Por que queremos comentar tudo na internet

Em entrevista ao ‘Nexo’, a psicanalista Maria Lucia Homem discute a ‘cultura do comentário’ que transforma as redes sociais em campos de batalha

 

Lembra quando a internet não era um ruidoso ringue de ideias?

Antes dos bots, das fake news e dos trolls, lembra o psicólogo não-binário americano Devon Price, o usuário precisava vasculhar a web para encontrar ferramentas para publicar suas ideias. A maioria dos sites era feita para ler - e o leitor não era constantemente incitado a interagir com um comentário ou um emoji.

Agora, diz Price, estamos vivendo uma “cultura do comentário”.

“Nenhum tópico - de celebridades a mudança climática - está imune do comentário público. Nenhuma atividade - de compartilhar fotos das férias a comprar maquiagem ou ler periódicos científicos - está isenta da barulheira das seções de comentários. As redes sociais se tornaram nada mais do que infinitas seções de comentários”, escreveu, em 22 de maio de 2019, no Medium.

Entram nessa cultura as milhares de críticas de leitores que não leram as postagens que estão comentando, as réplicas de autores que não notaram que estão conversando com robôs, as tréplicas de amigos (ou inimigos) de determinado assunto que, no fundo, ninguém domina direito. O ritmo é o mais acelerado possível, antes que alguém “lacre” e a “treta” esfrie e caia no esquecimento.

Embora a internet tenha aumentado o acesso a possibilidades de comunicação e arte, abarcando mais vozes nos debates públicos, a janela aberta incluiu uma série de comentadores não-especialistas ávidos por expressar opiniões que confrontam argumentos de especialistas de determinada área.

“Uma pessoa que nunca leu nenhum estudo científico relacionado à mudança climática pode publicar seus pensamentos na seção de comentários do site do jornal The New York Times, logo abaixo das palavras de um climatologista que dedicou a vida inteira ao assunto”, exemplificou Price.

Ler ou não ler comentários

O argumento lembra a famosa frase do escritor e filólogo italiano Umberto Eco, ao receber o título de doutor honoris causa na Universidade de Turim, em junho de 2015: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Os exemplos se multiplicam. Cientistas especializados no estudo de encefalomielite miálgica (também chamada de síndrome da fadiga crônica), por exemplo, tornaram-se alvo de assédio e campanhas de intimidação nas redes sociais, reportou a Reuters, em 18 de abril de 2019.

A síndrome é uma condição pouco conhecida que pode causar cansaço e dor. Segundo pesquisas recentes, realizadas na Universidade de Oxford, na Inglaterra, trata-se uma condição biológica de difícil diagnóstico, que pode ser agravada por fatores sociais e psicológicos.

Um experimento clínico do psiquiatra britânico Michael Sharpe, por exemplo, indicou que pacientes podem apresentar melhoras com terapias, o que inclui conversação e exercícios. Nas redes sociais, usuários ficaram furiosos com o experimento, pois acreditam que o resultado quer dizer que a síndrome é simplesmente uma doença mental - o que o estudo não diz.

“Para muitos cientistas, é o novo normal: das mudanças climáticas às vacinas, os comentaristas da internet e a ciência estão se enfrentando. E as plataformas de mídia social estão contribuindo para exacerbar a batalha”, descreveu a Reuters.

Como as pessoas se comportam nas redes

Os psicólogos americanos Justin Hepler e Dolores Albarracín, das universidades de Illinois e Pensilvânia, respectivamente, pesquisaram o ódio online.

Em estudo publicado em 2013, eles conseguiram identificar dois tipos principais de grupos: o primeiro é curioso e aberto; o segundo é fechado a informações novas, não gosta do desconhecido e tende a ignorar ou desprezar fatos que possam contradizer suas ideias já formadas.

É a lógica da bolha. No livro “O filtro invisível” (2011), o ativista americano Eli Pariser analisa como as redes sociais, com seus complexos algoritmos, filtram informações alinhadas às ideias dos usuários, rejeitando argumentos contrários, às vezes informativos e talvez promissores para um bom debate.

No livro “Reading the comments” (2015), o acadêmico americano Joseph Reagle, professor da Northeastern University, nos EUA, indica que os comentários podem informar, aprimorar, manipular, alienar e moldar as pessoas - além de assustar.

Segundo Reagle, comentários podem afetar a autoestima, autenticidade e identidade das pessoas (para o bem e para o mal). Mas, ao mesmo tempo, podem fornecer um retrato da comunicação contemporânea e seu papel na sociedade. “É como garimpar ouro no fundo da internet”, definiu, em entrevista ao Nexo, em 2016.

Escrever ou não escrever comentários

O fenômeno também marca as redes sociais no Brasil. Além do dilema de ler ou não os comentários, há ainda a questão de escrevê-los ou não: eles têm algo a acrescentar no debate?

“Lacrar é preciso, debater não é preciso”, ironizou o jornalista Paulo Roberto Pires, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em artigo publicado na revista Quatro Cinco Um, em 23 de maio de 2019.

“Um bom comentarista precisa em primeiro lugar ter tempo livre e uma metralhadora de ódio. O bacharel comentarologista deve evitar o trabalho, os hobbies e as atividades ao ar livre. É preciso entregar-se por inteiro à ociosidade. Tempo livre pois não só é preciso dar opinião sobre qualquer assunto, mas essa opinião deve ser dada o mais rápido possível”, criticou o economista Alexandre Andrada, professor da UnB (Universidade de Brasília), em artigo publicado no portal HuffPost Brasil, em fevereiro de 2015.

Em texto de fevereiro de 2012 no jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista Alexandre Matias se referiu ao impulso de opinar na internet como reação à avalanche de informação e sintoma de uma “ressaca da web 2.0” que, segundo sua expressão, “que permitiu a qualquer um dizer o que pensa online – e agora estamos vendo todo mundo dizer o que pensa só pelo simples fato que �� possível dizer o que se pensa o tempo todo”.

A jornalista americana Angela Watercutter, editora sênior da revista de tecnologia Wired, lembra o óbvio: só porque a possibilidade de comentar está aberta não quer dizer “é preciso” comentar ou reagir a publicações alheias. Muitas vezes é bem-vinda a máxima cristalizada pelos memes da atriz Gloria Pires no Oscar: “não sou capaz de opinar”.

“Nos últimos anos, tornou-se necessário responder a tudo. Isso se manifesta de maneiras óbvias, como comentando nos posts do Facebook ou respondendo a mensagens no Twitter, mas também de maneiras mais mundanas, como os emojis. E os estímulos para esse input é constante. Cada tuíte, cada post no Instagram, cada Snap - todos eles saltam nos nossos smartphones como as gêmeas de ‘O Iluminado’ dizendo ‘vem brincar com a gente’. Não interagir parece grosseiro. Dar like nas publicações, impulsioná-las, é parte do atual contrato social”, Watercutter escreveu, em artigo de agosto de 2018.

O Nexo conversou sobre essas questões com a psicanalista Maria Lucia Homem, autora de “No limiar do silêncio e da letra” (2012), pesquisadora do Núcleo Diversitas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo) e professora nas áreas de Psicanálise, Literatura, Cinema e Comunicação.

O que explica o impulso de comentar tudo na internet?

Maria Lucia Homem Quando eu estou conversando com você, pessoalmente, olho no olho, é um tipo de processo comunicativo, de conversa, de diálogo. Eu digo, você ouve, você responde, eu respondo. Nós, humanos, reagimos. Nós somos responsivos - e reagimos ao que acontece ao redor.

Mas, nas redes sociais, esse comportamento é intensificado. Dá a impressão de que tudo nos afeta o tempo todo. Se alguém está dizendo algo que minimamente nos interessa, pensamos: isso é uma mensagem para mim. Inconscientemente, sentimos que precisamos responder, reagir, comentar. O que alguém escreveu ali nos interpela - podemos saber ou não saber do que se trata, mas sentimos que precisamos comentar.

Neste contexto, o ponto mais delicado da comunicação contemporânea é o silêncio. É saber a hora certa de calar.

Qual o impacto desse fenômeno?

Maria Lucia Homem Estamos em uma transição de formas de comunicação. Tínhamos antes ali emissor, receptor, meio, mensagem, ruído - um processo complexo, mas tínhamos a inteligência de refletir sobre o processo comunicacional e identificar o ruído. A mensagem ia se transformando ao longo do caminho e, ao final, era compreendida, discutida, revista, enfim.

Agora, estamos subvertendo constantemente esse fluxo. O emissor não é senhor de sua mensagem, que é jogada na arena digital, atropelada por ruídos, incorporada por outros emissores, retrucada por outros receptores que se tornaram novos emissores. Eu digo algo, mas muitas vezes o outro não quer ouvir: a minha ideia não é interpretada pelo outro, que não necessariamente quer debater, mas interromper e refutar sem ouvir.

É um processo muito mais complexo. Como se todos quisessem tomar a palavra de uma vez só: todo mundo está emitindo e recebendo mensagens o tempo inteiro e para todos os lados. Na verdade, estamos falando de olhos fechados. Literalmente: não é um diálogo olho no olho. A palavra fica flutuando no ar. É como se estivéssemos falando ao vento.

Vê possibilidade de diálogo?

Maria Lucia Homem O que seria um jogo dialógico? Eu existo, você existe. Somos diferentes, podemos negociar e dialogar dentro das diferenças. Mas o que acontece atualmente é o rompimento do diálogo, pois muitas vezes ainda não sabemos como nos comunicar nessa multidão anônima na internet. O anonimato é muito confortável e, ao mesmo tempo, desconcertante.

Um dos efeitos são os processos regressivos para subjetividades primárias: as pessoas se rendem a impulsos infantis e banais, basicamente o amor e o ódio. Em termos teóricos, poderíamos chamar de identificação simbiótica na psicanálise.

Isso se manifesta quando as pessoas idolatram e seguem cegamente determinada ideia ou personalidade como se fossem detentoras da “verdade”. Ou o mecanismo oposto: quando as pessoas detestam inteiramente e têm pulsões primárias de destruição do outro. É uma hiperinfantilização.

Isso reduz drasticamente a possibilidade de debate de ideias. E é o que orienta o comportamento dos trolls, que podem instigar uma manada de seguidores. Assim regredimos para uma lógica tribal, que reduz as discussões a “vencer” o debate. Não é mais uma discussão sobre saber ou não saber, mas rivalizar e vencer. Muitas vezes, portanto, as pessoas não estão lançando um comentário para construir uma discussão, mas entrando num campo de batalha. É um jogo violento de gladiadores na arena da internet.

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