias de desenvolvimento pessoal. Não se fala de outra coisa na imprensa pop e os livros a respeito estão na lista dos mais vendidos.

Os mercadores da felicidade apoiam-se em três temas: a ‘autoajuda’, também chamada de ‘autogestão emocional’ ou ‘autoecologia’, a busca da autenticidade e a busca pela autorrealização. Tudo é embalado num discurso pseudo-científico que pretende não apenas mensurar, mas também criar a felicidade.

Para aumentar seu público, a psicologia positiva teve a habilidade de se dirigir não somente àqueles que sofrem de problemas psíquicos, como faziam a psicanálise e a psiquiatria tradicionais, mas a todo mundo, doentes ou não. Daí as receitas pré-embaladas que ela oferece, sob a forma de exercícios práticos, nos quais a banalidade, para não dizer a bobagem, não parece desencorajar os adeptos: refletir profundamente sobre seus desejos, identificar suas forças e fraquezas, realizar três boas ações por dia e anotá-las num caderninho, aprender a saborear o momento presente (mesmo sob um bombardeio na Síria?), buscar mais o prazer que a excelência (tenho certeza de que é mais fácil), abafar os pensamentos negativos, fazer da pessoa uma ‘marca’ (personal branding) e, para tudo isso, aparecer sempre ‘top’, sorrindo, bronzeado, em forma e, aconteça o que acontecer, de bom humor.

Para embrulhar tudo isso, os comerciantes do bem-estar universal agregam uma pitada de budismo e de taoísmo aqui e acolá, um pedaço de estoicismo, duas colheres de sopa de espinozismo e pronto: o primeiro coach autoproclamado se transforma num guru digno de um monge tibetano.

Diante de todas essas guloseimas, é preciso lembrar que a infelicidade não é uma doença nem tampouco uma falha moral. Não precisa ser um grande catedrático para compreender que a infelicidade faz parte de nossas vidas. É fácil definir a infelicidade. Por outro lado, a felicidade é indefinível de maneira precisa e durável.

A verdade é que os momentos de alegria e de serenidade que nós conhecemos às vezes são frágeis e efêmeros pois, ao contrário do que dizem os mercadores da felicidade, são momentos que dependem infinitamente mais dos outros e da sorte do que de uma fascinação narcisista com nosso próprio umbigo. A verdadeira sabedoria consiste em entender que o otimismo e o pessimismo são categorias da estupidez humana. A salvação só pode vir da lucidez.

Qual o risco de confundir serenidade com conformismo? O sr. defende um caminho pessoal e filosófico para a serenidade, mas o que dizer dos aspectos sociais como o trabalho, a pobreza, a desigualdade?

Luc Ferry Estar perturbado ou mesmo chocado por qualquer coisa, por uma injustiça, um crime, uma guerra ou as desigualdades, não é uma doença. Ao contrário, é um sinal de nossa humanidade. As filosofias como o estoicismo, o espinozismo ou o budismo, às quais a psicologia positiva faz referência sem cessar, nos convidam a não estarmos mais perturbados por nada, a estarmos zen e serenos em todas as circunstâncias. Elas são, em seus próprios termos, inumanas, inacessíveis por natureza aos humanos reais. A sabedoria que elas nos propõem não nos parece possível nem desejável.

O atual governo brasileiro critica o ensino de humanidades em escolas e universidades, dizendo que são disciplinas menos úteis que os estudos de caráter prático e técnico. Como isso soa ao sr.?

Luc Ferry A inteligência artificial se desenvolve numa velocidade enorme, e ela tornará certas áreas obsoletas. Os carros autônomos já existem. Eles circulam sem problema em alguns estados americanos e eu mesmo tive a chance de experimentar um deles em Paris, ao percorrer 5 quilômetros sem nenhum problema, sem que eu tivesse de tocar o volante uma só vez. Isso quer dizer que, dentro de 20 ou 30 anos, não existirão mais motoristas de táxi, de caminhões e de ônibus nas estradas. Este é apenas um exemplo entre milhares de outros que mostram como a inteligência artificial vai mudar o mundo do trabalho.

 

Nesse contexto, é preciso formar nossas crianças para funções que não desaparecerão, quer dizer, para as funções que as máquinas não saberão exercer. Claramente, o radiologista desaparecerá antes do clínico geral e o clínico geral desaparecerá antes do enfermeiro. Portanto, tudo o que diz respeito às humanidades, às relações humanas, se tornará vital para nossas crianças, pois é lá que as máquinas não saberão substituir os postos de trabalho e nós teremos necessidade dos humanos.

Os profissionais que usam a cabeça, o coração e a mão serão insubstituíveis: jardineiros, cozinheiros, enfermeiros, serão profissões do futuro, assim como professores, artistas, psicólogos. É preciso tornar nossas crianças complementares à inteligência artificial para evitar que elas sejam vítimas da inteligência artificial. No mundo que está por vir os humanos serão mais necessários do que nunca.

Como o sr. interpreta o crescimento da extrema direita no mundo? Quais são as causas desse movimento e de onde ele vem?

Luc Ferry A globalização liberal suscita temores em todo o mundo, e o retorno do nacionalismo é a consequência imediata disso, por uma razão evidente: o mercado é mundial, mas as políticas continuam sendo locais, nacionais, de tal maneira que elas dizem muito pouco respeito ao real.

Cada um sente mais ou menos, sem no entanto confessar, uma verdade que começa a se tornar assustadora demais para ser encarada de frente: o poder real dos políticos sobre o destino do mundo diminui de maneira cada vez mais perceptível. É claro que ainda restam margens de manobra possíveis, o que nos permite explicar a diferença entre um país que se adapta pouco, mal e sempre com sofrimento, como a França, e os que fazem esse trabalho com mais rigor, geralmente por que existe um consenso historicamente mais fácil, como a Alemanha.

As instâncias de competição da economia moderna e, com ela, de todo o movimento da história do mundo, são potencialmente infinitas. Nenhum de nós, por mais clarividente ou poderoso que seja, tem controle disso sozinho. Não havendo um governo mundial, do qual o G20 não é mais que um embrião, torna-se utópico esperar que nós possamos controlar facilmente o que quer que seja nesse processo, ou mesmo prever e prevenir eventos maiores, como crises e guerras.

O mundo escapa estruturalmente à nossa inteligência e ao nosso controle em todas as partes. A razão dessa impotência patente não está, ou pelo menos não está somente – como a maior parte dos observadores acredita – na imprudência, estupidez, falta de coragem ou desonestidade de nossos governantes. Está obviamente no fato de que as alavancas de comando, uma vez que são mundializadas, escapam cada vez mais do Estado-nação, de tal maneira que, no coração da globalização, já não contam muito.

É diante disso que a extrema direita propõe aos povos a volta ao nacionalismo, como nós vemos acontecer um pouco no mundo todo, e o faz com apoio de uma boa parte da extrema esquerda. É uma isca, é uma ilusão total, mas pelo menos entendemos como isso funciona.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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