Como a ditadura sequestrava crianças, segundo este autor

Em livro, jornalista Eduardo Reina relata 19 casos de abduções de bebês e crianças atribuídas a militares brasileiros nos anos 1960 e 1970

 

O sequestro de bebês e de crianças por membros de ditaduras militares é uma prática bem documentada em países como a Argentina, mas pouco se sabia sobre ocorrências semelhantes no Brasil.

No país vizinho, durante os anos 1960 e 1970, filhos de dissidentes políticos presos, torturados e desaparecidos foram levados por militares e criados muitas vezes ao longo de décadas por famílias argentinas sem que pudessem conhecer a própria história. Pelo menos 500 crianças argentinas foram vítimas desse crime.

No Brasil, o jornalista e escritor Eduardo Reina lança na terça-feira (2) o livro reportagem “Cativeiro Sem Fim”, no qual relata 19 casos de crianças sequestradas durante a ditadura militar (1964-1985), pesquisados ao longo de 20 anos de trabalho com o assunto.

Dos 19 casos, 11 envolvem membros da Guerrilha do Araguaia, além de moradores da região (na Amazônia), na qual esteve concentrado um dos maiores focos de resistência armada à ditadura. O restante dos casos relatados por Reina ocorreram nos estados de Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná.

 

O autor diz acreditar que seu livro traz informações que permitiriam a responsabilização judicial dos militares envolvidos nos sequestros, pois os crimes, segundo ele, não se enquadram na Lei de Anistia. Em alguns casos, Reina identifica militares envolvidos pelo nome e sobrenome. Ele também apresenta certidões de nascimento que trazem os nomes dos pais adotivos, sem registro dos nomes dos pais biológicos e sem os trâmites necessários para adoção de crianças no Brasil.

O lançamento do livro – seguido por um debate na USP da Rua Maria Antônia, marco dos protestos estudantis contra a ditadura militar no centro de São Paulo – ocorre uma semana depois de o presidente Jair Bolsonaro ter determinado que haja “comemorações devidas” ao golpe de 1964, que deu origem aos 21 anos de ditadura militar no Brasil.

O Nexo conversou com Reina por telefone na terça-feira (26). O autor disse que nunca teve qualquer resposta do Estado brasileiro, incluindo as Forças Armadas, sobre os casos de sequestro documentados por ele.

Como o sr. chegou aos 19 casos que são relatados no livro?

Eduardo Reina  Eu cheguei a esses 19 casos por um misto de pessoas que me procuraram e de pessoas que eu encontrei ou às quais fui apresentado na região do Araguaia. Eu li cerca de 150 livros nos dois últimos anos. São livros escritos por historiadores, por jornalistas, pesquisadores, são livros de memória e principalmente livros escritos por militares, que, com entrelinhas, com alguma informação truncada, acabaram ajudando a construir esse enorme quebra-cabeças, que é a procura por casos reais de bebês e de crianças sequestradas pelos militares no Brasil.

Eu achei cinco vítimas diretas. Além delas, há histórias que conto por meio de relatos de parentes, documentos e outras fontes. Não é possível dizer quantos dos 19 estão vivos ainda hoje, porque tem pessoas desaparecidas. Um exemplo é o do filho do Osvaldão, apelido de Osvaldo Orlando da Costa, que foi um dos líderes da Guerrilha do Araguaia. Giovani, filho dele com uma moradora local chamada Maria Viana da Conceição, foi sequestrado e desapareceu. Nunca consegui encontrar o paradeiro dele. Dizem que ele estaria no Rio de Janeiro, mas eu não consegui achar.

Todos esses 19 casos ocorreram entre a segunda metade da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970. A maioria era criança à época. O Giovani tinha apenas 4 anos, mas havia também crianças como o Juracy, de 8 anos. Miracy, irmão de Juracy, que foi levado com 4 anos. E a Ieda, irmã do Giovani, tinha 8 anos também.

Seis filhos de camponeses do Araguaia foram levados mais crescidos, quando pré-adolescentes e adolescentes. Esses foram levados para quartéis em Belém do Pará, em Altamira, no Rio de Janeiro, em Goiás, e ficaram nesses locais por um bom tempo. Passaram por uma lavagem cerebral, foram cooptados.

Por que esse tipo de crime ocorreu nas ditaduras latino-americanas? Há uma razão para isso? É algo que ocorreu em outras regiões do mundo também?

Eduardo Reina Isso aconteceu bastante também na Espanha [durante a Guerra Civil, de 1936 a 1939], aconteceu em países do Caribe e da América Central [como Honduras, Nicarágua e El Salvador, nos anos 1960, 1970 e 1980] e aconteceu muito aqui na América do Sul. Na Argentina, 500 crianças, filhas de militantes políticos, foram sequestradas. Houve sequestro também no Chile, no Uruguai, no Paraguai, na Bolívia e agora, com essa denúncia, mostramos que a ditadura no Brasil fez isso também.

O objetivo desses sequestros era bem claro. Queriam mostrar quem mandava. As crianças funcionavam como um botim de guerra, eram um prêmio. No Araguaia, havia inclusive prioridade de captura, tanto dos guerrilheiros, de acordo com a posição deles dentro da guerrilha, quanto para os filhos deles também.

Algo mudou depois que as histórias vieram à tona? Na Argentina, muitos sequestrados encontraram seus pais biológicos. Como está sendo isso no Brasil?

Eduardo Reina  Aqui no Brasil, ainda é muito incipiente. A divulgação dos casos começou há pouco tempo. O livro apresenta 19 casos. Entre 19 e 26 de março, já fui procurado por 14 outras pessoas. Não significa que sejam 14 novos casos. Significa que são casos que terão de ser investigados, checados. É preciso procurar essas pessoas, confrontar informações, fazer entrevistas, enfim, é um trabalho longo. Mas, de repente, se forem verdade, já esses 14 novos casos já representam 50% a mais do que o meu livro está mostrando.

O sr. acredita que ainda existam muitos documentos sobre violações de direitos humanos em poder de militares no Brasil?

Eduardo Reina  Eu não digo que existam documentos que mostrem isso porque muitos livros de história e textos de pesquisadores e de jornalistas já mostraram que boa parte dos documentos da ditadura foram destruídos, foram queimados. Mas que existem casos desconhecidos de violações de direitos humanos pela ditadura brasileira, existem.

Na própria região do Araguaia existem. Precisa ser muito bem contado e muito esclarecido tudo o que aconteceu com os índios aiqueuaras, por exemplo. Eles foram usados pelos militares para caçar os guerrilheiros. O povo deles foi movido de uma lado para outro, para que pudesse ser aberta uma estrada operacional que permitisse um cerco aos guerrilheiros.

É preciso também buscar e mostrar a situação das mulheres. Quando chegou o período de extermínio no Araguaia, a maioria dos homens de todos os vilarejos da região foram presos. As mulheres ficaram sozinhas com as crianças numa região que ainda hoje é bastante inóspita, é um outro Brasil, bastante cruel. Essas mulheres dependem muito dos homens para a sobrevivência diária. Elas ficaram um bom período sem contato com os maridos. É preciso contar a história delas.

O presidente Jair Bolsonaro autorizou a celebração do golpe de 1964 nas repartições militares. Como você vê uma decisão como essa?

Eduardo Reina  Isso era esperado. Quando Bolsonaro era parlamentar, fez ode a um torturador que torturou e matou muita gente aqui no Brasil [quando deputado, Bolsonaro homenageou no plenário da Câmara dos Deputados o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado por testemunhas e pela Justiça como responsável pela tortura de presos políticos em órgãos de repressão da ditadura em São Paulo]. Não me surpreende uma situação dessas.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: