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O que é ser pai nos dias de hoje, segundo esta pesquisadora

Espécie humana não teria prosperado sem a figura paterna, afirma antropóloga inglesa. Seu trabalho investiga a evolução do pai ao longo da história e os desafios que se colocam atualmente

 

A licença-paternidade existente no Brasil, de cinco dias, é considerada curta demais por muitos pais e mães. Mas o país ainda se sai um pouco melhor do que 92 outros pelo mundo, onde não há possibilidade de um pai se ausentar do trabalho para estar ao lado do filho recém-nascido sem ter o salário descontado.

Entre as nações sem licença estão gigantes como China, Estados Unidos e Índia. Quase dois terços das crianças de até um ano de idade, um total de 90 milhões, moram em países sem esse tipo de legislação, segundo dados do World Policy Center.

Segundo uma contagem de 2018, há dezenas de projetos em tramitação na Câmara dos Deputados que propõem a ampliação do benefício no Brasil. Dependendo do projeto, o aumento sugerido é para 15, 20, 30 ou 44 dias. Desde 2016, funcionários públicos federais contam com licença-paternidade de 15 dias.

Para a antropóloga inglesa Anna Machin, a sociedade tem muito a se beneficiar permitindo que pais fiquem mais tempo em casa com seus filhos. Uma dessas vantagens seria uma potencial redução do desequilíbrio de gênero no cotidiano doméstico.

“Sabemos que os filhos que foram criados por pais em licença compartilhada seguem o modelo do pai, ou seja, são mais envolvidos no ambiente doméstico. Isso leva a mais igualdade entre os sexos no trabalho doméstico e nos cuidados com as crianças. Nunca veremos igualdade entre os sexos a menos que vejamos igualdade em todas as esferas da vida e isso signifique trabalho e parentalidade”, defende Machin, que pesquisa neurociência evolucionária e social na Universidade de Oxford.

Diante da ausência de literatura sobre a experiência da paternidade do ponto de vista do pai, a pesquisadora decidiu investigar a evolução e a importância da figura paterna na espécie humana

Uma licença-paternidade estendida é um ponto importante do atual debate sobre família e a atuação do pai nos dias de hoje. Está relacionada com a ideia da "paternidade ativa", do pai envolvido e compartilhando tarefas e cuidados da criação dos filhos, destoante do antigo modelo do pai distante "que põe comida na mesa", mas não contribui nos afazeres domésticos.

Essa discussão está no último capítulo de “The Life of Dad: The Making of a Modern Father” (Vida de pai: a construção do pai moderno, em tradução livre), de Machin, lançado na Inglaterra, em 2018. A ideia do livro surgiu quando a autora percebeu que o marido, e pai de seus dois filhos, estava tendo dificuldades em superar o trauma do complicado nascimento da primeira filha. Diante da ausência de literatura sobre a experiência da paternidade do ponto de vista do pai, a pesquisadora decidiu investigar a evolução e a importância da figura paterna na espécie humana.

Segundo sua pesquisa, a presença do pai na formação dos desenvolvimentos é uma característica que nos diferencia de outras espécies de primatas. Não só isso: Machin defende que sem a existência de pais para apoiar mães de bebês que chegavam ao mundo ainda muito dependentes, diferentemente de outras espécies cuja prole nasce mais autônoma, humanos teriam tido dificuldades em vingar.

“Com quem mães poderiam contar na ajuda com filhos energéticos quando precisavam focar seus esforços nas cansativas necessidades dos indefesos recém-nascidos? Como poderiam criar seus filhos até a independência, mas ainda reproduzir o bastante para repor e expandir a espécie?”, pergunta a autora.

 

Por muito tempo, essa ajuda veio de irmãs, tias ou avós. Mas, com o tempo, o pai se provaria fundamental no contexto da criação, caçando animais, cozinhando vegetais, ensinando técnicas de fabricação de ferramentas, defesa e caça, além de habilidades sociais para convivência e cooperação em grupo.

Apesar deste papel importante, a pesquisadora acredita que pouco se entende sobre o pai. Ela exemplifica essa lacuna com a questão da depressão pós-parto masculina, pouco reconhecida e para a qual sequer existe método específico de avaliação. Ela conversou com o Nexo sobre este e outros temas abordados em sua pesquisa.

O comportamento dos pais humanos é determinado pela biologia ou pela cultura? De que maneiras?

Anna Machin Ele sofre impacto de ambos. Em termos de biologia, a paternidade de um homem é influenciada por alterações hormonais e mudanças cerebrais. Sabemos que quanto menor a testosterona de um homem, o mais sensível ele é como pai e quando você se torna pai pela primeira vez, sua testosterona cai e nunca mais retorna aos níveis de antes de ser pai. Isso é crítico para o bebê e a família, porque, embora testosterona alta seja um benefício real ao competir por parceiros, é negativa quando você precisa passar do acasalamento para a paternidade. A queda na testosterona desloca sua atenção do mundo exterior para sua família e faz de você um pai mais sensível. Além disso, essa queda na testosterona significa que os efeitos que a dopamina, um hormônio de recompensa, e a ocitocina, um dos hormônios de conexão, têm sobre o homem aumentam. Isso significa que um homem acha que interagir com seu filho é realmente positivo e cria conexões. Em termos do cérebro, vemos aumentos na massa cinzenta e branca em áreas ligadas à parentalidade. Portanto, áreas ligadas ao cuidado e à detecção de riscos, mas também à empatia, planejamento e solução de problemas. Então, um homem é tão biologicamente preparado para ser pai quanto uma mulher.

Em termos de cultura, o principal impacto que isso tem é sobre o papel do pai e também sobre quem realmente é o pai. Em muitos países, o pai não é necessariamente o pai biológico, mas é um pai "social"; talvez um tio, avô, amigo ou irmão mais velho. Em algumas culturas, a criança pode ter toda uma equipe de pais, como na África do Sul contemporânea ou entre o povo Aché, do Paraguai. A paternidade é tão diversa ao redor do mundo porque reage muito ao contexto. Pode-se argumentar que o pai consegue reagir a mudanças no ambiente mais rapidamente do que a mãe, limitada pela gravidez e amamentação. Enquanto, no fundo, todos os pais preenchem o mesmo papel, proteger e ensinar seus filhos, como fazem isso depende do ambiente político e econômico em que eles existem e dos reais riscos à vida. Então, os Aché não se envolvem tanto mas é porque é um ambiente fisicamente perigoso, então eles devem proteger a vida de seus filhos. Enquanto aqui no Ocidente não temos de fazer isso, mas temos de ensinar nossos filhos a navegar em nossos complexos mundos social e tecnológico.

No Brasil, apenas 42% das famílias se encaixam no modelo tradicional (mãe, pai, dois filhos) e em muitos países os arranjos não convencionais são mais comuns do que antes. Às vezes, não há um pai ou há duas mães ou dois pais. Como sua pesquisa lidou com a diversidade?

Anna Machin Adotando uma visão global que deixa muito claro que não existe uma família "normal". As famílias são extremamente diversas e, mais uma vez, podem consistir de um dos pais, dois pais de pessoas diferentes ou do mesmo sexo e até mesmo muitos pais. Meu foco eram os pais, então eu olhei para famílias que eram heterossexuais e gays, além de abordar pais sociais e adotivos. A mensagem do livro é que "pai" não é definido pelos genes, e sim por quem dá um passo à frente e realiza o trabalho. E essa família vem em muitas formas diferentes. Não é quem está na família, mas como esse grupo de pessoas forma a comunidade na qual a criança é cuidada e cresce.

 

Você falou com pais de muitos países e estilos de vida diferentes. Que características de seu comportamento são mais compartilhadas?

Anna Machin A característica mais comum encontrada é que todos os pais são motivados a ensinar seus filhos e estimular seu desenvolvimento de modo a que se tornem adultos fortes e competentes, com a resiliência necessária. Assim, todos os pais ensinam a seus filhos as principais habilidades práticas, psicológicas e comportamentais para sobreviver em seu ambiente. Todos estão muito preocupados em apoiar a entrada de seus filhos no mundo mais amplo, então ensinar habilidades sociais e fortalecer sua resistência mental e física para que possam lidar com os desafios da vida é particularmente importante.

O pai que troca fralda, ativamente cuidando e criando o filho, tornou-se bem mais comum em países ocidentais. Antes, esse era basicamente o território da mãe. O que está por trás da mudança?

Anna Machin São várias razões. Primeiro, poucas pessoas hoje moram perto da sua família estendida, que, no passado, teria ajudado a mãe com o bebê. Então o pai teve que vir dar apoio prático. Segundo, internações hospitalares após o nascimento foram muito reduzidas, de modo que o pai muitas vezes precisa ajudar a cuidar do bebê quando, no passado, a equipe do hospital teria assumido esse papel. Terceiro, a situação econômica é tal que as famílias agora precisam que ambos os pais ganhem dinheiro, o que significa que as mulheres não ficam mais em casa sendo mães em tempo integral. Assim, os pais estão tendo que compartilhar as tarefas de apoiar economicamente a família e cuidar dos filhos. E, finalmente, à medida que descobrimos mais e mais sobre como os pais são biologicamente e psicologicamente preparados para essa função e sobre como são importantes para o desenvolvimento de seus filhos, acho que os homens estão ativamente escolhendo se envolver mais. E quando o são percebem o quão incrivelmente gratificante (graças em parte à dopamina!) é ser pai

Quais foram seus resultados em relação à depressão em novos pais? Você diria que é uma questão negligenciada?

Anna Machin Assim como meus colegas ao redor do mundo, todos nós identificamos membros de nossos grupos de estudo que sofreram depressão após o nascimento. Em meu primeiro estudo com 15 homens, um deles apresentou depressão pós-parto grave, enquanto outro apresentou depressão moderada. Agrupando nossos resultados, acreditamos que a DPP ocorra a uma taxa de cerca de 10% entre a população de pais, em comparação a 14% nas mães. É algo incrivelmente negligenciado. Muitos membros da comunidade médica ainda não sabem ou reconhecem que ela existe e não há programas de apoio ou triagem como os que existem para as mães. Não há sequer uma ferramenta de diagnóstico separada, o que é um problema porque a DPP do sexo masculino apresenta sintomas diferentes da do feminino. Talvez consideramos difícil apoiar os homens porque a cultura predominante é pensar que as mulheres fazem todo o trabalho da gravidez e do parto, então por que um homem seria afetado? Mas agora sabemos que os homens passam por mudanças hormonais e psicológicas também e a paternidade vem com sua própria demanda de equilibrar muitas necessidades conflitantes, tais como trabalho e vida doméstica, fazendo com que homens sejam tão suscetíveis quanto as mulheres.

A sociedade e as famílias ganhariam com uma licença-paternidade mais longa ou compartilhada?

Anna Machin Absolutamente. Sabemos que pais desempenham um papel único dentro da família e no desenvolvimento de seus filhos, de forma que quanto mais eles puderem estar envolvidos, melhor. Além disso, se deixarmos os homens partilharem a licença parental, isso quer dizer que as mulheres poderão regressar ao trabalho mais cedo, o que significa que elas poderão ser menos penalizadas na carreira por terem tido filhos, levando a uma redução na disparidade salarial entre homens e mulheres. Além disso, sabemos que os filhos que foram criados por pais em licença compartilhada seguem o modelo do pai, ou seja, são mais envolvidos no ambiente doméstico. Isso leva a mais igualdade entre os sexos no trabalho doméstico e nos cuidados com as crianças. Nunca veremos igualdade entre os sexos a menos que vejamos igualdade em todas as esferas da vida e isso signifique trabalho e parentalidade.

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