Artista paulistano lança "Cinco Mil Anos", com duas décadas de tiras e charges, incluindo personagens como Chico Bacon e os Pescoçudos. Ele conversou com o Nexo sobre o desenvolvimento de suas tiras e a transição para a era da internet

Em 1997, quando estava próximo de completar 30 anos, o cartunista paulistano Caco Galhardo enfrentou um batismo de fogo. Foi convidado a contribuir com uma tira diária para o jornal Folha de S.Paulo, ficando lado a lado com heróis da sua adolescência, como Angeli e Laerte. “Eu achava que os meus desenhos eram os piores já publicados na Ilustrada [o caderno cultural do jornal]”.

Muita gente gostou. E seus personagens de postura torta e atitude blasé, Os Pescoçudos, ocuparam as tirinhas do jornal por anos. Foi o começo de uma duradoura e versátil carreira que já ultrapassa duas décadas.

 

“Cinco Mil Anos”, publicado em junho de 2019, é, na definição do próprio Galhardo, um “tijolo” com 370 páginas de trabalhos do cartunista. Uma grande quantidade de suas tiras diárias está ali, dividida de acordo com personagens, como o Pequeno Pônei, Chico Bacon e Lili, a Ex. Além desse material, o volume ainda contém charges e historietas feitas para outros veículos de comunicação, como a revista Piauí.

Para o artista, o lançamento representa o fechamento de um ciclo. Hoje, seus trabalhos incluem projetos realizados em outras linguagens, como televisão e teatro. São maneiras de continuar na superfície nos tempos atuais, em que o alcance de uma tira de jornal impresso já não é o mesmo.

Os desenhos de Galhardo precisam de poucas palavras e imagens para mapear com precisão muitas das ansiedades e neuroses urbanas modernas. Depois de acionar o botão do riso, Galhardo deixa o leitor com a reflexão. São trabalhos “que te fazem também abanar a cabeça, vez por outra, em concordância filosófica com as sacadas dos personagens”, na descrição do escritor Reinaldo Moraes, no prefácio de “Cinco Mil Anos”. O cartunista conversou com o Nexo pelo telefone.

 

Como foi seu começo de cartunista, antes de começar a publicar em um grande jornal?

CACO GALHARDO A gente vira cartunista meio por vingança. É a principal motivação. Começa a desenhar professor com nariz de porquinho. Depois vai desenhando a família, o mundo, vai se vingando um pouco de tudo. Eu gostava muito de quadrinhos, Maurício de Souza e tal. Em geral, as pessoas normais uma hora se desinteressam e abandonam isso, mas o cartunista não. É um eterno adolescente, condenado a consumir quadrinhos a vida inteira. Atravessei uma geração dos anos 1980 que foi muito potente, com a trinca Angeli, Glauco e Laerte, os Três Amigos. Ia para a faculdade e achava chato, preferia ir na banca comprar [a revista de quadrinhos] Chiclete com Banana e ir pro bar. Depois, conheci o trabalho do Matt Groening, criador dos Simpsons. Ele tem um trabalho em cartum chamado Life in Hell, que publicava no [semanário americano] Village Voice. Eu queria fazer algo como aquilo. Daí inventei Os Pescoçudos, personagens que tinham pescoço torto e uma visão distorcida das coisas. Fiz dez cartuns e um deles tinha o Espaço Unibancool de Cinema, onde a pessoa entrava ali e mudava completamente, fazia uma pose de culto e tal.

Como você foi parar na Folha de S. Paulo?

CACO GALHARDO  Mandei esses cartuns para todos os jornais e aí a Folha começou a publicar imediatamente. O editor da Ilustrada era o Sérgio D’Ávila, que colocou então dois cartunistas novos no jornal, eu e o Adão [Iturrusgarai]. Eu nunca tinha desenhado tira na vida. Fui um clássico paraquedista no mundo dos cartuns. Achava que eram os piores cartuns publicados na Ilustrada. Quando se entra naquele espaço, ao lado de Angeli, Laerte e Glauco, geralmente a pessoa percorreu um caminho até o trabalho ficar tão bom e você chegar lá. Na época, esse espaço era muito importante. Mas eu cheguei lá sem trilhar caminho nenhum, vamos dizer assim, então aprendi dando a cara pra bater.

Como você constrói um personagem numa tira? Na literatura, você tem quantas palavras precisar, mas numa tira tudo é limitado.

CACO GALHARDO  Uma tira, especialmente a tira no Brasil, é algo muito intuitivo. A gente cria personagens e depois mata, depois começa outro, tem muita liberdade para trabalhar. Não aconteceu aqui o que tem nos Estados Unidos que é a distribuição agenciada [syndication, em inglês] da tira. Se o cara faz um Garfield, ele vai fazer um Garfield o resto da vida e aquilo é distribuído. E a gente nunca chegou nisso. Você acaba não se vendo preso a um personagem X. Eu não tinha um personagem, como o Angeli tinha uma gama onde o nome do personagem é a característica dele, o Bob Cuspe cospe, a Mara Tara é uma mulher tarada, a Rê Bordosa etc. Depois de um tempo fazendo Os Pescoçudos, que era muito crítica, ficava apontando dedo, eu quis me divertir mais com as tiras. O Reinaldo Moraes comenta no prefácio do livro que depois dos Pescoçudos eu fui desenhar um personagem que não tinha pescoço nenhum, que era o Chico Bacon. Você nem pensa, começa a desenhar uma depois do outro e vê que pegou uma veia boa. Muito diferente de fazer uma série de TV em que você tem que fazer um mergulho na vida do personagem, pensar na sua história pregressa. Na tira, não, é tudo por intuição. Vai no imediatismo das manhãs.

 

Você desenhou muitos tipos e situações que retratam a noite e os encontros sociais em São Paulo.

CACO GALHARDO   Todo cartunista é um observador. A tira é uma minicrônica, só que é um cronista gráfico, que fala por desenho. Minha temática sempre foi um pouco as neuroses, o comportamento ridículo, absurdo do ser humano. Outro dia, estava no hospital com a minha mãe, que estava internada. Fui tomar um café e encontro ali uma mulher fazendo uma selfie, em uma lanchonete de hospital. Qualquer cartunista olha para aquilo e enxerga uma piada. A gente vê esse comportamento humano que, de repente, vira o padrão, mas para o cartunista é quase uma aberração. A gente vive um pouco de revolta com coisas que ficaram estabelecidas, mas que são bizarras.

Um de seus alvos favoritos são as posturas pretensiosas e pseudointelectuais. Por que você gosta de abordar isso?

CACO GALHARDO  Isso é ridículo, né? É muito paulistano, aliás, o meu trabalho é muito paulistano. Todo cartunista transita numa cultura que é, digamos assim, menosprezada pela alta cultura, mas ele também menospreza aquilo que se chama de alta cultura, a postura superblasé, metida.  O pedantismo é um prato cheio para o cartunista. Uma época eu colaborava com a revista Bravo, que tratava de alta cultura, e inventei esses personagens que justamente ridicularizavam isso. Um desses cartuns era sobre “Como dizer que achou o trabalho de seu amigo artista uma bomba sem que ele deseje sua morte”.

 

Você também se vê no papel de provocar reflexões ou só quer fazer rir?

CACO GALHARDO  As duas coisas. O cartunista busca o riso e depois vem a reflexão, uma espécie de gozo seguido de uma depressão pós-orgasmo. O trabalho é uma reflexão, acho que o humor é um dos traços mais refinados da humanidade, quando é bem feito. O riso é um riso provocado por uma reflexão. Essas coisas estão sempre de mãos dadas no trabalho do cartunista.

Como você se adaptou à internet? Uma tira no jornal tinha público cativo. Mas na internet a dinâmica é outra.

CACO GALHARDO  Não me acostumei muito a publicar em Instagram, na internet. O Instagram é uma coisa que me dá enjoo muitas vezes, então não é uma coisa pela qual eu tenha tesão. É mais uma coisa de ter que estar porque senão o trabalho desaparece. Por outro lado, estou desenhando histórias longas, também voltei minha carreira para roteiro de filme, de série, e também tenho uma relação com teatro. Já escrevi três peças e estou escrevendo uma peça agora, sobre uma mulher que acorda feliz sem motivo nenhum. Tenho um olhar clínico para atividades mal remuneradas, como dá para ver. Também comecei a pintar, fiz uma exposição no Centro Britânico. Então estou expandindo em vez de só tentar ficar nessa coisa de “o trabalho tem de estar na rede”. Ele pode estar em vários outros lugares. Para mim, esse livro fecha um ciclo de 20 anos de publicação de tiras, de um modelo de trabalho. Hoje quase não é sustentável esse modelo americano da tira distribuído para vários jornais. É assim que se vira um cartunista de Instagram, ele se torna a sua vitrine. Embora acredite que aquele espaço da Folha seja um lugar de resistência no universo dos quadrinhos.

 

Quando estava organizando seu material, você se defrontou com trabalhos que te fizeram pensar em como eles seriam encarados hoje, à luz de debates atuais sobre limites do humor, do politicamente correto?

CACO GALHARDO  Quando você lê tira em jornal ou na internet e depois ela passa, isso é uma coisa. Mas quando você reúne esse trabalho, 370 páginas dele, ele vira outra coisa, ele reunido vira uma obra. Tem muitas coisas dos anos 1990 ou 2000 que continuam atuais e tem outras que têm cara de uma época. Tem um mapa-múndi em que os países são mulheres. Isso é uma coisa que hoje eu não faria. Na época, foi para a capa da Folha, algo muito raro para uma tira, porque era muito pertinente. Mas eu mantive porque a gente não pode só conseguir entender as coisas que são produzidas hoje. Também temos que saber olhar para aquilo que foi feito há dez, 15 anos atrás.

 

 

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