Por que cientistas precisam ser também bons comunicadores

Em novo livro, pesquisador americano Lee McIntyre reverencia evidência científica como antídoto ao negacionismo. Ao ‘Nexo’, autor diz que internet tem jogado gasolina na ‘fogueira da irracionalidade’

 

Em 2016, um artigo publicado na revista científica do Instituto de Física do Reino Unido constatou, com base em seis estudos independentes, que 97% dos cientistas que tratam da questão climática concordam num ponto: os seres humanos estão, sim, causando o aquecimento global.

“Em termos de comparação, uma pesquisa similar concluiu que apenas 97% dos cientistas acreditam na evolução pela seleção natural, princípio que é o alicerce da biologia. Mais de 150 anos depois de Darwin, nós ainda não temos 100% de concordância sobre a evolução! Mas não precisamos disso, porque é como o consenso científico funciona”, escreve Lee McIntyre em seu livro “A Atitude Científica”, lançado em 2019 pela editora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Para o pesquisador do Centro de Filosofia e História da Ciência da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, apesar das inevitáveis divergências, o campo científico faz escolhas que resultam de um processo de escrutínio das afirmações de seus integrantes. E essas escolhas precisam, necessariamente, se apoiar em evidências.

Autor de obras como “Pós-Verdade” (2018, MIT Press), em que discute o fenômeno da disseminação de narrativas alternativas que ocupam o lugar dos fatos, o pesquisador se dedica em seu mais recente trabalho a discutir os limites da ciência, retomando tema já tratado pelo filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994), para quem as teorias só poderiam ser científicas se pudessem ser refutadas e provadas como falsas.

“Um benefício criado pela abordagem de Popper foi ele ter encontrado um jeito de uma teoria ser científica sem necessariamente ser verdadeira”, escreve.

Ao discutir o tema, citando episódios históricos de sucesso e fracasso da ciência, o pesquisador busca defendê-la de ameaças como o negacionismo (refutar o aquecimento global ou a eficácias de vacinas, por exemplo), as fraudes (direcionar dados de pesquisas para se chegar a um resultado desejado e, ao mesmo tempo, falso) e a pseudociência (práticas não científicas que fingem ser ciência, como a astrologia).

 

“Não é apenas a honestidade ou a boa-fé do cientista, mas a fidelidade à atitude científica como práticas de uma comunidade que faz a ciência ser especial como instituição”, escreve.

Em entrevista ao Nexo, por e-mail, McIntyre fala das principais questões de seu livro, defende que os pesquisadores se comuniquem bem para que suas conclusões alcancem o público leigo e critica o papel da internet em servir como combustível a teorias conspiratórias.

Como distinguir ciência do que não é ciência?

LEE MCINTYRE Como discuto em meu livro “A Atitude Científica”, acredito ser impossível solucionar o problema filosófico da demarcação da ciência fornecendo um critério lógico para distingui-la do que não é ciência ou do que é pseudociência. Mas se você está apenas me perguntando o que é característico da ciência, então acho que o problema pode ser respondido falando sobre a atitude científica.

A não ciência é simplesmente o que não é ciência. Isso incluiria campos como a arte, a literatura e a filosofia, que não se norteiam cientificamente, mas que também não tentam fazer isso. Com a pseudociência, porém, temos o problema de campos que fingem ser científicos, como a astrologia, o design inteligente [teoria que defende que a vida e o universo foram concebidos de forma acabada por um ser inteligente] e a radiestesia [uso de instrumentos como pêndulos para encontrar elementos escondidos, como água subterrânea ou petróleo].

Há centenas e centenas de campos que fingem ter uma atitude científica ou que dizem seguir uma lista de regras científicas embora não as coloquem em prática. Isso acontece porque eles desejam ter o prestígio da ciência.

O que é ter uma atitude científica e qual sua importância?

LEE MCINTYRE A atitude científica é a ideia de que, primeiro, os cientistas se importam com as evidências e, segundo, estão dispostos a mudar de opinião se surgirem novas evidências. Essa é a característica que distingue a ciência e é o elemento essencial sem o qual a ciência não pode avançar.

Isso é demonstrado por toda a história da ciência, por aqueles campos que, inicialmente, não sustentaram suas teorias em evidências (como a eficácia da sangria na medicina), mas posteriormente mudaram de ideia baseados em experimentos ou em informações adicionais. A predisposição para mudar as concepções com base em mais investigações é o que há de essencial no raciocínio científico.

Quais os efeitos das fraudes na ciência?

LEE MCINTYRE A fraude é o pior tipo de traição à atitude científica, porque é realizada por aqueles que pretendem segui-la, mas a trapaceiam. Suponha que um cientista falsifique as evidências. Isso mostra que ele não se importa com elas. Suponha ainda que um cientista descubra que sua teoria é refutada por uma nova evidência, mas a encobre e finge possuir um modo de explicá-la ou de mostrar que ela é inconclusiva. Ele mostra não estar aberto a mudar de opinião.

A ciência se sustenta numa comunidade de pessoas céticas que constantemente verificam os trabalhos uns dos outros. Mas é também baseada na confiança. Procurar e encontrar um erro honesto em um trabalho de um colega é uma coisa. Isso acontece com bastante frequência e é parte de como a ciência aprende. Mas descobrir que alguém mentiu deliberadamente sobre suas evidências solapa a base da ciência, que é um “ethos” científico apoiado na atitude científica.

Os cientistas têm sido capazes de explicar à sociedade de forma clara seus achados? Quais os riscos de se tornar hermética?

LEE MCINTYRE É sempre difícil quando o treinamento para a especialização se coloca no meio do caminho da habilidade dos cientistas de explicar seus achados ao público leigo. Acredito fortemente que é importante para os cientistas não apenas ser bons pesquisadores, mas também bons comunicadores. Sem isso, corremos o risco de ver o negacionismo da ciência crescer.

Veja o que está acontecendo com a negação da mudança climática ou das vacinas. Isso se deve, claro, a alguma ignorância sobre a ciência, mas também ao fato de que algumas pessoas não entendem como a ciência alcança seus resultados. Acho que cientistas devem batalhar para compartilhar não apenas seus achados científicos, mas também o processo com os quais esses achados foram produzidos.

O que faz pessoas acreditarem em teorias não comprovadas por evidências científicas?

LEE MCINTYRE Possuímos um viés cognitivo que torna sedutor acreditar no que queremos acreditar. Algumas pessoas formam suas crenças com base em ideologias, motivações, sentimentos, pressão de seus pares e identidade. A beleza da atitude científica está na predisposição a trabalhar contra tudo isso. Não importa no que queremos acreditar, se não for amparado por evidência, não é uma teoria científica. Por isso a ciência é tão especial.

Por que o negacionismo está em ascensão? Como isso se relaciona com a internet?

LEE MCINTYRE A negação acontece porque achados científicos colidem com as crenças que as pessoas possuem. Se essas pessoas, então, começam a ser expostas a uma desinformação que sustenta as suas crenças equivocadas, pode ser difícil manter a disciplina para ouvir os cientistas.

Como disse anteriormente, o viés cognitivo está dado. Todos nós temos e estamos propensos a ele e queremos acreditar em certas coisas com base no que sentimos. Não costumávamos a nos expor tão facilmente à desinformação. Agora, porém, ficou fácil.

A internet oferece ampla oportunidade de buscar as razões para confirmar que as crenças erradas estão, de fato, corretas. Um dos melhores (ou piores) exemplos é que o movimento que defende que a Terra é plana está crescendo porque as pessoas estão assistindo a certos vídeos no YouTube. É como se a internet estivesse jogando gasolina na fogueira da irracionalidade.

A ciência tem alguma responsabilidade em relação às fake news?

LEE MCINTYRE Cientistas não são responsáveis pelas fake news, mas devem lidar com suas consequências. Notícias falsas são frequentemente criadas por ideólogos que possuem, como agenda, tentar convencer alguém de que sua falsa crença é verdadeira. É claro que isso não é o que os cientistas fazem. Mas levando em conta que tantas pessoas fazem isso, acredito que seria uma boa ideia para os cientistas ter um papel mais ativo na luta contra quem nega a ciência e contra outras formas de desinformação.

Uma pesquisa recente, de 2019, feita por Philipp Schmid e Cornelia Betsch [da Universidade de Erfurt, na Alemanha] mostra que é eficaz lutar contra negacionistas tanto produzindo conteúdo científico preciso quanto identificando erros em seus raciocínios (como acreditar em teorias da conspiração). Os cientistas precisam se engajar mais nesse papel.

Como as ciências sociais podem se aperfeiçoar como ciência?

LEE MCINTYRE As ciências sociais enfrentam várias barreiras na tentativa de se tornarem mais científicas, mas essas barreiras não são tão grandes quanto as que a medicina enfrentou. No sexto capítulo de meu livro “A Atitude Científica”, faço toda uma discussão sobre como essa atitude transformou a medicina moderna.

Acho que o mesmo caminho está aberto para as ciências sociais. Podemos aprender muito com os experimentos e não devemos assumir que já sabemos algo. Os estudos do comportamento humano têm uma função importante de acolher a atitude científica, mesmo para quem está lidando com pesquisas qualitativas.

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