Ir direto ao conteúdo

Como jornais podem recuperar a credibilidade, segundo esta pesquisadora

Sally Lehrman fala sobre a atual desconfiança nas notícias e de seu Projeto Credibilidade, que chegou ao Brasil em 2019 e conta com o ‘Nexo’ como um de seus integrantes

 

Em uma pesquisa Datafolha sobre confiança nas instituições divulgada no início de abril de 2019, apenas 24% dos brasileiros disseram confiar na imprensa. Foi um índice melhor do que o apontado por um levantamento anterior, de junho de 2018, logo antes do período eleitoral — 16%.

“Existe uma séria crise de credibilidade afetando o jornalismo ao redor do mundo”, afirma a jornalista americana Sally Lehrman. “E essa crise não é nova.”

Diretora do programa de ética jornalística da Universidade de Santa Clara, no Vale do Silício, nos EUA, Lehrman começou a desenhar em 2015 um projeto para fortalecer a confiança do público no noticiário, por meio de práticas de transparência e responsabilidade por parte dos veículos de informação, além de parcerias com plataformas de tecnologia.

Durante dois anos, sua equipe de pesquisadores entrevistou dezenas de pessoas nos EUA e na Europa para descobrir o que elas consideravam importante para decidir se confiavam ou não em uma notícia. Esses dados foram levados a redações de diferentes países para que editores e repórteres pensassem, junto com o time de pesquisa, em como atender às principais demandas levantadas nas entrevistas.

Esse trabalho levou à elaboração de oito indicadores de credibilidade de notícias. Em 2017, o Trust Project foi lançado com a adesão de dez veículos nos EUA, Europa e Canadá — como The Washington Post, The Economist e El País. Esses veículos trabalharam para atender a todos os critérios do projeto e, por isso, receberam um selo.

No dia 8 de maio de 2019, os primeiros veículos de comunicação brasileiros ganharam selos do Trust Project — que, aqui, foi batizado como Projeto Credibilidade: Nexo, Agência Lupa, Agência Mural, Folha de S.Paulo, Poder360 e O Povo.

No Brasil, o projeto foi coordenado pela jornalista Angela Pimenta e o professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Francisco Belda, ligados ao Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo). O financiamento para o trabalho de apoio do Projor às redações brasileiras veio da Google News Initiative e do Facebook Journalism Project.

O Trust Project conta, hoje, com mais de 100 veículos adotantes nos EUA, Europa e Brasil. Os próximos locais em que o projeto aportará são Austrália e Hong Kong. O trabalho de Lehrman e sua equipe é financiado por Craig Newmark, fundador do site de classificados Craigslist, por meio de uma de suas instituições filantrópicas, pelo Google, o Democracy Fund e a John S. and James L. Knight Foundation.

Os indicadores do Credibilidade

Melhores práticas

Declaração dos princípios de um veículo, como quem o financia, qual a sua missão, sua política de ética, como corrige erros, entre outros.

Expertise do autor

Exposição de informações sobre o jornalista que produziu a matéria.

Tipo de matéria

Adoção de etiquetas que separem o que é notícia de outros formatos, como opinião, análise e conteúdo patrocinado.

Citações e referências

Esforço para apresentar como o veículo obteve determinadas informações, fornecendo links para documentos originais, por exemplo.

Métodos

Exposição de informações sobre como um determinado conteúdo foi produzido e por que o veículo decidiu investigar um tema.

Apuração local

Exibição do local onde uma notícia foi apurada e/ou redigida.

Diversidade de vozes

Compromisso do veículo em ter entrevistados variados em seus conteúdos, considerando gênero, cor/raça, origem social e geográfica, posição política, entre outros.

Feedback acionável

Esforço da redação para estimular a participação e colaboração com o público.

Para receber o selo do projeto, os integrantes iniciais do Credibilidade já adotam ou se comprometeram a adotar em um prazo determinado os três primeiros indicadores (melhores práticas, expertise do autor e tipo de matéria) — o Produto Viável Mínimo da iniciativa, enquanto os demais indicadores podem ser adotados com mais tempo. 

Como o ‘Nexo’ adotou os indicadores

As informações sobre a história, missão e financiamento do Nexo estão disponíveis na seção Sobre o Nexo. As práticas do jornal estão descritas nas páginas de Padrões editoriais do Nexo, Política de erros e Contato.

Em relação ao indicador “expertise do autor”, leitores podem encontrar informações sobre todos os profissionais do Nexo na página Nossa Equipe.

Desde o seu lançamento, o jornal usa desenhos de página e sinalizações em texto para diferenciar conteúdos noticiosos e artigos de opinião. Para complementar os esforços em relação ao indicador “tipo de matéria”, publicamos a página Formatos, com descrições de todas as seções do Nexo. Em breve, essas definições estarão também nas páginas das respectivas seções.

Como as plataformas digitais participam do Credibilidade

Desde a concepção do Trust Project, Sally Lehrman definiu que era necessário que plataformas como Google e Facebook também fossem incluídas no esforço de melhorar a confiança do público no jornalismo. Afinal, um número significativo de leitores consome notícias por meio dessas ferramentas — segundo pesquisa feita pelo Instituto Reuters em 2018 com 2.007 brasileiros, 66% disseram usar redes sociais para se informar.

Por isso, a adesão ao projeto também inclui esforços tecnológicos dos veículos, que precisam sinalizar, em forma de código nos seus sites, que se comprometeram com os indicadores de credibilidade. Isso permite que as plataformas utilizem essas informações para melhorar a forma como disponibilizam as notícias aos usuários, indicando o que é notícia e opinião em suas interfaces, por exemplo.

A perda da credibilidade. E a busca para recuperá-la

O Nexo recebeu a jornalista e pesquisadora Sally Lehrman no dia 9 de maio de 2019 em sua redação, onde ela concedeu a entrevista a seguir.

Há uma crise de credibilidade dos veículos de notícias? Como ela se manifesta e como explicá-la?

Sally Lehrman Sim. Existe uma séria crise de credibilidade afetando o jornalismo ao redor do mundo. No Brasil, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa as pesquisas mostram um problema de descrença nas notícias muito alto. Os números têm caído desde 1997, pelo menos — foi quando o ambiente digital começou a dominar. Existe um sentimento de incerteza nas pessoas sobre confiar ou não no noticiário, em parte, porque tudo parece a mesma coisa na internet: uma notícia, uma loja tentando te vender um sapato, a página de um político. As pessoas também perderam parte de sua confiança nos jornais porque percebem — e ficam desconcertadas — com a mistura entre notícia e opinião. E outro elemento importante foram os ataques ao jornalismo feitos por quem não gosta do que está sendo noticiado. Podem ser políticos que entendem o poder de um público bem informado e querem distanciá-los das notícias, criando desconfiança deliberadamente. Eles passaram a definir como “fake news” tudo aquilo com o qual eles não concordam.

Sua pesquisa buscou definir que fatores impactam na credibilidade de um jornal. Como isso foi feito?

Sally Lehrman Cruzamos os Estados Unidos e a Europa fazendo algumas entrevistas. Não eram focadas em um grupo específico: conversamos com pessoas de diferentes raças, gêneros, idade, geração, lugares... Tínhamos que ter certeza que não estávamos falando com apenas um tipo de pessoa. Assim, mapeamos quatro tipos de usuários. E percebemos que eles tinham perguntas e preocupações muito semelhantes entre si. Em todos, havia pessoas que valorizavam as notícias, mas o relacionamento com elas era diferente.

Os quatro tipos de usuários de notícias, segundo a pesquisa

“Avid” (“ávidos”, em tradução livre)

Valorizam as notícias, checam e rechecam as informações, comparam veículos e compartilham os melhores conteúdos em suas redes sociais. São curadores de notícias.

“Engaged” (“engajados”, em tradução livre)

Assinam uma ou mais publicações, digitais ou não. As notícias são parte da vida dessas pessoas e elas conversam sobre isso. Mas se sentem um pouco sobrecarregados com o volume de informações hoje. Também podem se sentir desassistidos e dizer frases como “eu não vejo muito da minha comunidade nas notícias”, “não vejo muitas coisas que importam para minha vida nas notícias, mas ao mesmo tempo as valorizo”.

Opportunistic” (“leitores de ocasião”, em tradução livre):

São tão ocupados e têm tantas outras preocupações em suas vidas que não prestam muita atenção nas notícias, mas ainda assim as valorizam. Eles sabem da importância das notícias para tomar decisões em suas vidas. As notícias chegam esporadicamente até eles quando passam por uma televisão ou quando uma notificação chega no celular e eles acham interessante.

“Angry/desengaged” (“nervosos/desengajados”, em tradução livre)

São os que mais preocupam o jornalismo. Atacam jornalistas no Twitter, dizendo que suas reportagens são falsas. Podem estar nos dois polos políticos (liberais e conservadores). E são desengajados porque pararam de prestar atenção às notícias.

Cruzando por esses quatro grupos, encontramos perguntas muito parecidas. Uma delas era: “qual a sua agenda política?”. Nós, jornalistas, sabemos que tentamos ser imparciais, mas obviamente ninguém consegue ser totalmente. Os leitores diziam: “eu sei que o jornalismo tenta ser objetivo, mas precisamos saber seu posicionamento”. Outra pergunta era “como vocês sabem o que dizem que sabem?”. Ou seja, as pessoas têm a expectativa de saber mais sobre as fontes, ir mais a fundo. E eles também querem saber mais sobre os jornalistas que escrevem as notícias: qual é a especialidade deles, passado profissional, que princípios seguem.

“Quando pensamos em confiança, trata-se de um relacionamento entre uma organização, os repórteres, as fontes e a pessoa que vai ler o conteúdo.”

Um desejo por vozes mais diversas também apareceu. As pessoas afirmavam que gostariam de ouvir também pessoas que se parecem com elas, e não só fontes governamentais de alto nível. Outro questionamento foi sobre notícias e opinião: muitos não sabiam dizer com certeza qual a diferença entre os tipos. Alguns até perguntavam se os jornalistas sabiam a diferença, ou se eles estavam propositalmente unindo ou acrescentando opiniões nos textos jornalísticos.

Avaliamos essas questões, criamos os quatro perfis de usuários, descrevendo as diferentes perguntas de cada um deles e, depois, apresentamos esses documentos a executivos de empresas jornalísticas dos EUA, Europa, México e Canadá. Pedimos que eles olhassem para a pesquisa e pensassem em soluções desenhadas para usuários dentro dos valores jornalísticos. Com isso, chegamos aos oito indicadores.

Descrever algumas palavras e termos foi desafiador. A gente acha que sabe o que eles querem dizer, mas quando reunimos vários jornalistas, tivemos que discutir coisas básicas como “como descrever o que é opinião de uma forma que todos concordem”. O próximo desafio foi traduzir isso em uma linguagem de programação. O pessoal do Schema.org nos ajudou nessa missão. Foi assim que chegamos aos indicadores de confiança.

Quais descobertas mais te surpreenderam na busca pelos indicadores de credibilidade jornalística?

Sally Lehrman A questão da diversidade de vozes. Sempre foi algo importante para mim, ao longo da minha carreira. Mas me surpreendeu, e também a alguns dos editores, que essa temática reaparecesse tanto entre entrevistados. E isso mostrou que não estávamos fazendo um trabalho muito bom a respeito. Ouvir diretamente das pessoas que eles sentem falta disso foi muito importante. Também me surpreendeu que pessoas tão distintas tivessem desejos e questionamentos tão semelhantes a respeito do jornalismo. As pessoas são muito sofisticadas a respeito das notícias, o que pensam e querem do jornalismo. Foi interessante ver como ele é valorizado e esclarecedor saber quais pontos específicos precisavam de mais clareza, como podemos fazer um trabalho melhor. Outra coisa que chamou atenção foi em relação às expectativas sobre referências. Há um desejo de ter mais informações sobre as fontes utilizadas na matéria. Linkar documentos oficiais citados, perfis de entrevistados, trazer algo além do que está no texto. As pessoas afirmaram que isso faria diferença para eles em termos de confiança no texto e que elas usariam esses documentos.

EUA e Brasil são países muito diferentes que, no entanto, têm em comum um nível alto de desconfiança nas notícias. Por que você acha que isso acontece?

Sally Lehrman Acho que isso talvez passe pela questão de diversidade — e é algo que os EUA e o Brasil têm em comum. Nas eleições de 2016, nós, jornalistas americanos, descobrimos que ignoramos grande parte do país em termos geográficos e também subestimamos algumas comunidades, como os negros, os mais pobres, minorias religiosas. Muito da desconfiança está em não se ver no que está sendo produzido, em não se sentir relevante.

“É um desafio para países tão diversos incluir todas as minorias na cobertura? Sim, mas não é um desafio impossível de superar se dermos atenção a isso. Podemos ter notícias mais acuradas e que beneficiem e preencham esse papel na sociedade.”

Há motivos para desconfiança e descrédito criados por nós jornalistas, infelizmente: nós desprezamos algumas comunidades; misturamos notícias com opinião (e as pessoas notaram isso no ambiente digital; alguns jornalistas passaram a dar opinião na internet e isso confunde os usuários. E nós caímos na armadilha da busca por cliques.

O ambiente digital, então, contribui para o descrédito no jornalismo?

Sally Lehrman Sim! Como eu disse antes, tudo parece meio igual na internet. Foi por isso que o Trust Project surgiu, afinal. Os veículos de notícias pareciam perdidos e desamparados no ambiente digital, tentando responder se estavam explorando ou sendo explorados pelas redes sociais… O jornalismo e as organizações estavam apenas deixando isso acontecer com elas, tentando responder a isso, mas não tomando um papel de liderança.

“O que o Trust Project tenta fazer é dar às organizações jornalísticas e ao próprio jornalismo uma voz poderosa no ambiente digital. Permitir que elas retomem o papel de liderança que é delas: prover a informação que é necessária em uma sociedade democrática.”

Jornalistas e organizações reconhecem que há uma crise de confiança há algum tempo. Como os veículos reagiram a essa crise até agora, na sua visão?

Sally Lehrman Os veículos têm intensificado a reação a essa crise. E o Trust Project é um exemplo muito bom disso. As organizações se uniram, em um meio altamente competitivo, por reconhecerem que são responsáveis pelos leitores e para retomar o controle em como o jornalismo está representado no ambiente digital. E há também organizações como o Nexo, que surgiram justamente em resposta a essa crise. Vocês estão fazendo jornalismo de uma forma diferente, que é sensível ao público e que não cai em algumas das armadilhas de mídias tradicionais. Estão dando o contexto, explicações que as pessoas realmente precisam saber para entender uma questão, têm novos modelos de negócio e editoriais. E finalmente, vemos também mais engajamento da parte do público. Há veículos que convidam seus leitores para eventos, pedem opinião sobre os conteúdos produzidos. Há diversos exemplos de empresas que estão dando mais abertura e engajando mais o público em discussões internas.

“É um bom momento para o jornalismo. Estamos enfrentando uma situação muito desafiadora e respondendo com criatividade, inovação e comprometimento.”

Os esforços do Projeto Credibilidade estão concentrados do lado dos veículos. Como você vê o impacto de iniciativas que atuam no lado do leitor, como a alfabetização midiática?

Sally Lehrman  Começamos recentemente a trabalhar mais com projetos de educação midiática. Estamos com um esforço de tentar engajar usuários a pensar nos indicadores de credibilidade, em pensar como especialistas em educação, bibliotecários ou líderes de comunidades podem usar os indicadores para ajudá-los a tomar decisões. E existem grupos focados em educação midiática que já estão se apoiando em indicadores do Trust Project, pensando em como eles podem ser incluídos em seus treinamentos.

A aplicação do projeto tem sido mais desafiadora no Brasil ou os processos são mais ou menos parecidos em outros países?

Sally Lehrman Acredito que tenham sido processos muito similares. E isso é uma das coisas mais legais do projeto. Nós reunimos veículos de países muitos diversos, modelos diversos, públicos diferentes e encontramos muitas coisas em comum em termos de desafios.

O presidente Donald Trump desacredita o jornalismo com frequência. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem adotado a mesma posição. Você acha que tais atitudes respondem a um mesmo fenômeno?

Sally Lehrman Infelizmente, estamos em um momento em que há muitos ataques ao jornalismo e essa atitude de chamar as notícias de “fake news” para promover uma agenda própria. E isso não é específico a um lado do espectro político. Acredito que isso aconteça por uma combinação entre o momento em que estamos vivendo — em que há muitas divisões, incertezas, desigualdade econômica, suspeitas entre diferentes setores da sociedade — e o ambiente digital, que acelera e amplifica tudo. Isso cria oportunidades para desacreditar o jornalismo e chamá-lo de "fake news". Somos [jornais e jornalistas] um alvo fácil, de certa forma.

É possível notar o mesmo descrédito às notícias entre os apoiadores desses. Você acredita ser possível reverter a queda na confiança em veículos jornalísticos também entre esse público?

Sally Lehrman Acho que há oportunidades no meio-termo, com as pessoas nos grupos de "engajados" e os "leitores de oportunidade", porque eles estão muito inseguros no que confiar. Podemos conquistá-los dando a eles ferramentas para que sejam mais informados sobre as notícias que consomem. E mais para frente podemos ir atrás do grupo de "nervosos/desengajados". É um grupo muito desafiador: eles se desligaram completamente das notícias e podem ser muito céticos com a transparência dos veículos. Eu acredito que, eventualmente, chegaremos a esse grupo, mas é mais produtivo tentar convencer primeiro as pessoas que estão mais abertas.

Colaborou Fernanda Giacomassi

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!