Por que crescer não é tudo na economia, segundo esta autora

Inglesa Kate Raworth enfatiza efeitos colaterais da busca pelo aumento do PIB que pauta a agenda dos governantes nas últimas décadas

    O objetivo principal de uma política econômica de um governo, quase sempre, é o crescimento. Um produto interno bruto maior é, na visão clássica da economia, a melhor maneira de gerar riquezas e, consequentemente bem-estar para a população.

    No setor privado, apesar de várias diferenças, a lógica se mantém. Uma empresa existe para crescer, produzir mais, contratar mais funcionários que produzam cada vez mais. Uma economia aquecida tem mais chances de empregar e garantir renda a mais gente, dar acesso a produtos básicos.

    Entre 1960 e 2018, o PIB global saltou de US$ 1,37 trilhão para US$ 85,7 trilhões — em valores nominais, sem a inflação do dólar que foi de cerca de 748% no período. Mesmo levando em conta a inflação, isso é muito mais que o crescimento da população no período. O número de habitantes pouco mais que dobrou, saltando de 3 bilhões para 7,6 bilhões.

    Só que a busca incessante pela expansão tem efeitos colaterais indesejados. Foi observando os impactos do crescimento econômico no planeta, na sociedade e na própria economia que a inglesa Kate Raworth, professora da Universidade de Oxford, começou a pensar em um modelo alternativo.

    Em seus estudos, Raworth discute um novo modelo de desenvolvimento mais “saudável”. O desafio é unir progresso econômico com preservação do meio ambiente, preocupação com o bem-estar das pessoas. E o primeiro passo para o novo modelo é abandonar a ideia de que a economia precisa crescer a qualquer custo.

    Raworth vê uma contradição entre as necessidades das pessoas e as do planeta e fala da necessidade de equilibrar o desenvolvimento. Ela critica ainda o uso exagerado da matemática nos estudos econômicos. Para ela, um economista não deve ser um engenheiro, mas sim um jardineiro que observa o desenvolvimento e cuida para evitar desequilíbrios.

    Raworth veio ao Brasil no início de julho para divulgar seu livro “Economia Donut” e foi entrevistada pelo Nexo por e-mail.

    Como analisa o estágio atual do capitalismo, as mudanças que nos trouxeram a ele, suas crises e efeitos colaterais?

    Kate Raworth Graças ao capitalismo do final do século 20, herdamos economias que se fixam no dinheiro como métrica de sucesso e o crescimento sem fim como caminho de progresso. O dano causado por esse modelo restrito — em termos de profundas desigualdades sociais e colapso ecológico — está agora levando muitas pessoas a buscar um novo paradigma.

    Um paradigma que começa não com dinheiro, mas com a métrica da vida medida em seus próprios termos: pessoas e comunidades saudáveis, com um clima planetário estável e ecossistemas prósperos. E com isso, a própria forma de progresso muda, do crescimento sem fim para o equilíbrio. Assim como entendemos em nossos próprios corpos que a saúde está no equilíbrio, também estamos começando a entender isso em relação ao corpo planetário do qual todas as nossas vidas dependem.

    Quais os efeitos colaterais do crescimento das economias ao longo das décadas? Acredita que houve também consequências positivas?

    Kate Raworth O crescimento é uma fase maravilhosa e saudável da vida. Adoramos ver nossos filhos crescerem — e o crescimento econômico pode ser um grande benefício para as economias também, se seus retornos forem bem investidos no bem-estar futuro. Mas na natureza nada cresce para sempre. Nossas economias, no entanto, estão estruturadas para esperar, demandar e depender do crescimento para sempre, com retornos exponenciais.

    O resultado é uma economia que extrai esses retornos financeiros explorando as pessoas e o planeta. Nós herdamos economias que precisam crescer, quer isso nos faça prosperar ou não. Precisamos agora criar economias que nos permitam prosperar, crescendo ou não. Fazer essa transformação é a questão econômica existencial do século.

    Que pontos acredita que precisam ser primordialmente atacados no modelo atual?

    Kate Raworth Impedir que professores comecem a explicar economia com oferta e demanda e, portanto, referindo-se à morte do planeta vivo como uma “externalidade ambiental”. Comece por aqui: a economia está inserida no mundo vivo e totalmente dependente de seus materiais e energia para cada atividade econômica. Não há externalidades, apenas efeitos, e hoje os efeitos ecológicos da atividade econômica são tão enormes — em termos de crise climática e colapso ecológico — que devem estar na vanguarda de todo pensamento econômico no século 21.

    Por que você diz que o aumento da desigualdade é uma escolha política?

    Kate Raworth Desigualdades profundas na sociedade resultam da dinâmica criada pela estrutura da sociedade, particularmente determinada por quem possui e controla as fontes de geração de riqueza. Quem é dono da terra e da moradia, quem é dono de negócios, quem é dono de conhecimento e quem é dono do poder de criar dinheiro.

    Cada um desses modelos e padrões de propriedade é uma escolha. Não há nada inevitável ou imutável nessas escolhas ou nas dinâmicas que elas criam.

    A visão liberal indica que regulação diminui eficiência e a geração de riqueza. Eles têm razão? Como os seus estudos lidam com a busca por eficiência na economia?

    Kate Raworth O modelo de negócios do século 20 se tornou obcecado com a eficiência, que poderia gerar valor financeiro, justificando assim danos sociais e ecológicos em nome do deus da eficiência. Mas qualquer sistema que seja eficiente demais se torna frágil e vulnerável ao colapso.

    O que é necessário é um equilíbrio entre ser eficiente e ser resiliente, ter a capacidade de resistir a choques e lidar com mudanças. E isso exige regulamentação que proteja os fundamentos sociais e ecológicos. Em última análise, queremos ser eficazes em prosperar — e o impulso do século passado para ser eficiente na criação de retornos financeiros fica muito aquém disso.

    Uma mudança drástica no modelo não poderia travar ou desfazer avanços conseguidos, por exemplo, no combate à fome?

    Kate Raworth Eu discordo da premissa aqui. Eu diria que é uma falha moral internacional que, ainda em 2019, 815 milhões de pessoas em todo o mundo não têm comida suficiente para todos os dias. Isso em um planeta onde entre 30 e 50% de todos os alimentos produzidos são perdidos após a colheita, desperdiçados nas redes de abastecimento ou nos pratos não raspados na mesa de jantar. É em boa parte devido ao atual modelo econômico que essa situação persiste.

    De onde pode vir o impulso para as mudanças que a senhora propõe? É razoável pensar que empresários e governos vão se conscientizar?

    Kate Raworth Em toda minha experiência de estudar e observar a mudança acontecer, vejo que o impulso vem da convicção de indivíduos, sozinhos ou juntos, que têm a determinação de transformar sua visão em realidade. Estes podem ser grupos comunitários de base. Eles também podem ser CEOs e ministros do governo.

    O que importa é que os indivíduos se conectem com os valores que eles acreditam ser mais importantes e os canalizem para provocar mudanças. A partir daí, são necessárias mudanças na estrutura e no design de negócios e políticas para seguir essa convicção.

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