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Por que este romance, sobre o século 18, também fala de hoje

A escritora Maria Valéria Rezende lança ‘Carta à Rainha Louca’. Para a autora, embate histórico entre a mulher que busca liberdade e uma estrutura machista que reage contra ela ainda não está superado

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Em 1789, uma mulher presa no convento do Recolhimento da Conceição, em Olinda, Pernambuco, escreve uma carta à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca, que vivia em Lisboa.

Também julgada fora da razão, Isabel das Santas Virgens expõe à rainha de Portugal – na esperança de que, por ser mulher, a outra se sensibilize e tome providências para ajudá-la – os infortúnios que a levaram àquele lugar. Por tabela, seu relato pinta um retrato do período colonial, das ações dos homens e do destino das mulheres na época, incluindo de alguém que, como ela, ousasse desafiá-lo. 

Isabel é a narradora em primeira pessoa de “Carta à Rainha Louca”, romance mais recente da escritora paulista Maria Valéria Rezende, lançado em abril de 2019. Trata-se de uma personagem ficcional inspirada em um documento real – uma carta escrita por uma mulher no fim do século 18 – encontrado por Rezende.

Quando escreve coisas que depois acha inadequadas, excessivamente insubordinadas, Isabel rasura o próprio discurso.

“Retomo, pois, Senhora, sem dissimulação nem mentira, minha narrativa das infelicidades que me acometeram, a mim e a quase todas as mulheres destas terras, ainda que brancas e reconhecidas como naturais de Vosso reino de Portugal, Vossas súditas como quaisquer outras e merecedoras de Vossa proteção embora muitos digam, e eu mesma às vezes o creia, que bem sabeis de tudo isso, mas aos grandes deste mundo, como sois Vós, pouco importam os que nada temos, como nós as mulheres pobres desta terra, os indígenas massacrados e roubados, os infelizes africanos trazidos à força de suas ricas terras para morrer em meio ao mar oceano de águas revoltas ou ao mar de canas verdes onde poucos sobrevivem mais que uns poucos anos (...)”

Trecho do romance ‘Carta à Rainha Louca’

Rezende também é autora de “Outros Cantos” e “Quarenta Dias”, vencedor do Prêmio Jabuti de livro do ano ficção em 2015. Publicou seu primeiro romance, “Vasto Mundo”, em 2001. Mas, segundo relatou ao Nexo, sempre escreveu, desde a infância e ao longo de toda a vida, em razão de sua atuação como educadora popular.

Nascida em Santos em 1942, ela integrou, na década de 1960, a Juventude Estudantil Católica, movimento progressista ligado à igreja. Em 1965, ordenou-se freira, cônega de Santo Agostinho.

 

Dedicou-se à educação popular desde a juventude, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir dos anos 1970, no Nordeste, no interior de Pernambuco e na Paraíba, até 1986 e, desde então, em João Pessoa, onde mora até hoje.

A escritora falou ao Nexo sobre as origens e a criação do novo romance, sua pesquisa sobre a condição das mulheres, a filosofia de Paulo Freire e seus projetos de escrita.

Como um romance epistolar, ambientado no século 18 e narrado por uma mulher presa em um convento, dialoga com o Brasil contemporâneo?

Maria Valéria Rezende Eu levei mais de dez anos escrevendo esse livro. Minha cabeça foi sendo afetada por tudo que foi acontecendo. Sobretudo, acho que há uma crise grave das relações de gênero no Brasil. Isso todo mundo percebe.

As notícias de violência doméstica, violência contra a mulher, feminicídio, parece que crescem. Tenho ainda dúvida se cresce de fato ou cresce a informação, mas, de qualquer maneira, isso se tornou uma coisa muito presente.

Eu tenho observado, pelo que eu leio, pelo que converso e vejo, pela literatura, um desencontro. As mulheres, desde muito tempo – há as pioneiras, mas principalmente dos anos 1960 para cá –, se puseram a repensar conscientemente seu lugar e seu papel na sociedade, a pensar sobre si mesmas.

“Carta à rainha louca” fala de hoje também: dessa tensão entre a mulher que busca liberdade e realização pessoal e uma estrutura machista que reage contra

Podemos tomar como marco os livros da Simone de Beauvoir, que abrem um novo tempo de reflexão muito mais amplo das mulheres, pelo menos das ocidentais (que hoje já chega nas orientais, no Oriente Médio).

A gente vai repensando a nossa vida, o nosso papel, o que é ser mulher, e descobrindo que ser mulher não é nada menos, sobretudo do ponto de vista intelectual e da capacidade do trabalho de criação, do que ser homem. A superioridade masculina – suposta, e que se exprime nas estruturas sociais – é uma criação histórica.

Acho que os homens não fizeram esse processo de repensar o seu papel. As mulheres deram um passo que não volta mais para trás.

Há muitos anos eu já fazia pesquisa sobre a história da mulher, sobretudo na América Latina, e me fixei no período colonial, porque era o mais difícil, é preciso ir atrás de documentos originais. Percebi que muito do que está ali, que o que eu estava contando – porque pesquisei, não inventei nada em termos de relações sociais – que estava desde o século 18, continua existindo. Com outras aparências, mas é uma coisa que não está superada.

Então eu acho que, de alguma maneira, a “Carta à rainha louca” fala de hoje também. Essa tensão entre a mulher que busca liberdade e realização pessoal e uma estrutura machista que reage contra isso, e reage, inclusive, com muita violência.

E o que a sua narradora faz é exatamente pensar sobre seu lugar.

Maria Valéria Rezende Sim. Ela não aceita o lugar que foi determinado para as mulheres. Inclusive porque não é ela que cria a situação em que está.

Ela já tem uma situação que é fora do lugar na sociedade colonial, que estava estruturada sobre dois setores, duas classes bem distintas: a dos senhores, que incluía os proprietários de terra, os senhores de engenho, senhores de mina, senhores do café e os oficiais da coroa, pessoas que tinham cargos e que em geral eram os mesmos, e, de outro lado, a mão de obra escravizada.

Quem não era nem senhor nem escravo era um ser meio fora do lugar. Claro que estou simplificando a questão, mas uma mulher branca pobre, que não tinha dinheiro para o dote – portanto dificilmente se casaria com outro branco –, não tinha homens da sua família para protegê-la, era uma mulher sem lugar.

De alguma maneira, tudo isso permanece. Sempre fiquei alerta para o fato de como eu, uma mulher do século 21, com a minha cabeça, posso me encarnar e falar em nome de uma mulher do século 18.

Aí eu faço essa mulher [ser] crítica, porque eu não posso não ser. Ela mesma se espanta com as coisas que ela diz. E ela rasura – é uma espécie de autocensura. Se eu não me engano, tem um trecho em que ela diz explicitamente: “talvez eu seja doida mesmo, como dizem. Porque de que outro modo, poderia eu estar pensando as coisas que penso e nunca ouvi dizer por outrem?”.

O reconhecimento de que as coisas no século 21 não mudaram muito em relação ao século 18 é inevitável e eu espero que [o livro] sirva para a reflexão, para fortalecer as mulheres que estão buscando, às vezes a duras penas, a sua liberdade pessoal, a sua realização pessoal como ser humano completo e não como “a cara metade”.

Como foi o processo de pesquisa e escrita para este livro?

Maria Valéria Rezende A personagem, que chamei de Isabel das Santas Virgens, me foi sugerida por uma carta que eu encontrei, em 1982, no Arquivo Ultramarino de Lisboa.

Encontrei um processo que estava incompleto. Tinha duas cartas de padres visitadores que tinham ido investigar uma denúncia de que havia uma mulher querendo criar um convento clandestino nas Minas Gerais, onde todas as ordens religiosas eram proibidas de entrar [no século 18].

Um padre era mais benevolente para com ela, o outro mais duro, e mandavam [as cartas] para o arcebispo, que tinha mandado investigar.

E, a coisa mais importante: a terceira carta era dessa mulher, de próprio punho, como era evidente pela caligrafia, pela ortografia, pela ausência das abreviações que todos os escrivães e clérigos usavam. Era uma carta fisicamente muito diferente das outras. Era uma coisa bastante extraordinária que uma mulher pobre, naquele tempo, fosse letrada a ponto de escrever uma carta, que é uma carta da autodefesa, mas cheia de ironia também. E depois não tinha mais nada.

Eu fiquei com aquela mulher na minha cabeça, me sentindo comprometida com ela.

Quando comecei a escrever ficção, um dia me apareceu essa ideia. Ainda levou um tempinho para eu me dar conta da forma que esse romance tinha que ter: teria que ser uma carta, porque o meu contato com ela foi através de uma carta. Mas uma carta para quem?

Aos poucos eu fui elaborando e inventando a história dela. A única coisa que é historicamente fundamentada é a acusação de que ela esteve nas Minas Gerais e foi acusada e perseguida por ter criado o convento clandestino.

Aí, pronto. Na hora em que eu sei quem conta, por que conta e como conta, aí aquele negócio dispara. Mas eu tinha o desafio da linguagem, porque eu não queria escrever um romance em primeira pessoa, de outro século, falando com a linguagem de hoje. Não vi graça em fazer isso, não achava correto.

Então, enquanto eu estava escrevendo, eu reli, por exemplo, quase todos os sermões do Padre Antonio Vieira, e vários outros autores do século 18, os mineiros todos, os árcades.

Li muito isso para me entranhar da linguagem da época, que não é só uma questão de vocabulário, é também uma questão de ordem da frase, de construção do texto.

A jornalista Josélia Aguiar vê este último livro, ao lado de “Quarenta Dias” e “Outros Cantos”, como parte de uma espécie de trilogia sobre a condição das mulheres brasileiras em diferentes momentos históricos. Eles foram pensados como uma trinca?

Maria Valéria Rezende Eu não tinha pensado nisso. Os meus livros anteriores não são como esse, eles têm um narrador em terceira pessoa.

Mas nesses três, são mulheres que desabafam, na verdade, ou recordam. Eu não tinha me dado conta, e, de fato, fiz uma mulher de hoje, do século 21, em “Quarenta Dias”; uma mulher do século 20 – é uma mulher de hoje, mas recordando o que ela viveu no século passado  –, e uma do 18. Agora estou me sentindo estimulada a pensar um livro sobre o século 19 [risos]. Não pega bem esse negócio de trilogia, quadrilogia? Posso lançar como o quarto da minha tetralogia.

Como toda essa questão do feminismo, a luta das mulheres começou a crescer muito nesses últimos anos, no século 21 – há um salto de visibilidade – eu acho que, sem perceber, eu fui... é muito assim, a gente tem uma intuição de que é importante dizer aquilo. Pelo menos eu escrevo porque penso: “é preciso que o pessoal olhe para isso”. Não foi planejado.

Para mim ter ideias não é difícil. Com a minha idade, a memória vai encolhendo, aí fica mais espaço para a mentira, para a imaginação e inventação.

A casa da minha avó em Santos vivia cheia de escritor. Eu achava que escrever livro era uma coisa comum, corriqueira

É até uma imprudência minha. Me passam mil ideias pela cabeça, e qualquer pessoa que venha conversar eu falo tudo aquilo e a pessoa fica esperando que eu faça. Mas tenho um caderninho onde eu anoto títulos, tramas, temas, personagens de romances que eu não vou ter tempo de escrever.

E para quem isso vai ficar?

Maria Valéria Rezende Eu já tenho uma candidata ou duas. Escritoras. Para ver se elas aproveitam alguma coisa. [risos]

Eu sou muito visual. O que é um problema, porque eu estou ficando cega. Mas eu tenho as imagens na cabeça. Eu olho para uma pessoa e começo a intuir – e acho que intuo, de certa maneira, alguma coisa de verdadeira, porque depois eu escrevo e as pessoas se reconhecem nas coisas, recebo uma porção de recados inbox, com reações pessoais referentes ao que eu escrevo.

Como e quando você começou a escrever? Sempre escreveu ficção?

Maria Valéria Rezende Eu sempre escrevi. Eu nasci em uma família que tinha escritores, tanto na família da minha mãe como do meu pai. A casa da minha avó lá em Santos vivia cheia de escritor. Eu achava que escrever livro era uma coisa comum, corriqueira, todo mundo fazia.

Ter me criado em Santos foi uma grande vantagem, porque tinha sebos fantásticos no cais. Naquele tempo não tinha televisão, não tinha satélite, não tinha nada. Marinheiro, quando estava de folga, lia. Mas, como o espaço para a tripulação em navio de carga é muito pequeno, eles levavam poucos livros. Em cada porto, eles iam lá e trocavam os livros que ninguém mais queria por outros novos. A gente se beneficiava disso, achava-se de tudo no sebo ali do cais.

Eu cresci no meio de livros, eu nasci dez anos antes da televisão. E leitura, naquele tempo, não era algo que se fazia sozinho, escondido, no silêncio do seu abajur. Fazia-se muita leitura coletiva. Junta a família toda na varanda, bota as cadeiras na calçada e alguém lê. Sabia-se muitos poemas de cor. A gente vivia uma vida muito mais ligada à questão da literatura. Havia declamadores, espetáculos de declamação de poemas. Agora estão voltando os saraus, né?

Ou não se sabia ler nem escrever, o que era a imensa maioria, ou, quem era alfabetizado, provavelmente valorizava muito os livros e procurava ler. Na escola também, a gente tinha que ler e escrever muito. Escrevia então desde criança.

Tenho aqui em casa, que minha madrinha encontrou nas coisas dela e me mandou, uma peça de teatro que eu escrevi um mês depois de fazer nove anos. 

Sobre o que é?

Maria Valéria Rezende É um pastiche. Quando ela me mandou isso, eu me lembrei como eu fazia.

Na casa do meu avô em Belo Horizonte – minha mãe é mineira, a gente passava as férias todas lá, e eram já dois mundos naquele tempo, dois mundos muito diferentes – tinha umas salas separadas umas das outras por duas cortinas, então, para mim, aquilo era o meu teatro.

E tinha uma arca enorme de jacarandá, antiga, cheia de fantasias dos carnavais passados, vestidos de baile que não serviam mais, cartola, fraque, o diabo, para as crianças brincarem.

Então eu inventava o teatro assim. Eu olha que crianças eu tinha, entre primos, vizinhos, irmãos. Aí, a gente ia na arca e via que roupa servia para cada. A partir do figurino, eu criava os personagens, e a partir deles eu inventava a história [risos]. Eram peças de uma página, não era nada demais. Mas era engraçado.

E a família levava aquilo a sério, todos os adultos depois de jantar se submetiam a 15 minutos do meu teatro. Era divertido, e a gente era aplaudido. Eram duas famílias de artistas. A gente foi estimulado a isso, e era uma coisa normal, não era uma carreira a que eu aspirasse, como é hoje. Não tinha oficina de escrita criativa nem nada disso. Aprendi a escrever lendo, e escrevendo.

Então eu toda vida escrevi, mas depois, enveredei pelo caminho da educação popular, e aí escrevi muito cordel, livros de história para os grupos.

Trabalhar com educação popular implicava em um monte de atividades. Morei uns 15 anos no interior da Paraíba, em Guarabira, onde a catedral ficava em um terreno inclinado, tinha uma escadaria e em cima, antes da porta, um patamar. Era um palco perfeito, uma arena. A gente fazia peças de teatro, Paixão de Cristo, e eu escrevia tudo isso. Escrevi novela de rádio, enfim, eu fazia aquilo que era preciso para o trabalho de educação. Muitas vezes, a arte é o gancho tanto para iniciar um processo de diálogo quanto para resumir aquilo que vem sendo discutido.

Fazia filme super 8, depois veio o vídeo. Sempre mexi com essas coisas, com várias formas de arte, desenhava, fazia história em quadrinho. Mas em função do meu trabalho de educadora. E, de vez em quando, pra me divertir, pra dar pra alguém de presente, escrevia histórias. Quando minha mãe vinha me visitar, ela dizia "escreve uma coisa engraçada pra mim", e eu escrevia.

Eu não pensava em publicar, isso foi meio por acaso. Quando eu estava sem dinheiro e tinha o aniversário de alguém, eu escrevia uma história, fazia uma capa bonitinha e dava de presente.

Um dia um amigo levou para um editor, o editor me telefonou, que tinha gostado demais daquilo, que eu mandasse tudo que eu tivesse. Aí foi toda uma história que levou uns anos, até eu deixar publicar, porque eu ficava meio desconfiada. Se o fato de alguém querer publicar garantisse que o livro era bom, não tinha tanto livro ruim no mundo.

Como era o trabalho com educação popular?

Maria Valéria Rezende Isso começa no fim dos anos 1950. Eu tive muita sorte de ter muito contato com Paulo Freire. O pessoal fala muito de “método Paulo Freire” e liga com alfabetização de adultos. Não é nada disso.

Paulo Freire é uma filosofia da educação. É uma maneira de compreender as relações sociais e o processo educativo dentro das relações sociais. Não tem nada a ver com escolarização, necessariamente, embora possa até ser uma inspiração para um processo de escolarização.

Eu não poderia escrever nada do que eu escrevo se eu não tivesse vivido os últimos cinquenta anos trabalhando com o povo trabalhador, que é quem me ensina como é a vida.

A filosofia de educação [de Paulo Freire] diz o seguinte: não existe um educando vazio para quem o educador, que está cheio do saber, vá despejar o saber lá dentro. O que tem são saberes diferentes. Então a relação educador-educando é de mão dupla.

E é verdade. Eu não poderia escrever nada do que eu escrevo se eu não tivesse vivido os últimos quarenta, cinquenta anos da minha vida no Nordeste, no meio rural, ou nas periferias das cidades, trabalhando com o povo trabalhador, que é quem me ensina como é a vida. 

A gente fazia formação com as comunidades, grupos de base sindical, ajudar os trabalhadores a compreender as causas de seu sofrimento e a se organizar para combatê-las. Estávamos sempre trabalhando com grupos de base, comunidades de base, quase sempre ligadas à Igreja porque era o que mais facilmente se reunia e hoje tem de tudo. Se bem que eu acho que, com o advento das redes sociais, as pessoas começaram a achar que a comunicação digital basta. Não basta. Mas está se retomando todo um trabalho de constituir grupos de base em torno de várias coisas diferentes.

Como vê o rechaço à figura de Paulo Freire pelo atual governo?

Maria Valéria Rezende É absolutamente ridículo. Aliás, eu vejo isso como vejo todo o resto que está acontecendo. Não tem pé nem cabeça. Até os maiores apoiadores do governo atual, da criatura que foi eleita presidente e sua dinastia – são quatro presidentes, na verdade [risos]... foi um acidente. Mesmo quem o apoiou entusiasticamente, agora está dando pra trás, porque aquilo é uma loucura.

Qual a sua história com a religiosidade? Como você vê a Igreja Católica hoje?

Maria Valéria Rezende Quando as pessoas perguntam como eu vejo a Igreja, pergunto do que estão falando: do sistema eclesiástico, os padres, bispos, o papa, a estrutura, ou da comunidade dos que procuram seguir o evangelho de jesus.

Tem muita gente que segue o evangelho de Jesus com muita sinceridade e não participa de nenhuma estrutura eclesiástica. Por outro lado, há gente que está na estrutura, é muito sincero, verdadeiro, corajoso e ótimo, e também deve haver muita gente que está nessa estrutura mas não tem fé em Jesus Cristo pra nada. Como aliás é o que acontece em qualquer tipo de instituição. Você tem os honestos e os falsos. Os oportunistas, digamos.

Vim de uma família católica, mas de um catolicismo que hoje eu percebo que era muito avançado para a época. Era gente que estudava teologia, meu pai estudava. A gente perguntava uma coisa para ele e ele dava uma explicação de alto nível.

Nunca na minha vida ninguém me disse "não faz isso que Deus castiga". Nunca ninguém na minha família jamais usou Deus para oprimir criança. Pelo contrário, era uma festa. A gente ia na missa, tinha canto gregoriano, era bonito. E a conversa em casa era muito adequada.

O pessoal fica perguntando, “Mas onde a senhora escreve?”. Escrevo onde dá. E quando dá. Escrevi muito em sala de espera, em saguão de banco

Quando eu tinha uns 13, 14 anos, eu entrei para a Juventude Estudantil Católica. Era um movimento muito forte naquela época, e muito progressista também. Quando fui para a faculdade, fui parar na equipe nacional e fui para o Rio, o movimento tinha uma atuação muito forte pelo país inteiro.

Quando terminei meu tempo lá, aconteceu [o golpe de] 64. Ainda fiquei até o fim de 1964, e queria continuar minha vida de missionária, porque era uma vida que me satisfazia, mais do que me enfiar numa casa, ser dona de casa, criar um monte de filhinho.

Eu sou a mais velha de seis, então eu já tinha ajudado a criar meus irmãozinhos, estava bom. Eu queria andar pelo mundo. Eu tinha um primo jornalista que andava pelo mundo, eu queria ser como ele. Mas naquele momento, começo dos anos 1960, ainda não tinha muita mulher jornalista correndo o mundo.

Ou eu queria ser jornalista ou ser freira, eu queria andar pelo mundo. E fiz isso, e não me arrependo nem um pouco. Foi ótimo. É ótimo.

Moramos aqui em casa em três Irmãs. Uma delas bem idosa, mais do que eu. Eu, idosa, mas metida a independente. Mas nem tanto, porque, como não enxergo quase nada, levo tombo na rua e agora ninguém mais me deixa andar sozinha. Ouço muito mal, mas ainda estou funcionando.

Nossa casa dá para três ruas. No meio do bairro onde moram a maioria dos artistas, escritores, estudantes, professores, porque é bem pertinho da universidade federal [da Paraíba]. Eu brinco que aqui é o Montparnasse de João Pessoa.

É muito comum o pessoal dar uma passada aqui em casa. É movimentado. Amigos de todo o tipo. Chega gente para almoçar, para jantar, pra levar a gente não sei aonde. E tenho que cuidar das coisas da casa, ir na farmácia, tenho que me tratar, acompanhar outras pessoas ao médico, conseguir pagar as contas. O pessoal fica perguntando, “Mas onde a senhora escreve?”. Escrevo onde dá. E quando dá. Escrevi muito em sala de espera, por exemplo. Em saguão de banco.

Você é uma das precursoras do Mulherio das Letras (movimento que divulga e incentiva a literatura produzida por mulheres). O que os encontros de mulheres escritoras proporcionam?

Maria Valéria Rezende Aqui, um mês antes, o pessoal já começa a fazer a fogueira, que às vezes tem três metros de altura, pra tacar fogo só na noite de São João. Eu tenho a impressão que essa fogueira já estava montada, só faltava a faísca.

A faísca aconteceu meio por acaso, em Paraty, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016. Nós mulheres, sempre em minoria, que estávamos por lá, nos encontramos e falamos, “vamos sentar juntas e conversar um pouco”. Um escritor que tinha escrito um artigo em um jornal dizendo que não havia nenhuma discriminação em relação às mulheres escritoras – é que as mulheres não escrevem. Os homens escrevem muito mais, ele disse.

A gente ficou indignada com isso, mas a gente mesma não sabia dizer quantas mulheres escrevem. Porque, justamente, não tem a mesma visibilidade. Então dissemos, vamos criar um grupo no Facebook pra gente saber, cada uma vai adicionando as outras que conhece.

A gente abriu esse grupo em março de 2017. Em dois meses, tinha cinco mil e tantas mulheres inscritas no grupo, todo mundo discutindo. Aí resolvemos fazer um encontro nacional, que foi feito aqui [em João Pessoa]. E também foi tudo de trás pra frente, que nem as minhas peças de teatro.

Primeiro a gente juntou o público, depois a gente decidiu o que ia fazer no encontro, aí viu o que era preciso para fazer isso, e no fim de tudo é que a gente foi atrás de apoio, de infraestrutura, de um mínimo de financiamento.

O que eu acho mais interessante é que o Mulherio das Letras criou uma coisa que não tem dono, é um espírito, muito mais do que uma organização. Não é uma instituição, não tem diretoria, a gente vai mudando, vai fazendo, conforme precisa.

É incrível o monte de gente que sempre escreveu e nunca teve coragem de publicar. Depois que ela sai em uma coletânea do Mulherio, pode esperar que dali a um ano tem um livro dela já sendo lançado.

A gente descobriu que a solidariedade é muito mais fecunda que a competição. A gente vê mais competição no meio dos escritores homens. No caso das mulheres, é o contrário, fica todo mundo feliz, criaram-se amizades que atravessam o país inteiro, e o pessoal cria eventos. Já pegou fogo esse negócio e ninguém mais vai segurar.

Quais autores ninguém deveria passar a vida sem ler?

Maria Valéria Rezende Pra mim é dificílimo responder a essa pergunta, porque em cada momento da minha vida, a cada hora quero ler, reler uma coisa.

Como eu não enxergo bem mais, é muito mais difícil ler livro de papel, tenho que ficar segurando a lupa, muitas vezes. Então eu comecei a juntar uma biblioteca digital que está com uns 50 mil volumes. Eu preciso de mais umas três encarnações. Eu já pedi para botarem o pen drive com isso tudo no meu caixão.

Esses dias eu estou lendo o “Chapadão do Bugre”, do Mário Palmério, que é um escritor que ficou meio esquecido nesses últimos tempos, e que eu me lembro que foi uma revelação quando eu li, nos anos 1960.

Um outro livro que foi importantíssimo para a minha vida, e que é um escritor que também está meio esquecido no Brasil, é o Ferreira de Castro [1898-1974], que escreveu, “A Selva”. Era um português que veio com 12 anos para trabalhar nos seringais da Amazônia. Mas como ele era bem escolarizado, ele acabou ficando com a contabilidade do seringal, aos 18 anos conseguiu pagar a dívida dele – eles ficavam pagando a dívida da viagem – foi para Belém do Pará, fundou um jornal lá e, aos 21 anos, voltou para Portugal e escreveu uma série de romances fantásticos. Esse “A Selva” acho que é fundamental que todo brasileiro leia.

Qual seu próximo projeto?

Maria Valéria Rezende Estou escrevendo dois romances ao mesmo tempo. São sempre vários ao mesmo tempo, porque quando eu tenho uma ideia, e que me vem qual é a voz que conta, para não perder essa voz, eu me sento no computador e às vezes eu passo uma semana praticamente sem dormir, até escrever umas 30 páginas e segurar aquela voz. E depois eu não consigo mais manter esse ritmo.

Nesse meio tempo, tenho outra ideia e faço a mesma coisa, e assim vai. Agora, eu posso bater as botas amanhã cedo. Então também não sei [risos]. Eu não tenho medo, não. Já morri várias vezes, estive em desastre de avião, capanga com espingarda 12 apontando para o meu peito, uma vez quase morri afogada, vim parar na praia que nem um tronco velho. [risos] Sobrevivi a tudo isso, tenho experiência.

Se você quer uma novidade, eu estou tentando escrever poesia. Eu sempre escrevi haicai, mas poesia assim ocidental, não. Como estou perdendo a visão, eu preciso ver as letras, ver a frase escrita. Um verso eu consigo ver de olhos fechados. 

Então estou fazendo uma brincadeira de procurar, dentro da minha prosa –porque o pessoal diz que minha prosa é poética, não sei quê –, estou relendo meus livros e procurando possíveis poemas que estão infiltrados ali dentro, e depois trabalhando um pouco isso.

Não sei se vai chegar em alguma coisa, mas eu tenho que inventar sempre uma novidade, senão a vida vira um tédio. Eu não aceito o tédio.

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