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Por que a sensibilidade fofa se tornou tão influente

Entre emojis e mãos em forma de coração, a cultura do século 21 parece obcecada com a fofura. O filósofo inglês Simon May conversou com o 'Nexo' sobre o livro em que busca explicações para o fenômeno

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Atualmente, pessoas de todas as idades deixaram de expressar ideias ou sentimentos com palavras, colocando no lugar carinhas amarelas com expressões diversas. Cachorrinhos com pupilas enormes são sucessos de compartilhamento. E até o presidente da República Jair Bolsonaro às vezes troca o símbolo da arminha para fazer um coração com as mãos.

A ascensão da fofura como uma das sensibilidades que definem o mundo atual parece evidente quando se liga diversos pontos presentes na cultura e no comportamento. Entretanto, pouco se produziu até agora no sentido de tentar explicar o contexto e as motivações desse fenômeno.

Em seu livro “The Power of Cute” (o poder do fofo, em tradução livre), o filósofo inglês Simon May, professor visitante na King’s College, em Londres, propõe-se a fazer exatamente isso. Na obra, ele promove uma varredura na paisagem social, cultural e política do mundo em busca de sinais e explanações. Alguns de seus achados são óbvios, como a obsessão generalizada pela menina-gata Hello Kitty. Outros, inusitados, caso do corte de cabelo do ditador norte-coreano Kim Jong-un.

Entre os fenômenos que, na visão do autor, ajudam a elucidar a popularidade da fofura destaca-se a valorização crescente do período da infância. Segundo ele, as duas correntes (popularidade da fofura e valorização do universo infantil) se expandiram em paralelo. “A criança é o novo objeto supremo do amor, que está, muito gradualmente, tomando o lugar do amor romântico como o amor arquetípico”, provoca.

May dedica um capítulo só ao Japão, país que, para ele, se tornou o primeiro em que “a fofura se tornou central em sua imagem mundial”. “Hoje você pode encontrar imagens fofas por todo o Japão: em desenhos mangá e bancos comerciais; em telefones celulares, avisos de segurança do governo e até mesmo helicópteros de ataque das forças armadas; e também, é claro, nas obras de artistas famosos como Takashi Murakami e Yoshitomo Nara. Indiscutivelmente, o Japão é a primeira nação a se apresentar como fofa”.

Por e-mail, May conversou com o Nexo sobre estes e outros aspectos da fofura.

Como você define a fofura?

Simon May  Como muitos fenômenos poderosos, “fofo” tem um espectro de significados — não um significado único e simples. No extremo “doce” do espectro são as qualidades inofensivas, inocentes e não ameaçadoras, as mais frequentemente associadas com o fofo, e que vemos em bebês, ursos de pelúcia ou pandas. Tais qualidades “doces” incluem comportamentos que parecem impotentes, encantadores e dóceis, assim como características anatômicas semelhantes a bebês, como cabeças grandes demais, testas proeminentes, queixos recuados e andares desajeitados. Despertam em nós, seus espectadores, sentimentos deliciosamente protecionistas e nos oferecem contentamento e consolo.

Mas, se fofura dissesse respeito apenas ao charmoso, ao inocente e ao não ameaçador, ou se nossa atração por ele fosse motivada apenas por instintos protetores, ou pela busca de distrações infantis e tranquilizadoras das ansiedades do mundo de hoje, ela não seria tão onipresente. À medida que nos distanciamos da extremidade doce do espectro fofinho para o que poderíamos chamar de extremo “esquisito”, as qualidades doces são distorcidas em algo mais sombrio, indeterminado e machucado. Algo como a obra “Balloon Dog”, de Jeff Koons, que parece ao mesmo tempo poderoso (é feito de aço inoxidável) e impotente (é oco e não tem rosto, boca ou olhos). É enorme, mas aparentemente vulnerável; familiar e estranho; confortantemente inocente e também inseguro e sábio. É notável que o tipo de fofura que é uma sensação global hoje seja precisamente essas coisas mais sombrias, deformadas e esquisitas, como “Balloon Dog” ou a Hello Kitty — a estranha menina-gato que não tem boca, voz ou dedos — e não pandas bebê ou cachorrinhos fofos.

Quais os desafios de tentar falar sobre a fofura e sua influência?

Simon May O principal desafio foi superar a visão generalizada de que o fofo é muito trivial ou infantil para ser levado a sério. Talvez por isso, temos uma palavra que é usada em todo o mundo e sobre a qual tão pouco foi escrito, como se não valesse a pena pensar — como a palavra "camp" (afetação exagerada) nos anos 1960. Ela estava em ampla circulação, mas nunca tinha merecido uma reflexão mais atenta até que Susan Sontag escreveu suas famosas “Notes no Camp". Concordo que objetos fofos são geralmente triviais, mas a percepção que a obsessão por eles nos dá o mundo de hoje não é trivial. É fascinante! Por que, por exemplo, o trailer oficial do YouTube para o novo filme do Pokémon alcançou mais de sessenta e sete milhões de acessos? O que explica a proliferação de emojis, usada por pessoas de 9 a 90 anos de idade? Ou os logos fofos que enfeitam inúmeros produtos, de computadores e telefones, de brinquedos infantis a calendários a preservativos e lentes de contato?

Seu trabalho enfatiza a ambivalência do que é fofo. Isso é um fator chave do seu apelo?

Simon May Sim, é uma das principais razões para o seu apelo. Se você observar objetos muito populares, como Hello Kitty, Balloon Dog, o ET, ou o Mickey, em sua encarnação pós-1945 — você verá que eles não parecem nem claramente masculinos nem femininos, nem claramente jovens nem velhos, nem claramente humanos nem não-humanos. Essa subversão das fronteiras levemente ameaçadora — de gênero, idade, espécie e assim por diante —, quando apresentada na linguagem frívola e provocante da fofura, é central para seu imenso sucesso. Porque isso é assim? Acredito que é porque isso ressoa profundamente com a vontade de nossa época de afirmar, e até mesmo de se deleitar, com a idéia de que a incerteza ou a indeterminação é intrínseca à vida humana. De que não há significado ou conhecimento ou propósito final na vida. As categorias agora estão mais borradas. Por exemplo, vemos cada vez mais masculino e feminino ou infantil e adulto como espectros, não como dois pólos opostos. Cada vez mais, vemos a existência como marcada pelo que Nietzsche chamou de “se tornar” — fluxo contínuo — em vez do “ser” estável.

A popularização crescente da fofura significa que estamos todos nos tornando mais infantis? Isso não é ruim?

Simon May Sim, até certo ponto estamos nos tornando mais infantis na medida em que, em nosso mundo cada vez mais incerto e impregnado de intolerância, injustiça e ódio, talvez procuremos cada vez mais a segurança e a inocência da infância. Mas acho que a popularidade do fofo também fala de algo bastante distinto: a descrença em distinções nítidas entre infância e idade adulta. Vivemos em uma época em que o mundo adulto — em particular, sua intensa preocupação com expressão individual, sexualidade, autenticidade e escolha do consumidor — permeia cada vez mais o mundo da criança. E, inversamente, desde Freud, se não antes, a experiência da infância é vista como determinante de quase tudo o que é importante sobre a vida adulta, influenciando nas principais emoções e decisões. Nesse sentido, ser infantil é inevitável — e não pode ser visto como necessariamente indesejável!

Em um trecho do livro, você rebate diversas críticas feitas à popularidade da fofura. Quais os aspectos positivos dessa tendência?

Simon May Primeiro, muitos dos críticos veem a fofura apenas como inofensiva, impotente e infantil: em outras palavras, eles veem apenas o que chamo do lado "doce" do espectro fofo. Mas isso não explica seu enorme sucesso, que depende crucialmente de suas qualidades incomuns. Em segundo lugar, critica-se a fofura por promover um escapismo narcisista, porque impõe qualidades infantis a pessoas e objetos fofos. Mas, se o grande estudioso do comportamento animal, Konrad Lorenz, estava certo quando sugeriu, em 1943, que nossa resposta a esse tipo de pistas evoluiu para nos motivar a dar aos nossos filhos o cuidado e criação que eles precisam para prosperar, então a atração pela fofura pode expressar motivações altruístas e, não necessariamente, impulsos infantis ou narcisistas. De fato, os psicólogos sociais norte-americanos Gary Sherman e Jonathan Haidt vão ao ponto de considerar a resposta à fofura uma “emoção moral” por excelência. O motivo seria que ela nos faz ver estranhos ou animais ou objetos fora do nosso círculo imediato como merecedores de proteção e cuidado. Ela nos estimularia assim a expandir nosso círculo de preocupações morais. Em suma: assim como a maioria das sensibilidades, a fofura pode ser usada indevidamente para fins inaceitáveis; mas tal abuso não é, de modo algum, inerente a ela.

O fascínio pelo fofo é algo exclusivo à nossa era ou existem precedentes históricos?

Simon May A explosão do fofo é bem recente. Só aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial e, em particular, desde a década de 1980. Há precedentes históricos, mas a palavra em si, pelo menos na língua inglesa (“cute”), não aparece antes do século 18 e na verdade só é amplamente utilizada em meados do século 19, com, por exemplo, a moda dos chamados “baby shows” nos Estados Unidos, onde mães e filhos eram colocados em exposições públicas e atraiam centenas de milhares de espectadores. Ou na mania pelo General Tom Thumb, um homem de 24 anos que tinha apenas 90 centímetros de altura e se tornou uma celebridade na América e na Europa. É claro que havia cupidos e outras figuras semelhantes na arte da Roma antiga e no renascimento italiano, mas não sei se foram percebidos como o que agora chamamos de “fofo”.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que o personagem Tom Thumb tinha 31 centímetros de altura. A informação foi corrigida às 21h24 do dia 24 de julho de 2019.

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