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Como funciona o soft power chinês, segundo este autor

Oliver Stuenkel fala ao ‘Nexo’ sobre as ferramentas culturais e econômicas que a China usa para disputar influência com os EUA e as potências europeias

     

    Nos anos 1990, o cientista político americano Joseph Nye cunhou o termo “soft power” (poder suave) para se referir à habilidade que um país possui de “afetar outros por meio da atração e da persuasão”.

    Para jogar esse jogo, um determinado país usa ferramentas culturais, como a música, o cinema, o esporte e a língua, para construir relações de empatia e de admiração nos demais. Assim, atinge mais facilmente objetivos políticos ou econômicos.

    O soft power não funciona sozinho. Ela é um multiplicador do “hard power” (poder duro), que é o uso da força militar e de outras ferramentas mais explícitas de pressão e de coação.

    A admiração que países como o Brasil têm pela cultura americana é um exemplo de soft power em ação. Os EUA são o melhor exemplo de exportação de um certo estilo de vida.

    Essa ferramenta cultural não é tão explícita quando se trata da China. A segunda maior economia do mundo e uma das maiores potências rivais dos americanos não exporta sua língua, seu cinema e seu modo de vida da mesma forma que as demais potências fazem.

    Para entender o espaço que esses conceitos ocupam na relação da China com os demais países, o Nexo entrevistou por telefone nesta quinta-feira (13) o professor de relações internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, que é autor do livro “Brics e o Futuro da Ordem Global”. A sigla Brics se refere à inicial dos nomes dos países que compõem o bloco: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

    Como se expressa o soft power chinês?

    Oliver Stuenkel  Existe uma percepção clara em Pequim de que a China não consegue competir neste momento em soft power com o Ocidente nos termos do Ocidente. A China sabe perfeitamente que a reputação dela nos EUA não é muito boa. E ela sabe também que a reputação dela na Europa é um pouco melhor do que a reputação americana, mas, ainda assim, não é a reputação de um país atraente.

    A fonte do soft power chinês está claramente ligada à sua capacidade de se desenvolver economicamente e de diminuir sua taxa de pobreza, o que é algo impressionante. A China ajuda outros países com grandes projetos de infraestrutura, participando como um grande investidor, um grande parceiro comercial.

    Agora, em função da política do [presidente dos EUA] Donald Trump, a China também busca se projetar como um provedor de bens públicos globais, como um dos países que quer colaborar para lidar com as mudanças climáticas, que apoia um sistema internacional baseado em regras e normas e que não ameaça outros países, como os EUA ameaçam o Irã, por exemplo. Então, a China, de certa maneira, busca se projetar também como um good citizen [bom cidadão] no cenário internacional. Essas são as principais fontes do seu soft power.

    Ainda em relação a isso, é importante remarcar que um país pode ter soft power em um lugar e não ter em outro. O governo chinês entende que o impacto de sua atuação em países em desenvolvimento é muito maior [do que em países desenvolvidos]. Sua capacidade de projetar uma imagem positiva em países em desenvolvimento é muito maior simplesmente porque a principal preocupação desses países é buscar o desenvolvimento econômico. Questões relacionadas com a existência de um sistema político autoritário até aparecem, pois todo mundo sabe como funciona a política chinesa, mas talvez isso não esteja no centro do debate para os países em desenvolvimento. O mesmo não ocorre na Europa e nos EUA, onde qualquer deputado que seja perguntado sobre a China falará sobre a repressão política que existe no país.

    Na minha experiência, quando falo com pessoas do Oriente Médio ou daqui da América Latina, da Índia, da Indonésia, sobre a China, a primeira questão que surge, quando se pensa em China, é a questão econômica. Em função disso, os chineses investem bastante em seu soft power trazendo elites africanas para conhecer a China. Eles sabem que o impacto da estratégia de soft power chinês pode ser muito maior nesses países do que seria na Europa e nos EUA.

    Isso provoca uma grande distorção na análise que americanos e europeus fazem do soft power chinês, porque eles pensam muito nisso a partir da perspectiva da Europa e dos EUA, e não da perspectiva dos países em desenvolvimento.

    A China dá a essa ferramenta o mesmo peso que os EUA e as potências europeias?

    Oliver Stuenkel Sim, mas de uma forma muito diferente. A China tem o Instituto Confúcio e coisas assim, mas, por saber que ela não pode competir na parte cultural, no que tem a ver com a sociedade civil, ela se concentra em outras questões.

    O One Belt, One Road [um cinturão, um caminho, em português, ou a Nova Rota da Seda] e a defesa do sistema multilateral são as fontes do soft power chinês. A China sabe disso e, portanto, dá muita ênfase a isso na sua comunicação com outros países. Essa não é, certamente, a mesma maneira como os EUA e a Europa pensam o soft power, mas como o soft power é um conceito muito pouco definido também, cada país pode definir um pouco a seu gosto o soft power para que caiba nessa definição um pouco de suas próprias necessidades.

    Há exemplos de como o soft power chinês ecoa aqui no Brasil?

    Oliver Stuenkel Um ano atrás, por exemplo, eu fiz uma exposição sobre China na Comissão Especial de Relações Exteriores e Defesa no Senado. Nessa exposição, à época, uma senadora do Rio Grande do Sul levantou a mão e disse: “Como o sr. acha que a gente, aqui no Brasil, pode copiar, ou o que a gente pode aprender do sucesso econômico chinês? Quais são as lições que a gente pode tirar desse crescimento impressionante?” Isso é um exemplo de soft power. Isso quer dizer que alguém, aqui no Brasil, olha para a China e diz: “Isso é interessante. Eu quero aprender com esse caso.” Então, novamente, veja que o foco está bastante claramente colocado na questão econômica.

    Mas a China tem agora uma nova fonte de soft power na América Latina como um todo, que é a seguinte: a China não é os EUA. Quando representantes do governo americano chegam aqui, eles falam mal da China. Ao mesmo tempo, o governo americano desenterrou a Doutrina Monroe [conhecida pela frase “América para os americanos”], que dá um controle político americano sobre a região, e que, obviamente, gera um mal-estar em todas as capitais da região, gera preocupação sobre o que os EUA farão, por exemplo, na Venezuela. Ora, a China, percebendo essa situação muito melhor do que os EUA, vem à região e nunca menciona os EUA. Ao contrário, ela diz: “vocês podem ser amigos de quem vocês quiserem. A gente jamais vai interferir aqui. A gente quer win-win [ganha-ganha]. O que vocês precisam da gente?” Eles sabem que isso é atraente. Os governadores viajam a toda hora para a China em busca de investimentos e realmente a gente não tem caso de um embaixador chinês dando pitaco sobre a situação política no Brasil. Isso, sobretudo no contexto do que são os EUA hoje, é uma fonte de soft power.

    Nye, que cunhou o termo soft power, discutiu em 2018 a aplicação do termo sharp power para se referir a estratégias chinesas e russas de agir nas sombras para influenciar e desestabilizar democracias liberais. O sr. concorda com esse conceito?

    Oliver Stuenkel O termo sharp power vem do National Endowment for Democracy, que é um think tank [centro de estudos] americano, que criou uma distinção entre o suposto soft power dos EUA e o sharp power da China. Eu acho uma distinção simplista. É óbvio que a sociedade americana tem mais soft power que a sociedade chinesa. Eu vejo isso entre os meus alunos. Eles querem fazer intercâmbio em Nova York. Há um número menor de alunos querendo ir para Pequim e para outras cidades chinesas, e eles vão por razões estratégicas, não vão por que gostam da maneira como se vive na China. No caso dos EUA, eles gostam do país, consideram morar lá. Isso é uma realidade.

    A questão do soft e do sharp power pressupõe que os EUA sempre têm como objetivo fortalecer outras democracias liberais. Obviamente, não é o caso. Dizer isso é não reconhecer o papel ambíguo que os EUA tiveram em relação à democracia ao longo das últimas décadas. Mas também gera a imagem de que um dos objetivos da China seria desestabilizar a democracia.

    Eu acho que a China não tem tempo, nem considera relevante saber qual é o sistema político dos países com os quais lida, porque tudo o que China quer é estabilidade política. Então, se é uma ditadura ou uma democracia, não importa tanto. Muita gente diz que a China apoia o [presidente da Venezuela, Nicolás] Maduro. A China apoia quem está no poder. Se o [líder opositor Juan] Guaidó amanhã estiver no poder, a China vai ter uma ótima relação com o Guaidó.

    Eu não acho, portanto, que essa distinção faça algum sentido do ponto de vista analítico. Eu acho que ela acaba gerando uma paranoia, ou ela é parte de uma paranoia crescente nos EUA. É algo recorrente em sistemas bipolares, de duas potências grandes, mas não acho que faça sentido, sobretudo na hora de o Brasil pensar qual será a sua própria estratégia no meio dessa tensão crescente entre Washington e Pequim.

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