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Seis décadas de França nas memórias de Annie Ernaux

‘Os anos’, obra importante da autora francesa, é lançada pela primeira vez no Brasil em 2019

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“Temos apenas a nossa história e ela não é nossa”. Do jornalista e ensaísta espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), a frase foi escolhida por Annie Ernaux, hoje com 78 anos, como epígrafe de “Os anos”, livro publicado na França em 2008 e que chega ao Brasil em 2019 pela editora Três Estrelas.

A citação sintetiza a literatura de Ernaux: ao contar sua história, ela entremeia memórias pessoais e acontecimentos históricos que vivenciou.

Em “Os anos”, livro considerado central em sua obra, o narrador de Ernaux é um sujeito coletivo que, diferente de outros relatos autobiográficos, ocorre na primeira pessoa do plural. O arco narrativo cobre seis décadas, da infância da escritora na França da década de 1940 à virada do milênio, no meio do caminho entre o registro biográfico e o sociológico, entre a subjetividade e o coletivo, sua história pessoal e a história. Quando se refere a si no texto, usa a terceira pessoa do singular: “ela”.

“Nas reuniões de família na época do pós-guerra, naquela lentidão interminável das refeições, alguma coisa vinha do nada e assumia uma forma: era o tempo já começado. Às vezes, os pais pareciam presos nele quando esqueciam de nos responder, os olhos perdidos em um tempo em que não estávamos, em que nunca estaremos, o tempo de antes. As vozes dos convidados se misturavam para compor a grande narrativa dos acontecimentos coletivos, os quais, pouco a pouco, passamos a acreditar que tínhamos vivido”

Annie Ernaux

trecho de ‘Os Anos’

Além do pós-guerra, as memórias de Ernaux passam pela guerra da Argélia, por maio de 1968, pela revolução dos costumes e o nascimento da sociedade de consumo, pelo início da União Europeia, a virada do milênio, as inovações tecnológicas e o 11 de Setembro.

Nascida em 1940 em Lillebonne, no norte da França, Ernaux cresceu em um ambiente operário. Sua origem modesta e a ascensão social a partir da juventude por meio do estudo e da escrita são temas constantes em seus livros.

Questões de gênero, como o aborto, a sexualidade feminina e a condição da mulher também são recorrentes em sua obra.

O rótulo de “autoficção”, onipresente na literatura das últimas décadas, costuma ser associado à autora. Mas ela o recusa: “não me diz respeito”, afirmou em entrevista concedida ao Nexo.

Considerada uma das escritoras mais importantes de seu país na atualidade, Ernaux falou por telefone sobre a sua escrita, o feminismo e a forma como vê o presente.

Quando, como e por que a sra. começou a escrever?

Annie Ernaux Comecei a querer escrever aos 20 anos. Eu estava na Inglaterra e enfrentava um período difícil, sem estudar e trabalhando como au pair [trabalho doméstico e de cuidado fornecido normalmente por pessoas estrangeiras que são alojadas e alimentadas pela família para a qual trabalham].

O desejo [de escrever] veio ao mesmo tempo que decidi começar a estudar letras. Eu tinha a impressão de que era o que eu poderia fazer de mais bonito, de melhor, de mais útil, de extraordinário.

Sou de uma família operária, em que ninguém havia tido acesso ao estudo. Escrever, para mim, era uma coisa grandiosa.

O que pensa do termo ‘autoficção’?

Annie Ernaux  É um termo que não me diz respeito. Comecei a escrever nos anos 1970, quando não se falava ainda em autoficção. Eu escrevia na primeira pessoa e [minha literatura] era autobiográfica. A autoficção veio 20 anos mais tarde, e não corresponde ao que eu faço. Não há nada inventado no que eu escrevo.

Nunca?

Annie Ernaux Nunca.

Mas hoje a autoficção é muito associada aos seus livros, não?

Annie Ernaux Há 20 anos sim, mas não mais. Mais do que autobiográfico, [o que eu faço] são livros de não ficção, em que o material é o real, a realidade. Mas o texto precisa de uma forma, que eu busco por muito tempo, e que o torna literário.

Qual a relação entre a memória individual e coletiva nos seus livros? Como você a constrói?

Annie Ernaux Creio que minha memória individual está sempre conectada com o mundo, com o que se passa nele, com a história, com as canções. Então, para mim, memória íntima e coletiva se cruzam. Por isso não foi complicado escrever “Os anos”.

Mas levei muito tempo para escrevê-lo. Eu queria, acima de tudo, encontrar uma forma literária para contar, ao mesmo tempo, sobre minha vida e o mundo no qual ela se desenrolou. A forma [que encontrei] não tem um eu autobiográfico, mas um nós coletivo.

Alguns de seus trabalhos já foram analisados sob uma perspectiva feminista e da escrita feminina. Você se identifica com esta leitura? Considera seu trabalho feminista?

Annie Ernaux Absolutamente sim. Nunca separei a escrita do desejo de traduzir um ideal de liberdade para as mulheres, de falar de mulheres. De falar de mim, já que sou mulher, e de pensar no que significa ser mulher no mundo atual.

E como você vê o momento atual, neste aspecto?

Annie Ernaux Acredito que há um progresso. Na França e na Europa houve uma evolução importante. Houve momentos de estagnação, mas creio que recomeça [a progredir] no sentido de uma liberdade maior para as mulheres. Apesar disso, [a situação das mulheres] é sempre difícil, sempre complicada, porque a dominação masculina ainda é evidente.

O ato de escrever tem um sentido político para você?

Annie Ernaux Sim. É totalmente político para mim. Escrever é mudar ideias, crenças, para que possamos ser mais críticos com relação à sociedade. É um ato político desde o início, é uma forma de intervir do mundo, de intervir por aquilo que nos diz respeito. A escrita é uma forma de engajamento.

Se você estivesse escrevendo um novo romance que tratasse do presente, do que ele falaria?

Annie Ernaux É complicado. Vejo a ascensão da intolerância, do fechamento dos países em si mesmos. A Europa se fecha, recusa os migrantes e o mesmo [acontece] na América do Norte. É desesperador.

É desesperador ver o conservadorismo, os ricos ficando mais ricos, os recursos da terra sendo desperdiçados – tudo isso é bastante assustador. Mas, ao mesmo tempo, justamente quando há uma situação como esta, há forças que despertam. E eu vejo formas de luta por toda parte.

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