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‘O que eu vi na praça da Paz Celestial em 1989’

Brasileira Adriana Abdenur fala ao ‘Nexo’ de suas memórias de adolescente na Pequim que foi palco do massacre de 30 anos atrás

 

Adriana Erthal Abdenur tinha 14 anos quando o Partido Comunista Chinês reprimiu com tanques de guerra e milhares de soldados as manifestações de jovens que haviam tomado pacificamente a praça da Paz Celestial, ou praça Tiananmen, em Pequim.

Ela, que hoje vive no Rio de Janeiro, onde trabalha como pesquisadora de temas ligados à paz e à segurança, vivia, em junho de 1989, a apenas três quilômetros do local do massacre que marcou a história da China no século 20.

Adriana é filha do diplomata brasileiro Roberto Abdenur, que, à época, comandava a Embaixada do Brasil em Pequim.

Na semana em que o massacre da praça da Paz Celestial completou 30 anos – o evento ocorreu em 4 de junho de 1989 –, Adriana disse ao Nexo ter encontrado na casa dos pais, no Rio, uma caixa com fotos da época e com um diário pessoal, guardado desde então.

No diário, ela anotava a mão as impressões pessoais dos acontecimentos. Nesta entrevista, feita por e-mail, Adriana contou não apenas as memórias do que viveu naquele tempo, mas também analisou como os acontecimentos da Praça Tiananmen de 1989 influenciaram nos rumos da China atual.

Quais são as suas lembranças de junho de 1989?

Adriana Erthal Abdenur Em junho de 1989, eu tinha 14 anos. Minha família havia se mudado para Beijing [Pequim] em janeiro daquele ano, quando meu pai assumiu o cargo de embaixador do Brasil junto à República Popular da China. Como morávamos relativamente próximos de Tiananmen – a embaixada fica a cerca de três quilômetros da praça –, pudemos observar as manifestações relativamente de perto. 

Quando os protestos começaram, em meados de abril daquele ano, passei a visitar a área com certa frequência para observar o que faziam os estudantes, alguns dos quais estavam em greve de fome. A partir de maio, os grupos que acampavam na praça foram ganhando massa, inclusive pela adesão de trabalhadores ao movimento de protesto. A situação ficou bem mais tensa no começo de junho, quando corriam boatos de uma possível repressão por parte do governo. Mas imaginávamos uma resposta policial, e não militar. Foi um choque quando colunas de caminhões e, mais tarde, tanques de guerra desceram a avenida que passava rente ao condomínio diplomático, rumo a Tiananmen.

Durante a noite do massacre, eu me encontrava no meu quarto. Alguns funcionários haviam trazido suas famílias para a residência [do embaixador], por uma questão de segurança. Lembro vividamente dos tiros de canhão durante a madrugada e, na manhã seguinte, das colunas de fumaça que subiam do entorno da praça. Apesar do clima tenso, os diplomatas formaram um comboio de carros para atravessar a cidade e recolher os estudantes brasileiros nos seus alojamentos. Temia-se que as universidades se tornassem alvo das tropas, já que muitos líderes eram estudantes.

Como o governo chinês havia imposto a lei marcial, ninguém podia entrar na embaixada ou sair à rua. Tínhamos pouca comida na despensa e, após alguns dias, as refeições eram uma sopa rala feita em um grande caldeirão. Não chegamos a passar fome, mas tentávamos dosar o consumo dos mantimentos porque não sabíamos quanto tempo ficaríamos ali.

Por sorte, o aeroporto internacional não foi fechado. Fomos evacuados, com quase todo o resto da comunidade brasileira, em um vôo comercial da Pakistani Airlines que saiu de Beijing rumo a Tóquio. Lembro que, até o avião decolar, os passageiros estavam um tanto tensos.

Qual foi a ação que o Estado brasileiro tomou naquele momento através de seu pai e do restante do corpo diplomático?

Adriana Erthal Abdenur A primeira preocupação dos diplomatas era a de entender o que estava acontecendo – tarefa nada fácil dado que a transmissão do único canal estrangeiro, a CNN, havia sido interrompida durante o massacre. E claro, ainda não tínhamos internet. Meu pai ia regularmente à praça para observar as manifestações. Também se reunia com outros membros da comunidade internacional, sobretudo dos países que tinham equipes de peso na cidade, para tentar decifrar a tomada de decisão do governo, assim como as rivalidades dentro do Partido Comunista. Alguns temiam que estourasse uma guerra civil.

Havia também uma grande preocupação com a segurança física dos brasileiros. Éramos cerca de 30 pessoas em Beijing, entre funcionários da embaixada, suas famílias e uma dezena de estudantes. Mesmo após o massacre, algumas tropas atiraram contra prédios do compound [conjunto de construções] perto da embaixada onde viviam diplomatas, inclusive alguns brasileiros. Por sorte, os apartamentos já estavam desocupados e ninguém foi atingido.

Nem todos os brasileiros foram evacuados. Meu pai e a equipe essencial da embaixada ficou em Beijing para acompanhar os desdobramentos. Havia temor de uma guerra civil por conta de uma rivalidade entre alas do Partido Comunista. Ganhou a ala conservadora, que se opunha aos mais liberais. 

Durante alguns anos, o governo freou as reformas que haviam sido lançadas por Deng Xiaoping a partir de 1978. Quando voltamos para Beijing, no outono de 1989, a China havia se fechado novamente – economicamente e, principalmente, politicamente.

A sra. voltou à China nos anos 1990 e reencontrou outros protagonistas dessa história. Como foi o reencontro? E como eles processaram esses eventos?

Adriana Erthal Abdenur Eu não posso responder porque é uma questão muito sensível para a segurança desses meus amigos.   

Como vê a China hoje?

Adriana Erthal Abdenur A China passou por uma transformação muito dramática em apenas duas décadas. Hoje, Beijing é irreconhecível para quem morou lá nos anos 1980.

Após Tiananmen, quando as reformas finalmente foram retomadas e ampliadas, o crescimento econômico gerou bolsões de prosperidade, sobretudo em Beijing e outras cidades grandes. A China conseguiu levantar centenas de milhões de pessoas da pobreza e tornou-se uma potência econômica mundial. É uma transformação extraordinária, com impactos globais.

Por outro lado, o modelo de desenvolvimento também exacerbou as desigualdades socioeconômicas e produziu novas formas de exclusão social, por exemplo através do deslocamento forçado. O governo está ciente de que, sem um crescimento mais equilibrado, essa situação gera um profundo descontentamento, que poderia desembocar em nova turbulência política. Mas implementar um novo modelo é tarefa árdua.

A repressão política continua e abusos de direitos humanos se agravam, sobretudo em relação às minorias muçulmanas. Sob Xi Jinping, o governo adota um viés cada vez mais autoritário, valendo-se não apenas do aparato policial do Estado, mas também das novas tecnologias. Esse controle social, no entanto, pode ficar mais difícil, até mesmo insustentável, se a economia chinesa desacelerar de forma súbita.

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