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A vivência do trauma e a melhora do clima escolar em Suzano

Ao 'Nexo', a pesquisadora Telma Vinha conta como atuou durante duas semanas junto à escola Raul Brasil, em Suzano (SP), pensando em formas de criar um ambiente escolar mais positivo após o massacre

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No dia 13 de março de 2019, dois jovens entraram fortemente armados na escola estadual Raul Brasil, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. Lá, mataram cinco alunos e dois funcionários, e deixaram 11 pessoas feridas.

Minutos antes, a dupla havia matado um comerciante, parente de um deles, em uma locadora de veículos que fica a cerca de 500 metros do colégio. Ambos haviam sido alunos da Raul Brasil e se suicidaram após o massacre.

Segundo dados divulgados em 25 de abril de 2019, pouco mais de um mês após o incidente, havia uma fila de ao menos 1.300 pessoas aguardando atendimento psicológico em Suzano.

De acordo com a Secretaria de Saúde da cidade, a prioridade tem sido dada a pessoas que sobreviveram e a suas famílias, mas há outros cidadãos de Suzano que também se sentem desestabilizados e buscam ajuda.

Há 14 psicólogos disponíveis, mas, em entrevista ao portal G1, o secretário municipal de Saúde, Luís Guillaumon, afirmou que seriam necessários outros 40. As contratações têm esbarrado em questões burocráticas, afirmou.

Além do atendimento psicológico individualizado, uma outra forma de lidar com a questão é buscar criar um ambiente escolar mais acolhedor e focado em sua proposta educacional.

O Nexo conversou sobre o assunto com a pedagoga Telma Vinha. Ela é professora da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral), que fez um trabalho de duas semanas junto a professores e alunos da Raul Brasil.

Que tipo de questão pedagógica surgiu ao trabalhar junto à Raul Brasil?

Telma Vinha A primeira linha de atuação após o massacre foi terapêutica, com atendimento principalmente de psicólogos. Esse atendimento foi para alunos, funcionários e famílias, e deve durar por alguns anos, porque muitos transtornos podem aparecer com o tempo.

Pode ser que daqui a um tempo alguém apresente sinais de estresse pós-traumático.

Já a linha em que atuamos é pedagógica, ela pensa em como a escola pode retomar sua vida e se reorganizar.

Consultamos o resultado do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, uma prova de avaliação escolar realizada periodicamente pelo governo] do estado de São Paulo. A nota média [para o estado] é de 4,9. Na Raul Brasil, a nota é de 5,8, está acima das outras.

Consultamos também os dados da Prova Brasil [levantamento elaborado pelo Ministério da Educação que, além de provas de avaliação de alunos, aplica questionários a professores] de 2017 sobre a escola.

Eles mostram que a Raul Brasil não era violenta, não tinha alunos que portavam armas, e havia poucos problemas de disciplina. Não tinha nada de diferente das outras.

Pela pesquisa, 13 de 16 professores afirmaram que sofreram agressão verbal de alunos. Mas esse é um dado que confunde. Pode dar um problema no xerox, de o professor não poder aplicar uma prova e o aluno dizer “puta que o pariu, professor, eu estudei para caramba”, como ele falaria fora da escola.

Mas a direção da escola mesmo não fala que tinha muita indisciplina, não tem registro de nenhuma situação crítica.

Mesmo quando se pensa no Brasil em geral, a violência na escola ocorre em alguns locais isolados. Tem um alarmismo quando sai na mídia uma confusão entre condutas perturbadoras, como incivilidade, indisciplina ou quebrar regras, como sendo violência. E sempre surgem propostas de militarização, controle, filmagens.

Mas esses tipos de procedimento controlam comportamentos por coerção, pouco contribuindo para a aprendizagem da convivência democrática.

Na Raul Brasil, o que houve foi uma violência de fora para dentro, não parece que o ambiente era violento. Mas é possível que tivesse problemas de convivência que não foram trabalhados de forma positiva.

Os atiradores atacaram a escola, e não um terminal de ônibus, onde iam atingir mais gente, porque ela tinha um significado para eles.

Qual intervenção vocês realizaram?

Telma Vinha Como nosso grupo de pesquisa é grande, alguns pesquisadores foram ajudar a conversar na organização da escola quando ela reabriu. Buscamos incentivar a criação de um clima escolar positivo, de apoio, em que se lide com conflitos por meio do diálogo. Isso é necessário para qualquer um que esteja na escola, sejam professores ou alunos.

Na Raul Brasil, trabalhamos durante duas semanas algumas dinâmicas diversificadas, em que os alunos e professores manifestaram seus sentimentos.

Depois, pensamos em como poderiam se organizar para retomar as suas atividades, com professores, alunos e funcionários.

Conversamos ainda com a secretaria, que decidiu que era a hora de as pessoas de fora saírem e eles começarem a caminhar lentamente, sozinhos.

Saímos da escola, e eles dão a continuidade a esse trabalho sem nosso acompanhamento, mas com a Secretaria de Educação.

Há políticas pedagógicas surgindo após o caso de Suzano?

Telma Vinha Já havia uma proposta sendo desenvolvida pelo Gepem junto ao Serviço de Proteção Escolar, que ganhou um edital do Itaú BBA e da Fundação Carlos Chagas, elaborado pela Dra. Luciene Tognetta, da Unesp, uma das coordenadoras do Gepem.

Mas, quando aconteceu o caso de Suzano, houve um sinal de alerta. Ele está desenvolvido junto à Secretaria da Educação, com a proposta de melhorar uma convivência nas escolas.

Temos que fomentar escolas positivas, mesmo quando aparentemente não têm problemas. Não só para evitar massacres, mas para promover um ambiente melhor e uma saúde melhor para os funcionários.

Vamos começar o projeto na Secretaria do Estado que terá a região de Suzano como um dos polos.

Uma das preocupações da Secretaria foi “como trabalhamos isso com as outras escolas?”, em que todos estão em pânico com o que aconteceu.

As ações que valem para qualquer escola lidam com três vias, que não chegamos a aplicar completamente na Raul Brasil.

Uma é a pessoal e relacional. Capacitamos os professores para lidar com problemas de convivência, de transgressão, sobre como gerenciar uma sala de aula com o diálogo, uma habilidade que muitos não têm.

Uma das coisas que trabalhamos é a linguagem empática, assertiva, são ferramentas para esses profissionais se transformarem.

Uma linguagem mais empática é ver que um aluno está com problemas, que está bravo, falar de uma forma que vá na direção dos sentimentos dele, dizer “percebo que isso te deixou muito bravo, tão bravo que falou de maneira impulsiva”.

O professor pode dizer em uma linguagem mais assertiva quando alguém não realiza uma tarefa: “Fico desapontado quando dou uma tarefa e ela não é realizada”.

A segunda via é institucional, criar na classe uma situação democrática, com rodas de conversa. Desde o primário até o ensino médio, ter um momento em que a turma discute uma pauta de problemas. Como os meninos tirarem sarro quando alguém erra. Os alunos se reúnem e falam sobre a convivência. As assembleias, que ocorrem com frequência, discutem problemas que são coletivos, como os professores gritarem com eles.

Outros problemas são tratados de forma privada, como alguém ameaçar: “vou pegar você lá fora, sua vagabunda”. Isso não é em roda de conversa, é em privado por meio da mediação de conflitos.

Propomos também a implantação da equipe de ajuda formada pelos alunos, que cuidam e acolhem os colegas na escola. Com base nos problemas, os alunos elegem um perfil de pares que podem ajudar e fazem uma eleição escolhendo a quem poderiam confiar um  segredo.

Três são eleitos como os mais confiáveis. Eles têm uma formação em que aprendem sobre linguagem empática, procedimentos coletivos de resolução de conflito, e formam equipes de ajuda. Eles se espalham e e usam pulseiras de identificação.

Os alunos sabem quem é vítima de bullying, e em grupos as equipes podem intervir, algo que não fariam sozinhos porque não querem ser os próximos.

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