Trump e o Black Lives Matter, segundo uma de suas fundadoras

Cofundadora de movimento em defesa de direitos de pessoas negras, Opal Tometi fala ao ‘Nexo’ sobre o início do movimento, a ascensão e as declarações recentes do presidente dos Estados Unidos

Em uma noite de fevereiro de 2012, o jovem negro Trayvon Martin, de 17 anos, foi seguido, alvejado e morto por um vigia de bairro na Flórida. O autor dos disparos, George Zimmerman, alegou legítima defesa e acabou sendo absolvido pelo assassinato.

Martin estava desarmado e, segundo uma das testemunhas do caso, falava ao telefone em fones de ouvido quando começou a ser seguido pelo guarda, que o teria atacado.

O julgamento de Zimmerman revelou um país racialmente polarizado entre nacionalistas brancos e uma parcela da população indignada com a falta de punição ao assassinato de Martin.

Protestos eclodiram e continuaram a ganhar força à medida que outros jovens negros se tornavam vítimas da violência policial – as mortes de Tamir Rice, Eric Garner, Walter Scott, Freddie Gray e, Tyrone Harris foram os casos de maior repercussão . O movimento ganhou amplitude nacional e um nome: “Black Lives Matter” (em tradução livre, “vidas negras importam”).

Alguns anos depois, em 2016, veio a eleição de Donald Trump, que fortaleceu supremacistas brancos e a política anti-imigração. Em julho de 2019, o presidente americano tuitou ataques racistas dirigidos às deputadas progressistas Ayanna S. Pressley, Ilhan Omar, Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib. A conduta é vista como parte de sua estratégia de reeleição para 2020, que apostaria no tensionamento social e racial e na polarização política da população.

Uma das fundadoras do movimento Black Lives Matter, a ativista e escritora nigeriano-americana Opal Tometi, veio ao Brasil em julho de 2019, por iniciativa do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e de organizações pelos direitos da população negra.

Ela falou ao Nexo sobre as razões que colocaram o movimento em marcha, sobre o racismo estrutural nos Estados Unidos, a ascensão de Trump e as suas declarações mais recentes.

Por que o movimento Black Lives Matter começou?

Opal Tometi Começou por causa de uma sensação esmagadora de que o racismo contra os negros não foi enfrentado nos Estados Unidos. O racismo persiste, acontece em nível sistêmico e institucional, e estava claro para nós que as vidas negras estavam sendo desvalorizadas.

Pessoas negras foram tão desumanizadas nos Estados Unidos que podíamos literalmente ser mortos na rua com impunidade, seja por vigilantes, seguranças ou pela polícia.

A polícia nos Estados Unidos poderia literalmente matar uma pessoa negra desarmada, mulher, criança ou homem, e sair impune. Não haveria consequências. Estávamos cansados disso. Sabemos que temos direitos, que merecemos justiça e que não devemos ser tratados assim.

Sucessivamente, ao longo da história, vemos muita violência ser exercida contra a comunidade negra: pelo governo, nas empresas, nas ruas, em todos os níveis.

Somos uma comunidade marginalizada e respondemos por apenas 14% da população nos Estados Unidos. Ainda assim, a nossa existência é epidemicamente criminalizada, o que mostra que há algo de terrivelmente errado no país.

O Black Lives Matter foi uma resposta a uma violência muito real, à desvalorização real das pessoas e ao menosprezo das nossas questões e preocupações.

O movimento também é uma mensagem de amor às pessoas negras, para dizer que nós somos importantes, que nos amamos, que somos capazes de lutar por nós mesmos e que merecemos mais. Um lembrete de que podemos fazer algo, encorajando as pessoas a se envolver de onde quer que estejam, usando a plataforma que for.

Ao longo desses anos, tivemos pessoas de diversos setores se envolvendo: atores, economistas, advogados, políticos, professores, assistentes sociais, chefs. Seja lá quem forem e o que fazem, as pessoas estão participando e usando as ferramentas e os talentos que têm para alcançar justiça.

O que ele conquistou até o momento e o que ainda espera alcançar?

Opal Tometi O Black Lives Matter conseguiu fazer uma série de coisas no decorrer dos anos, como chamar atenção para os problemas que impactam a população negra não só nos Estados Unidos, mas no mundo.

Não somente nos posicionamos sobre o sistema penal e a forma como o policiamento ocorre nas comunidades negras – somos hiperpoliciados – mas também manifestamos preocupação com outras questões.

A comunidade negra é queer, é migrante, tem pessoas com deficiência, pessoas trans, pessoas pobres e nós defendemos uma compreensão inclusiva da experiência negra. Não somos monolíticos.

 Quando falamos sobre vidas negras, não estamos nos referindo a um único tipo de pessoa nem tentando alcançar justiça para alguns, deixando outros de fora. O Black Lives Matter é uma contribuição importante para a luta pelos direitos humanos porque estamos aqui brigando por justiça para todos nós.

Ao longo dos anos tivemos algumas vitórias importantes, destituindo autoridades que causaram danos às nossas comunidades, vendo a criação de leis, projetos e propostas para apoiá-las, recursos sendo destinados e investidos nas comunidades negras. Vimos pessoas boicotarem e retirarem investimentos de empresas que agiram mal e causaram danos à população negra. Vimos muito acontecer, tivemos muitas vitórias e sei que teremos muitas mais.

Os protestos surgiram durante o governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama. O que isso indica?

Opal Tometi Isso nos diz que o racismo estrutural é maior do que o simbolismo de uma pessoa negra ser eleita. É maior do que um indivíduo, do que um político. O racismo acontece, não importa quem for o presidente, porque há sistemas e a história que precede qualquer indivíduo.

Damos valor a certos indivíduos, a determinados campeões da justiça e dignidade, mas também precisamos ter, nas comunidades negras, na sociedade e no mundo, a compreensão de que ao falar de racismo não estamos falando de indivíduos isolados, mas de sistemas de opressão contra pessoas negras e não brancas em geral. Essa é nossa principal preocupação.

É revelador que tenhamos tido o primeiro presidente negro e, ao mesmo tempo, esse tipo de protesto surgindo. Há pessoas negras vivendo uma realidade cotidiana muito diferente daquela de uma elite que não é afetada por essa violência.

Uma realidade em que temos a polícia patrulhando as comunidades pobres, capaz de exercer, sem consequências, violência letal com suas armas. Por conta do preconceito que eles têm contra os negros, eles nos veem imediatamente como criminosos, veem nossa pele como uma arma e atiram rapidamente porque estão autorizados a fazê-lo e para demonstrar que temem por suas vidas.

Alguns analistas políticos dizem que a ascensão de figuras como Trump ao poder representa uma reação ao fortalecimento das lutas identitárias (mulheres, LGBTs, pessoas negras) nos últimos anos. Isso faz sentido para você?

Opal Tometi Para ser honesta, acredito que o fato de termos um presidente como Trump seja retaliação. Embora ele tenha perdido no voto popular, foi eleito tecnicamente para repudiar o progresso que conquistamos.

Há supremacistas brancos e outras pessoas racistas que realmente acreditaram em seu alarmismo, em suas palavras contra imigrantes e pessoas não brancas. Compraram suas mentiras e votaram nele.

Mas algumas pessoas de fato tinham aquelas mesmas opiniões terríveis e retrógradas. Essas questões não tinham sido enfrentadas nos Estados Unidos e eles ficaram mortificados que o Black Lives Matter tenha trazido isso à tona, que o movimento tivesse sucesso e conquistasse aliados, que outros movimentos fossem criados. Ficaram contrariados e elegeram o político mais racista possível.

Você trabalhou durante anos em uma organização chamada Black Alliance for Just Immigration (Aliança negra por uma imigração justa). Por que a imigração também é uma questão de raça nos Estados Unidos?

Opal Tometi Temos o dever de garantir que nossos sistemas funcionem de maneira justa para todo mundo e o que vemos é que isso não acontece. Na BAJI (Black Alliance for Just Immigration) acreditamos que raça importa e que a justiça racial deve ser aplicada também aos migrantes e refugiados, e há muito tempo isso não acontece.

Também acreditamos que afro-americanos e imigrantes não brancos são mais fortes juntos. Há uma história compartilhada entre nós e oportunidades a serem alcançadas se conseguirmos nos juntar, e não cedermos às formas como políticos e corporações tentam colocar nossas comunidades umas contra as outras.

Há muito tempo nos dizem que imigrantes estão tomando nossos empregos, que eles vão tomar nossos lugares nas escolas. A verdadeira questão é: por que estamos brigando por centavos? Por que não estamos olhando para aqueles que estão no poder?

Em última instância, eles buscam pessoas mais e mais exploráveis, a quem eles possam pagar o mínimo, que não tenham direitos a que possam recorrer, assustadas, em uma posição de abuso da qual tiram vantagem.

Temos interesse em unir forças e lutar por justiça para todos nós, construindo uma democracia multirracial que funcione.

Deputadas negras, de origem latina ou muçulmana recentemente foram alvo de comentários racistas de Trump no Twitter. Que aspectos do discurso dele chamam sua atenção?

Opal Tometi Sim, são provavelmente os tuítes mais racistas dele até hoje, embora ele tenha dito algumas coisas muito horríveis ao longo dos anos. Sabemos que ele está dizendo isso contra essas quatro deputadas progressistas e respeitadas para que elas sejam atacadas pela parte mais violenta de seus apoiadores. Ele está sinalizando aos supremacistas brancos, que têm tendências violentas, para atacá-las e assediá-las.

Ao dizer coisas racistas e ser o principal animador dessa plateia, está tentando  tomar conta das ondas sonoras e nos distrair dos reais problemas que nossa sociedade enfrenta. É importante reconhecermos [o racismo], denunciarmos. Ele sabe exatamente o que está fazendo, está muito ciente de seu comportamento e das implicações disso para nossas comunidades.

Depois de ter feito essas declarações, ele realizou um comício na Carolina do Norte em que as pessoas começaram a gritar “send her back” (mande-a de volta para o seu país) para [a deputada] Ilhan Omar. Nunca na história moderna se viu algo semelhante vindo de um político, ainda mais do presidente nos Estados Unidos.

É assustador ver estes valores racistas serem promovidos dessa forma. Ele precisa parar porque é algo perigoso, ele está dando o sinal para que qualquer um mate Ilhan Omar. Não podemos tratar isso de forma leviana. Esse presidente precisa sofrer um impeachment e precisa se desculpar por seu comportamento irresponsável.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: