Ir direto ao conteúdo

O que foi a França Antártica, segundo este escritor francês

Jean-Christophe Rufin fala ao ‘Nexo’ sobre a expedição que tentou colonizar o Rio de Janeiro em 1555

 

Jean-Christophe Rufin tornou-se em 2008, aos 56 anos, o mais jovem membro da Academia Francesa de Letras. Um de seus livros mais conhecidos, Rouge Brésil (Vermelho Brasil), de 2001, conta a história da presença francesa no Rio de Janeiro do século 16.

O livro é uma ficção. Nele, Rufin fala de duas crianças, Just e Colombe, trazidas à força para o Rio como parte de uma expedição comandada pelo navegador francês Nicolas Durand de Villegagnon, em 1555.

Mas o pano de fundo da obra é baseado em fatos reais: Villegagnon de fato comandou uma expedição descrita por vezes como “insólita” e “efêmera” na qual tentou fundar na Baía de Guanabara o que seria batizado de França Antártica.

Para tornar isso possível, a expedição estabeleceu uma aliança com os indígenas tamoios contra os portugueses. Porém, um racha interno, entre católicos e protestantes, levou ao fim precoce da aventura.

Para o autor, a historiografia brasileira dá muita importância à tese segundo a qual os portugueses expulsaram os franceses do Rio. Ele considera que o fator decisivo para o fim da França Antártica foi outro – a briga interna entre protestantes e católicos que faziam parte da expedição.

Segundo Rufin, as tensões ocorridas no grupo de Villegagnon no Rio persistiram no retorno à França e alimentaram as polêmicas que desataram, em 1572, numa série de massacres que ficaram conhecidos como “guerra de religiões” na França.

 

A visita mais recente de Rufin ao Brasil ocorreu na última semana de maio de 2019. Em São Paulo, ele participou da entrega da versão brasileira do prêmio literário Choix  Goncourt. No Rio, tomou posse da cadeira número 13 de Sócio Correspondente da Academia Brasileira de Letras – categoria na qual são homenageados autores estrangeiros.

Na passagem por São Paulo, Rufin recebeu o Nexo para a entrevista abaixo. O autor falou de história e literatura com desenvoltura, mas recorreu à habilidade de diplomata para desviar das perguntas políticas.

Além da carreira literária, Rufin foi adido cultural da França no Recife nos anos 1960, e embaixador no Senegal e na Gâmbia. Médico de formação, ele foi também um dos pioneiros da criação da organização humanitária MSF (Médicos Sem Fronteiras), pela qual realizou missões no leste da África e na América Latina.

De onde veio a ideia de escrever um romance sobre a expedição francesa ao Brasil de 1555?

Jean-Christophe Rufin  Quando fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez, eu fiquei fascinado com a paisagem. Naquele momento, eu era muito ignorante sobre a história do Brasil. Eu pensava que a Baía da Guanabara era desabitada quando os europeus chegaram. Em seguida, eu me lembro de ter visto uma exposição no Museu Nacional, que agora foi destruído por um incêndio. Nessa exposição havia uma pintura que mostrava a Baía da Guanabara no momento da chegada dos portugueses. Era uma paisagem vazia. Eu me pus a imaginar o que devem ter sentido os homens dessa época ao desembarcarem numa paisagem como essa. Fui aprender depois, o que é óbvio, na verdade: que o Rio não era desabitado. Ele estava cheio de gente. É claro, estava cheio de indígenas.

O momento em que os franceses chegaram no Brasil foi um momento extremamente rico. E eu percebi que nessa experiência de Villegagnon ocorreu um evento trágico e muito importante. Acredito que tenha sido o primeiro episódio da guerra de religiões. A guerra de religiões da Europa teve início lá [em referência o período de conflitos e massacres que ocorreriam a partir de 1562 entre protestantes e católicos na França, marcando toda a história da segunda metade do século 16 no país].

Depois de ter pesquisado e de ter escrito tanto sobre a França Antártica, o sr. se pôs alguma vez a imaginar o que poderia ter sido da história francesa e da história brasileira nos dias de hoje, se essa experiência de Villegagnon tivesse prosperado no Rio?

Foto: Charles Platiau/Reuters - 29.05.2015
Jean-Rufin
Jean-Christophe Rufin na Academia Francesa de Letras em 2015
 

Jean-Christophe Rufin  Quando meu livro foi traduzido no Brasil, muitas pessoas me faziam essa pergunta. Percebi que muitos brasileiros gostam de imaginar um destino francês para si.

Porém, eu penso que é bom que a França não tenha colonizado o Brasil. É só ver o que ocorreu nos contextos em que nós, franceses, fomos colonizadores. Você vai ver que as coisas não acabaram bem. Perceba que há muita relação entre a França e o Brasil. Há uma relação de fascinação recíproca, de troca cultural. Essa relação é rica justamente por que não ocorreu aí uma conquista. Não houve, de parte da França, uma submissão dessa região.

Os exemplos de colonização francesa não são encorajadores, sobretudo naquela época. A colonização daquela época foi muito diferente da colonização do século 19. A colonização do continente americano foi uma colonização total, o que significou em grande medida a eliminação do que existia antes.

Essa experiência histórica da França Antártica envolveu uma aliança incomum entre franceses e povos indígenas do Rio. Como isso ficou registrado na historiografia da França?

Jean-Christophe Rufin  Nessa curta experiência de Villegagnon e da França Antártica, as relações com os indígenas não foram de fato negativas. Veja que o comportamento dos franceses com os indígenas foi muito diferente da relação que os portugueses tiveram com esses povos, ou que os ingleses tiveram também, no Canadá. Frequentemente, indígenas e franceses se misturaram.

Depois do fim da expedição da França Antártica, muitos franceses que eram membros da expedição continuaram vivendo no Brasil junto com os indígenas. Muitos deles chegaram mesmo a lutar ao lado de tribos indígenas brasileiras contra os portugueses. Sempre houve, portanto, uma espécie de simpatia.

Muito do que nós sabemos dos indígenas da época, muito do que sabemos sobre os tupinambás, por exemplo, vem dos registros feitos por franceses que foram testemunhas dos fatos desse tempo, gente como André Thévet [frade franciscano e escritor que fez parte da expedição francesa ao Brasil no século 16] e Jean de Léry [protestante calvinista e escritor que também tomou parte na mesma expedição]. Foram eles os responsáveis por algumas das melhores descrições que nós temos desse tempo. Muito do que sabemos dos tupinambás devemos a eles.

Há, portanto, uma tradição de aliança, de fascinação e de simpatia. É claro que às vezes há coisas como o que ocorreu quando houve o Ano do Brasil na França [2005]. O catálogo era cheio de imagens de penas, plumas etc. Os brasileiros, com razão, ficaram irritados com isso. Não é essa a imagem. Os franceses têm por vezes uma imagem falsa do que o Brasil é. Ainda assim, há uma curiosidade mútua, uma simpatia, e isso não é ruim.

A história da expedição francesa ao Brasil não deixa de ser uma história de imigração. O sr. entende que há pontos de vista muito diferentes entre a Europa e suas ex-colônias a respeito da imigração, da generosidade e da acolhida? Vemos o forte rechaço, sobretudo da extrema direita europeia aos imigrantes. Como o sr. percebe isso do ponto de vista político e histórico?

Jean-Christophe Rufin  Nós não temos a mesma história. Isso é claro. O Brasil é um país de imigrantes, não apenas de colonização. Os portugueses estiveram em muitos países, mas não foram os únicos capazes de povoá-los. O povo brasileiro é resultado, portanto, de um sistema de integração muito particular, marcado por forte tensão social, mas, apesar disso, com muita mistura de nacionalidades.

Foto: Biblioteca do Congresso Americano
França_Antártica
Ilustração da França Antártica em livro de Thévet, do século 16
 

Não é comum no mundo ver coisas como as que eu vi em Recife, por exemplo. Não sei se ainda existe isso, mas me lembro que nas tardes de sexta-feira, duas senhoras, de traços aliás muito europeus, saíam de casa com um violino, cada uma. Elas tocavam e dançavam pelo bairro até parar diante de outra casa, de dentro da qual saía alguém tocando um violão. A linha tocada no violino soava a algo típico da Europa central, mas a guitarra tinha uma sonoridade espanhola. Eles avançavam assim, e outras pessoas iam se juntando pelo caminho. No fim, tocavam um frevo. Essa era uma mistura de carnaval e de procissão marcada pela fusão de muitas culturas.

Não se trata de dizer com isso que o Brasil seja um país no qual não existem separações raciais, mas é um lugar onde existe essa capacidade de, no fundo, realizar o que nós vemos expresso no “Manifesto Antropofágico” de Oswald de Andrade [no qual o autor, em 1928, defende a ideia de que é preciso digerir o legado europeu para produzir, no fim, uma arte brasileira], essa ideia de abertura a tudo. A música brasileira é isso. O futebol é isso.

Nós, europeus, não temos isso. Temos um sistema muito mais rígido na Europa. É um sistema baseado sobretudo na dominância étnica forte e na homogeneidade forte. Há a ideia da mesma religião, da mesma cor, da mesma origem. Esse é, finalmente, um modelo muito menos adaptado à mistura.

Hoje, esses limites estão postos à prova por uma imigração que questiona essa ideia de homogeneidade. E nossas ferramentas de integração são precárias. Nós não temos as ferramentas que existem aqui. Então, o que se consegue é que as pessoas aceitem a imigração desde que essa imigração não ponha em questão a forma que está colocada. Mas a realidade não funciona assim. Essa forma se rompe, produzindo a tensão que estamos vendo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: