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As mulheres na diplomacia mundial, por esta pesquisadora

Em visita ao Brasil em março de 2019, pesquisadora francesa de história das relações internacionais Laurence Badel falou ao ‘Nexo’ sobre a presença feminina na carreira diplomática

Em 1918, a baiana Maria José Rebello se inscreveu no concurso nacional de admissão para a carreira de diplomata. Tornou-se a primeira mulher a ingressar no Ministério das Relações Exteriores, inaugurando a trajetória das mulheres na diplomacia nacional.

É esse percurso, marcado pela resistência a elas por parte de um meio dominado por homens, conservador e aristocrático, que a diretora Ivana Diniz narra no documentário de 2018 “Exteriores - mulheres brasileiras na diplomacia” (disponível na íntegra no site Vimeo).

Em visita ao Brasil em março de 2019 para uma série de conferências, Laurence Badel, professora da Universidade Panthéon-Sorbonne, em Paris, assistiu ao documentário sobre as diplomatas brasileiras e constatou que o momento de entrada das mulheres na diplomacia brasileira era bastante pr��ximo do que havia encontrado em suas pesquisas sobre as primeiras diplomatas europeias.

Em 20 de março, Badel participou de um seminário no Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que fornecia uma abordagem comparativa a respeito das mulheres na diplomacia.

No dia seguinte, a professora, que é diretora do Centro de História das Relações Internacionais Contemporâneas da universidade e especialista em práticas diplomáticas a partir do século 19, falou ao Nexo sobre a questão de gênero na carreira diplomática, sobre quando e como as mulheres passaram a exercer a função e as dificuldades enfrentadas ainda hoje.

Qual a relação entre a tomada de decisão na política externa e a questão de gênero?

Laurence Badel Durante muito tempo, as mulheres não estiveram associadas à tomada de decisão nesse âmbito. Mas eu diria que, de maneira mais geral, elas também não faziam parte da esfera política na escala nacional.

Na verdade, o movimento de afirmação [delas] no campo político acompanhou seu movimento de afirmação na política externa, na diplomacia e nas relações internacionais.

É um fenômeno muito recente, que remonta à Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. É quando as primeiras mulheres são autorizadas a participar dos concursos de diplomacia e a entrar para a carreira.

Na Europa ou mundialmente?

Laurence Badel Creio que a nível mundial. Sou especialista na história das mulheres diplomatas na Europa, mas, justamente, estou começando a fazer comparações com países fora da Europa.

Conversei com as diplomatas brasileiras, assisti ao documentário [“Exteriores - mulheres brasileiras na diplomacia”] e as evoluções são muito comparáveis – o avanço das mulheres diplomatas no Brasil e nos Estados europeus.

Por exemplo, no Brasil, a primeira mulher a se tornar diplomata passou no concurso em 1918. Na França, foi no final dos anos 1920, uma década mais tarde. 

Elas haviam, já há muito tempo, começado a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, mas estavam limitadas às funções de secretária, datilógrafa ou redatora. Havia uma segregação extremamente forte.

Mesmo quando elas começam a redigir documentos mais importantes, por exemplo na Inglaterra, antes da Primeira Guerra Mundial, ficam em um cômodo separado dos homens. A segregação física era muito importante.

Como você explica essa desigualdade?

Laurence Badel Explico pelo preconceito e também pelo peso da representação atribuída ao diplomata, porque, historicamente, o embaixador é aquele que representa o Estado e, também historicamente, esses representantes foram homens, de um meio aristocrático e rico, porque não havia salário, e as mulheres foram completamente excluídas.

Não se imaginava que uma mulher pudesse representar um Estado. Havia também as considerações quanto ao físico. Avaliava-se, sobretudo, que mesmo que elas estivessem aptas a trabalhar em funções administrativas, elas não poderiam trabalhar no serviço exterior.

Por causa disso, durante muitos anos, elas foram proibidas de trabalhar nos consulados, nas embaixadas, e o argumento apresentado era físico, dizia-se que as mulheres não suportariam, fisicamente, o ambiente longínquo, hostil. Explicava-se também que os protocolos diplomáticos não estariam adaptados às mulheres. 

Depois, eu creio que, mais grave do que isso, elas próprias interiorizaram os preconceitos sexistas, e as primeiras mulheres embaixadoras quase se desculpavam por exercer a profissão, ou mesmo explicavam que haviam-na confiado missões culturais porque, diziam, eram mais adequadas às mulheres.

Elas acabaram incorporando o argumento sexista que as impedia de lidar com as questões políticas. Apenas muito recentemente mulheres passaram a ocupar funções internacionais em outras áreas.

Por que, com a Primeira Guerra Mundial, elas passaram a exercer a função de diplomatas?

Laurence Badel Há vários fatores que explicam [a entrada delas na diplomacia]. Primeiro, de maneira geral, o movimento feminista se desenvolveu antes da guerra. Mas, como sabemos, a Primeira Guerra foi a primeira guerra total, a ter mobilizado não somente militares, mas o conjunto das sociedades.

Era preciso continuar vivendo enquanto os homens faziam a guerra, e então, as mulheres se mobilizaram e passaram a exercer toda uma série de profissões que não exerciam antes. A guerra, de uma certa maneira, favoreceu essa integração profissional das mulheres.

Depois, acho que o surgimento das primeiras organizações internacionais, a Sociedade das Nações, a Organização Internacional do Trabalho, que fomentaram a integração das mulheres [no mundo do trabalho], principalmente no serviço público internacional, porque a Sociedade das Nações impõe a contratação paritária. Foi realmente uma revolução, em termos históricos.

Houve evoluções ligadas à militância feminista, mas, quando falamos  dos Estados, o movimento é extremamente lento, por ser um meio muito conservador e por ter havido uma resistência muito forte. Os casos de mulheres diplomatas, de embaixadoras nos anos 1920 e 1930, são extremamente raros.

A que tipo de resistência você se refere exatamente?

Laurence Badel De uma resistência vinda dos colegas, seja por exemplo dos diretores de recursos humanos, que aprovam regulamentos que as impedem de ter certas responsabilidades, ou uma resistência sexista como ocorreu no caso da primeira embaixadora americana, nomeada [pelo ex-presidente dos Estados Unidos] Franklin Roosevelt, nos anos 1930.

Ele a nomeou para a embaixada da Dinamarca, um país escandinavo, e nas reações dos jornalistas encontramos comentários extremamente sexistas a respeito, que diziam que ele a havia nomeado para a Dinamarca por se tratar de uma nação doméstica frugal, adequada para as mulheres. Esse era o tipo de preconceito que se manifestava.

Por que levou tanto tempo para que isso começasse a mudar?

Laurence Badel O meio diplomático é extremamente conservador. E é preciso refletir sobre a questão de maneira mais geral, sobre a lentidão da democratização do corpo diplomático.

É uma questão que permanece muito válida ainda hoje, já que continuamos a lutar para que as mulheres estejam na cena internacional e, da mesma maneira, para que as minorias étnicas também passem a integrá-la, democratizando verdadeiramente os corpos diplomáticos ao permitir que indivíduos – homens e mulheres – de minorias étnicas representem o Estado.

Foi preciso esperar até o fim do século 20 para que medidas afirmativas fossem implementadas, tanto para minorias raciais quanto para as mulheres

Claramente, em muitos Estados, a segregação [na diplomacia] também é racial. No começo do século 20, também passam a haver exemplos de representantes negros, nos Estados Unidos, mas são casos extremamente raros.

Foi preciso esperar até o fim do século 20 para que medidas afirmativas fossem implementadas, tanto para minorias raciais quanto para as mulheres. Somente há cerca de duas décadas as coisas começaram a avançar de verdade.

Mas a questão das cotas [nos concursos de diplomacia], não é óbvia. Na França, desde 2012, há uma lei que exige paridade [entre mulheres e homens] e não apenas na carreira diplomática. 

Três anos depois, o “Quai d’Orsay” [apelido do Ministério das Relações Exteriores da França] foi obrigado a pagar uma multa, porque não se conseguiu preencher todas as vagas femininas [de diplomata]. Esse é o limite da política de cotas.

Esse grupo de candidatas não existe ainda. Em 2012 e 2014, nos primeiros anos [das cotas] contrataram-se mulheres jovens para o cargo, mas agora estão em falta. A política de cotas [na diplomacia] acelera o processo, mas é preciso fomentar os estudos das mulheres, permitir que elas se preparem para esse tipo de carreira.

Na sua visão, o que a diplomacia mundial poderia ganhar com a participação de mais mulheres?

Laurence Badel Esta é uma pergunta que eu não gostaria de responder, justamente, de uma maneira sexista. Eu poderia dizer que a diplomacia teria a ganhar porque incorporaria valores ou comportamentos femininos. Não creio necessariamente nisso.

Também se poderia imaginar que, com o diálogo profissional entre homens e mulheres, a prática profissional evolui.

Mas acho que as sociedades têm a ganhar simplesmente ao fazer as pessoas trabalharem em conjunto, e não vejo por que excluir partes, segmentos da sociedade. 

A partir do momento em que um indivíduo tem talento para negociar, para pesquisar informações, para trabalhar na prevenção de conflitos, não vejo por que excluí-lo. E não acho que as mulheres sejam mais talentosas que os homens ou que eles sejam mais talentosos que as mulheres para esse tipo de prática. 

São estereótipos que continuam fortes, mesmo entre as mulheres.

Eu analisei a evolução das carreiras e das nomeações em administrações nacionais e em organizações internacionais, e o que se verifica é que durante 50, 60 anos, elas ficaram concentradas em cargos culturais, humanitários e sociais.

Foi a partir dos anos 1990 que as vemos chegar às funções econômicas, de maneira realmente maioritária, como Christine Lagarde, que dirige o FMI [Fundo Monetário Internacional].  

Na França, muito recentemente, uma diplomata chamada Helène Duchêne foi nomeada como representante permanente do país na OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. Isso é extremamente raro.

Da mesma maneira, há muito poucas mulheres que chegam à função de representante permanente de seu Estado em Nova York, nas Nações Unidas. A França nunca nomeou uma mulher para esse posto. Creio que o Brasil nomeou sua primeira representante na ONU em 2007.

A nomeação de mulheres para grandes embaixadas também é muito recente na França, passou a acontecer na década de 2010.

Há uma diplomata chamada Sylvie Bermann que está fazendo uma linda carreira: foi nomeada embaixadora da França em Pequim, em Londres e Moscou. É uma carreira realmente excepcional. Acho que quando um historiador olhar para os debates ocorridos nessas nomeações, encontrará coisas interessantes.

Elas falam sobre a situação das mulheres na diplomacia?

Laurence Badel Sim. Como no Brasil, existe na França uma associação de mulheres diplomatas, creio que há cerca de uma década. O que é interessante é que elas criaram uma rede, junto com mulheres diplomatas de outros Estados.

Ou seja, sabe-se que há trocas entre essas mulheres. Na França, especificamente, Nathalie Loiseau, que é a atual ministra da Europa e das Relações Exteriores da França e que foi responsável pela administração central do Ministério das Relações Exteriores, é muito militante nesse assunto.

Ela incita as mulheres de maneira geral a se afirmarem no meio profissional. Há cada vez mais mulheres jovens no “Quai d’Orsay”, mas é preciso formá-las, contratá-las, é preciso haver também um comitê de seleção paritário.

É possível que a atual onda de extrema direita no mundo faça retroceder os avanços conquistados pelas mulheres nesse âmbito?

Laurence Badel É certo que há esse discurso muito conservador que tende a querer fazer as mulheres retornarem para dentro de casa, inclusive em certos países da Europa.

Grandes desigualdades subsistem ao redor do mundo, mas o nível médio de educação das mulheres é consideravelmente elevado, há uma consciência de que é preciso educar as meninas e jovens

A dificuldade [para as mulheres] poderia vir principalmente do retrocesso da legislação social, porque se elas não tiverem creches, por exemplo, cria-se um problema para que elas possam exercer a profissão.

Mas eu continuo relativamente otimista. Acredito ser um movimento irreversível. Ao redor do mundo grandes desigualdades subsistem, mas o nível médio de educação das mulheres é consideravelmente elevado, há uma consciência de que é preciso educar as meninas e jovens.

Penso também que esse é um aspecto positivo das redes sociais, das novas tecnologias de informação e comunicação: os paradigmas circulam mais rápido. Apesar de tudo, sabemos que há um efeito cascata: não vejo as mulheres renunciando às conquistas que são delas. Acho que também a maioria dos homens deseja continuar trabalhando com mulheres.

Assim, não tenho inquietações específicas quanto a isso. Posso ter inquietações conjunturais fortes, mas não acho que iremos retroceder.

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