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O papel do humor gráfico feminista, segundo esta pesquisadora

Tiras e charges publicadas nas décadas de 1970 e 1980 na imprensa alternativa voltada para a luta das mulheres afirmam o lugar delas na produção do humor e contrariam estereótipos

Publicadas pela imprensa alternativa, as charges e tirinhas do período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) constituem uma faceta irreverente e bem-humorada da oposição ao regime. 

O humor gráfico de Millôr Fernandes, Henfil, Jaguar e de alguns outros cartunistas costuma ser a referência imediata no assunto.

Quase desconhecidas, porém, são as charges e tiras feministas, também críticas à situação social e política daquele momento, publicadas entre 1975 e 1988 não só no Brasil como na Bolívia, no Uruguai e na Argentina, em jornais e revistas como Mulherio, Cotidiano Mujer, Persona e La Escoba.

Foto: Reprodução
Charge publicada no boletim Sexo Finalmente Explícito, Junho de 1983
 

Essa produção foi o tema de pesquisa de doutorado de Cintia Lima Crescêncio, que defendeu a tese “Quem ri por último, ri melhor: humor gráfico feminista (Cone Sul, 1975-1988)” na Universidade Federal de Santa Catarina em 2016.

Atualmente professora do curso de história da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, a pesquisadora disse ao Nexo que seu interesse em estudar o humor feminista partiu da descoberta da documentação referente à coluna que Millôr Fernandes manteve na revista Veja entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980.

“Nessa coluna, ele fazia uso de seu talento e de certa violência simbólica para atacar o movimento feminista e as mulheres no geral. O mesmo vale para O Pasquim, com níveis diferentes de intensidade”, diz Lima. “Nesses usos e abusos do humor, as mulheres eram objetificadas. Quando eram bonitas, eram burras. Quando eram inteligentes, eram feias. As feministas? Todas mal amadas, feias, lésbicas, raivosas. Os cartunistas que viveram os anos de ditadura, os mais admirados do Brasil, têm em sua maioria uma marca em suas trajetórias: o ataque e ridicularização do feminismo que emergia no período, com inevitável ‘respingo’ nas mulheres em geral”.

Incomodada com esta abordagem, mas buscando continuar a trabalhar com o humor, a pesquisadora se voltou para a imprensa feminista de países sul-americanos.

“Nessa documentação, as mulheres não eram objeto de humor, mas produtoras dele e com uma abordagem bastante distinta. Através de um humor feminista, que ri da própria desigualdade entre homens e mulheres, esses documentos me mostraram outras formas de fazer humor”, disse.

Em entrevista ao Nexo, ela falou sobre as particularidades do humor feminista desse momento, como ele se contrapunha ao dito “humor hegemônico” e da negação histórica do humor às mulheres, do qual quase sempre foram alvo.

Como eram as charges e tirinhas das publicações feministas latino-americanas que você analisou?

Cintia Lima A circulação do humor feminista pelos países do Cone Sul era bastante difícil, assim como a circulação das próprias ideias feministas, que se confrontavam diretamente com as ditaduras que assolaram os países latino-americanos na segunda metade do século 20.

Em termos de forma, elas tinham traços variados: algumas eram nitidamente amadoras, outras tinham traços bastante complexos e rebuscados. Homens cartunistas eram colaboradores frequentes. A ausência de assinaturas era uma constante, tanto porque acreditavam na horizontalidade de suas publicações, tanto porque queriam proteger-se.

Vale lembrar que os jornais feministas que publicavam esses materiais eram jornais alternativos, tipo de imprensa que teve como característica principal o combate à ditadura. Sendo assim, a vigilância era constante.

Em termos de conteúdo, os temas são bastante semelhantes aos que o feminismo discute hoje, em pleno 2019: trabalho doméstico, casamento, maternidade, sexualidade, dupla jornada de trabalho, educação de meninos e meninas e assim por diante.

Foto: Reprodução
Tira da cartunista Ciça publicada na edição 1, de junho de 1976, do jornal Nós Mulheres
 

Na Argentina, há charges e tiras sobre aborto, na Bolívia sobre violência doméstica. Cada país apresenta uma particularidade em termos de tema, pois [a produção] dialoga diretamente com seus contextos e com as características do feminismo local.

A grande diferença desse humor é que ele não ataca pessoas – os homens, no caso.

O humor das fontes que cito, das décadas de 1970 e 1980, ataca no geral as estruturas desiguais que mantêm as mulheres em condições de subalternidade em relação aos homens.

O riso é sobre a educação que cria as meninas desde a infância para o casamento, sobre políticas de controle de natalidade que visam controlar o corpo de mulheres pobres. Em poucos casos, ri-se do próprio feminismo e do medo que se tem dele.

Há também um humor voltado para a masculinidade, em que homens são alvos sutis. Nesses casos o riso é sobre o homem, sempre preso ao sofá, que se recusa a compartilhar as tarefas domésticas, ou de maneira mais direta, sobre o homem incapaz de proporcionar orgasmos a sua companheira.

O humor autodepreciativo, aquele que ri de si mesmo, é bastante incomum, mas pode ser verificado de maneira sutil quando tiras ironizam a vida doméstica e a própria dona de casa.

É um humor, portanto, que não mira em grupos politicamente minoritários, nem nos homens. Esse tipo de humor tem como alvo a injustiça, a desigualdade e as estruturas que as sustentam.

O que é o ‘humor hegemônico’?

Cintia Lima É o que se funda na hierarquia para provocar o riso. É o humor baseado na construção do ridículo do sujeito que está por baixo, fundamentado em privilégios dos que estão por cima. É o humor dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres, dos brancos sobre os negros, dos heterossexuais sobre gays e lésbicas.

Essa ideia é constantemente confundida com a ideia do politicamente correto, já que hoje se lamenta o fato de não podermos “brincar” com mais nada. A premissa é que o humor hegemônico não provoca nenhum tipo de transformação ou reflexão. Sua única consequência é um riso vazio e a violência simbólica que atinge grupos minoritários.

Trata-se de um humor que violenta, agride, ofende. Esse tipo de humor marca a nossa história, bem como toda a produção teórica a respeito do humor. O humor mais desafiador e mais difícil é exatamente o contra-hegemônico, campo em que está inserido o humor feminista.

Como as feministas são, em geral, tratadas por esse tipo de humor?

Cintia Lima O humor nunca foi muito generoso com elas – isso fica expresso no amplo uso de estereótipos da feminilidade. Os estereótipos sobre o feminino são uma forte marca do humor produzido pelo jornal O Pasquim, considerado uma das grandes inovações da imprensa alternativa brasileira nos anos 1960.

Nesse humor, tudo aquilo que é ensinado às mulheres como valoroso para seu sexo biológico é ridicularizado. Mary Wollstonecraft, considerada umas das primeiras feministas, defendia já no século 18 os direitos das mulheres e enfurecia-se com o fato dos homens rirem e ridicularizarem tudo aquilo que eles próprios ensinavam e queriam ver cultivado nas mulheres.

A vaidade aparece como elemento primeiro. O Pasquim, em particular, tinha certa obsessão com os concursos de miss e não perdia a oportunidade de representar as candidatas como tontas. Essa vinculação entre feminilidade e riso teve consequências diretas para o tratamento do feminismo, já que umas das pechas que acompanham as feministas é, exatamente, a falsa ideia de que estas queriam ser homens.

Tal tratamento não é novidade. No começo do século 20, durante as lutas pelo sufrágio, tanto no Brasil como nos Estados Unidos e na Inglaterra, o uso do humor para ridicularizar mulheres feministas, que “não entendiam seu lugar inferior na sociedade”, era uma constante.

Assim como ainda é feito hoje, eram imbuídos às feministas estereótipos rasos através do humor, que lhes atribuíam características consideradas negativas: feias, sozinhas, mal amadas, lésbicas, raivosas e, obviamente, sem humor, já que elas eram incapazes de rir de tais gracejos.

A grande pergunta é se os estereótipos são fundamentais à produção do humor. O fato de um dos grandes eventos de humor do nosso país criar um espaço para as mulheres chamado “Batom, Lápis & TPM” é uma questão a ser pensada.

Por que mulheres, e em especial, as feministas, não são vistas como produtoras de humor?

Cintia Lima Essa pergunta nos leva a pensar sobre o humor como construção masculina – cada vez menos, certamente, mas ainda como construção masculina.

Isso quer dizer que as mulheres não são vistas como produtoras do humor não porque não produzem humor, mas porque o que é produzido pelas mulheres carrega consigo a ideia de “feminino”, enquanto a categoria que acompanha os homens é o universal absoluto.

Há argumentos no sentido de que o humor das mulheres é feminino, logo não poderia ser apreciado por muita gente. Interessante que o humor em que estamos mergulhados no dia a dia não é visto como masculino.

Elas produzem humor feminino, jogam futebol feminino, têm uma escrita feminina. Eles fazem humor, jogam futebol e escrevem. Não é incomum lermos sobre a ideia de que as mulheres não se interessam por humor, o que costuma vir acompanhado do consolo de que, ao menos, os homens estão preocupados em produzir personagens que as homenageiam.

Essa construção histórica tem relação direta com esse lugar negado às mulheres como de produtoras do humor. A psicanálise e a filosofia deram sua contribuição a esse cenário, construindo a ideia de que as mulheres não têm habilidade de fazer rir, que essa é característica dos homens, e que às mulheres cabe apreciar os gracejos de galanteadores cavalheiros com leves sorrisos.

Mais do que isso, costumava-se afirmar que as mulheres não tem lá muito senso de humor. Tal afirmativa raramente vem acompanhada da ponderação fundamental de que é difícil rir quando se é o alvo.

Por último, destaco o papel da história do humor no silenciamento do humor das mulheres, já que são raras as publicações, os documentários ou os registros que se dedicam a incluir as mulheres em antologias, dicionários, enciclopédias. Não porque elas não existiram, mas porque foram, arbitrariamente, ignoradas. Já as feministas sequer são pensadas como produtoras de humor, afinal, são consideradas incapazes de rir. 

De que maneira o humor foi usado politicamente pelas feministas latino-americanas durante as ditaduras militares no continente?

Cintia Lima O grande diferencial do humor feminista é que ele se configurava como arma de transformação, como forma de crítica e reflexão sobre um mundo que não atendia as demandas das mulheres, notadamente demandas por uma sociedade mais justa, igualitária e radicalmente democrática.

Foto: Reprodução
Desenho não assinado, publicado no jornal Brasil Mulher em dezembro de 1975 (Edição 1, p. 5)
 

Seu poder residia exatamente no fato de não atacar sujeitos, grupos ou movimentos organizados, mas sim estruturas, políticas e instituições que resguardavam um mundo de injustiças para as mulheres, mas também para toda a sociedade, já que a ideia de democracia atravessava o humor feminista nesse período.

Esse tipo de humor, que não se caracterizava pela gargalhada frouxa e plena, causava um riso triste, introspectivo, reflexivo, que poderia causar a desobediência a uma hierarquia injustificada.

Para isso acontecer ele dependia do reconhecimento, porque o humor só funciona se ele tiver eco, como fala Henri Bergson. Através do humor, as mulheres riam juntas e reconheciam-se no mesmo barco.

A produção gráfica humorística crítica à ditadura brasileira, como a de Millôr Fernandes, é ainda hoje bastante conhecida e aclamada. E o humor feminista desse período, é conhecido ou celebrado? 

Cintia Lima Não, e há inúmeros motivos. Há poucas pesquisas sobre o humor feminista, mesmo sobre o humor das mulheres. É importante considerar que o humor das mulheres já é, por si só, um gesto feminista já que a elas sempre foi negado o poder de fazer rir, como afirma Nancy Walker.

Destaco que o desconhecimento e desinteresse em relação à história das mulheres e dos movimentos feministas produz essa falta de conhecimento e aclamação, sempre dedicada a homens cartunistas [que são] considerados verdadeiros gênios, palavra que só existe no masculino.

O mercado editorial nunca foi terreno fértil às mulheres cartunistas. É possível encontrar grande número de publicações de homens cartunistas entre os anos 1960 e 1990, enquanto as mulheres são mínimas.

 

Hoje vivemos um cenário de emergência de mulheres talentosas que conseguem projeção fazendo uso da Internet e das redes sociais.

Caminhamos a passos tímidos, mas muito competentes, em direção a uma história do humor no Brasil que considere as mulheres como sujeitos e não como objetos.

Mas há dificuldades teóricas e metodológicas em abordar o humor feminista, já que não há tanto respaldo bibliográfico em português, embora haja vasta produção em inglês. Há a dificuldade de acesso às fontes, já que os acervos de movimentos sociais, especialmente dos movimentos feministas, têm dificuldade de vencer o tempo.

É importante falar, ainda, dos desafios políticos de debater humor feminista em contextos em que as mulheres têm seus corpos e mentes massacrados pela violência de gênero, pela cultura do estupro. Há espaço para humor, ou para debater humor, quando Marias, Joanas, Anas tem seu corpo e história marcados? Eu acredito que precisamos encontrar esse espaço, tanto para sobreviver aos constantes massacres, como para encontrar caminhos futuros.

Como você avalia o uso do humor pelo movimento feminista hoje?

Cintia Lima Os novos feminismos têm se apropriado amplamente da Internet e das redes sociais para construir seus encontros, pautas e formatos. Há ainda centenas de cartunistas, comediantes, escritoras que através dos meios digitais divulgam e vendem seu trabalho, mostrando-se independentes do mercado editorial.

A Marcha das Vadias é exemplo recente do uso do humor e da ironia em manifestações de rua. Cartazes e corpos pintados traziam ironias, piadas e gracejos que desafiavam a moralidade e o humor de homens e mulheres.

As recentes manifestações de rua protagonizadas por mulheres no final de 2018 também trouxeram essas marcas. Talvez elas tenham nos dado as últimas lições sobre humor feminista e espaço público.

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