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Como este economista quer relativizar a propriedade

Glen Weyl defende que o livre mercado é a solução para diminuir desigualdades e que direito absoluto à propriedade pode atrapalhar o progresso

Glen Weyl se define como um economista político que usa a tecnologia para pensar melhorias sociais. Aos 33 anos, ele trabalha em divulgar sua teoria de "mercados radicais".

Enquanto muitos culpam o livre mercado pela desigualdade no mundo, Weyl vai no sentido contrário. Para ele, o mercado verdadeiramente livre é justamente a saída para vários dos problemas do capitalismo, incluindo a desigualdade social e a estagnação econômica.

Weyl contesta uma série de pilares da crítica econômica, política e social em voga hoje, na direita e na esquerda. Mas para construir sua teoria, ele também se inspira em diagnósticos feitos normalmente pelos dois lados do espectro político.

O economista quer relativizar a noção de propriedade privada, usando para isso mecanismos de livre mercado. Se a propriedade é o centro da ideia atual de capitalismo para a maioria dos economistas, para Weyl ela é um obstáculo para o desenvolvimento de um mercado realmente livre.

 

Weyl é coautor, em parceria com Eric Posner, de "Mercados radicais – reinventando o capitalismo e a democracia para uma sociedade justa", e voltou ao Brasil em abril de 2019 para divulgar o livro. Voltou porque parte da inspiração para suas ideias surgiu justamente durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro. Weyl se espantou com o fato de as favelas da Zona Sul, que têm as vistas mais privilegiadas da cidade, serem locais pobres e não metros quadrados disputados.

Weyl é pesquisador na Microsoft, pesquisador visitante da Woodrow Wilson School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton e fundador e presidente do RadicalxChange. O Nexo o entrevistou por e-mail.

O que sua teoria carrega da esquerda e da direita? E em que pontos ela rompe com o que se defende hoje como solução para desigualdade, pobreza e estagnação econômica?

Glen Weyl Eu era um socialista de cabelos multicoloridos aos 10 anos de idade. Aos 15 usava um terno e era seguidor de Ayn Rand, e fundei uma organização nacional de adolescentes Republicanos. Desde então venho tentando reconciliar essas ideias. Hoje, ajudei a construir um conjunto de ideias e um movimento social que abrangem o ceticismo da direita sobre o Estado e sua ênfase na liberdade. E também o ceticismo da esquerda em relação ao individualismo, e sua ênfase na igualdade e na cooperação. Para fazer isso, precisamos fundamentalmente sair dos termos do atual debate político aos quais estamos presos e inventar novas tecnologias sociais que nos permitam, não apenas reconciliar essas ideias, mas também entender cada uma de maneira mais precisa, incorporando as preocupações de ambas. Essa é a essência da abordagem radical à economia política.

Já não vivemos em uma sociedade organizada pelos mercados e pelo capitalismo? Como a radicalização do capitalismo mudará a forma como vivemos?

Glen Weyl  O capitalismo desempenha um papel importante em nossa sociedade, assim como o Estado-nação democrático, mas ambos estão no meio do caminho a mercados verdadeiramente livres e abertos. A radicalização dos mercados livres exige que nos movamos para além do pilar central do capitalismo: a ideia de propriedade privada, que é a fonte fundamental de desigualdade de riqueza. Na verdade, acredito que precisamos definitivamente ir além da ideia de renda. Ela coloca muita ênfase nas coisas que um de nós tem o outro não tem, e não no que podemos construir juntos.

Por outro lado, a radicalização dos mercados livres exige ir além da ideia fundamental do Estado-nação democrático: uma pessoa, um voto. Essa é a fonte da opressão das minorias e dos excluídos da votação, pessoas para quem as escolhas dos Estados-nação importam, como imigrantes e estrangeiros. Na verdade, acho que precisamos ir além do Estado-nação, para instituições democráticas que podem emergir em resposta a novas demandas sociais, em vez de ficar presas nas visões de um passado colonial.

A propriedade privada é um dos pontos centrais do liberalismo econômico de Chicago. Quando ela pode ser um problema para um verdadeiro mercado livre?

Glen Weyl A propriedade privada dá ao proprietário o direito absoluto de se recusar a participar de transações que podem ser muito importantes e economicamente valiosas. Por exemplo, alguém que possui um pedaço de terra em uma parte crucial da cidade pode impedir todos os tipos de desenvolvimento econômico, mesmo que, só para fazer maior lucro, estivesse disposta a aceitar uma compensação que alguém interessado no desenvolvimento estivesse disposto a oferecer.

Esse não é um problema pequeno. A pesquisa da minha esposa Alisha Holland mostrou que a maior parte dos custos de desenvolvimento de infraestrutura, na maioria das vezes, está associada à aquisição de terras em países com fortes regimes de propriedade, como a Colômbia. Enquanto isso, em países com regimes mais flexíveis, tudo é feito de forma rápida e eficaz (embora por vezes corrompido!).

Caso parecido acontece nas favelas. São os direitos de propriedade, mesmo que informais, dos moradores das favelas que, em grande parte, são responsáveis ​​pelos altos custos de construção de esgoto e eletricidade. Se queremos um verdadeiro livre mercado e desenvolvimento, precisamos ir além do poder monopolista proporcionado pela propriedade privada.

Como suas ideias extrapolam a economia e chegam à política, à democracia, ao voto?

Glen Weyl  Nossas ideias ressaltam que a maioria dos bens que consumimos não são realmente bens privados. Não é coisa que um ou o outro consome, mas coisas que muitos de nós consumimos juntos, muitas vezes chamados de bens públicos. Bens públicos precisam ser governados no interesse daqueles a quem eles servem, uma ideia que frequentemente é chamada de democracia. Mas os sistemas democráticos padrão, de uma pessoa e um voto, na verdade não atingem esse objetivo, porque eles simplesmente servem ao interesse da maioria, permitindo que a maioria oprima as minorias.

Em contraponto, propomos sistemas, usando mecanismos de mercado, que permitam sistemas verdadeiramente democráticos e radicais. Neles as comunidades podem realmente ser responsabilizadas pela vontade total das pessoas a quem servem.

Como o Brasil, um país endividado em que a economia não cresce e o desemprego e a desigualdade permanecem em patamares elevados, serviu de inspiração para suas ideias?

Glen Weyl  Durante o verão de 2007, morei com minha esposa Alisha Holland na Gávea, no Rio de Janeiro. Alisha, que agora é cientista política e estuda a América Latina em Harvard, estava pesquisando sobre as favelas e uma coisa que me fascinou foi que elas ficam na terra urbana mais bonita do mundo, com as vistas mais espetaculares da cidade que já vi em toda a minha vida. No entanto, são tão empobrecidas.

Pareceu-me que deveria haver uma oportunidade para melhorar o bem-estar das pessoas que vivem lá e, ao mesmo tempo, fazer melhor uso dessa terra. Foi essa experiência que me levou a pensar primeiro na Votação Quadrática como uma forma de ajudar os moradores da favela a decidir se aceitam uma oferta a ser paga para deixar suas terras. Esse foi o começo de uma longa jornada que gerou essas ideias e levou a este livro.

Quais os equívocos nas soluções apresentadas pela esquerda e pela direita no caso brasileiro? Como compara o Brasil ao mundo?

Glen Weyl  A direita geralmente pensa que a privatização ("o modelo chileno de Chicago") será suficiente para alcançar o crescimento, mas esquece como tal privatização levou a Rússia a ser dominada por alguns poucos oligarcas monopolistas. A esquerda acha que o poder do Estado trará igualdade, mas esquece que o Estado é governado por uma maioria democrática, e que é tão provável eleger Jair Bolsonaro quanto Lula da Silva, portanto colocar o poder em suas mãos pode ser um grande erro.

Esses erros ocorrem em todo o mundo: nos EUA, no Reino Unido, em toda a Europa e na América Latina. Nesse sentido, o Brasil é um exemplo claro e marcante para o mundo, tanto dos problemas das atuais da esquerda e da direita quanto das soluções potenciais.

Quão longe estamos de começar a implantar essa teoria? O que se pode começar a colocar em prática imediatamente?

Glen Weyl  Muitas partes da teoria já estão sendo postas em prática hoje. As ideias antitruste estão em processo de implementação, em diferentes estágios em diferentes partes do mundo. As ideias sobre dados estão progredindo rapidamente na legislação da Califórnia e da Europa. As outras ideias são de mais longo prazo, mas há uma série de experimentos de aplicações de curto prazo em startups em todo o mundo, inclusive no Brasil, feitos por governos.

Por exemplo, o governo taiwanês usará a Votação Quadrática para selecionar os vencedores de seu Hackathon Presidencial e um artista recentemente usou nossa ideia de custo para criar uma obra de arte que está permanentemente à venda. Ela agora está listada a um preço de cerca de US$ 120 mil.

 

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