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As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade

Para Bernardo Tanis, atentados como o de Suzano podem abalar a confiança no coletivo e abrir uma brecha explorada por extremistas, provocando mais atos de violência

 

Ataques em massa como o ocorrido em duas mesquitas na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, na sexta-feira (15), ou como o ocorrido na escola estadual Raul Brasil, na cidade de Suzano, na região metropolitana de São Paulo, na quarta-feira (13), deixam marcas nos sobreviventes, nas famílias e, também, em toda a comunidade.

“Além da tristeza, também sinto muita raiva porque a comunidade tem de lidar não apenas com as consequências de curto prazo, mas de longo prazo”, disse a americana Heather Martin ao portal UOL, referindo-se a Suzano. Ela é sobrevivente do massacre de Columbine, nos EUA, em 1999.

“Esta [tragédia] gera uma marca indelével que essas pessoas vão carregar consigo a vida toda”, afirmou o psicólogo e psicanalista Bernardo Tanis, nesta entrevista ao Nexo. Na análise de Tanis, as comunidades têm um longo caminho de reconstrução após atentados desse tipo, o que envolve acompanhamento psicológico e análise crítica dos acontecimentos. “Mais trabalho de pensamento, menos cultura do espetáculo e da catástrofe que prima pelo impacto da imagem”, define.

Autor de “Circuitos da solidão. Entre a clínica e a cultura” e atual presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Tanis considera que esses ataques podem provocar traumas para a sociedade como um todo.

“O luto deve ser uma ação coletiva: a sociedade precisa digerir o que aconteceu, elaborar alternativas e se reerguer coletivamente, por exemplo, com o trabalho de psicólogos e educadores conversando com estudantes, as famílias e os amigos de Suzano - e nas escolas do país inteiro. Isto diz respeito ao Brasil: precisamos reconstruir o mínimo de confiança no coletivo. A ausência desse elo é muitas vezes explorada por extremistas”, analisa nesta entrevista ao Nexo.

Nos EUA, estima-se que 28% de testemunhas de massacres sofrem de transtorno de estresse pós-traumático. No Brasil, psiquiatras e psicólogos estão a caminho de Suzano (SP), para atender sobreviventes, familiares e amigos das vítimas do atentado desta semana. Qual é a importância deste acompanhamento?

BERNARDO TANIS Antes de tudo, devo dizer que o que aconteceu foi uma tragédia, um horror inimaginável. Gera uma marca indelével que essas pessoas vão carregar consigo ao longo da vida. Neste momento, todos os envolvidos, cada qual dentro de seu contexto, ainda estão sob o impacto do inesperado, do terrível. Um atendimento imediato é fundamental, pois essas pessoas estão enfrentando um sofrimento que se manifesta de diferentes formas e terá múltiplos desdobramentos.

O primeiro é a perplexidade. Nós nos sentimos paralisados, impotentes, desnorteados. Sem rumo. É importante, portanto, ter alguém a seu lado, uma presença solidária e empática, que tente compreender essa perplexidade que vai se transformando em dor e em profunda tristeza. Este é um trauma de tamanha intensidade, tão avassalador, que às vezes não se sente a dor de imediato, como se fosse muito difícil dar conta da realidade do acontecido.

O segundo momento é o do luto propriamente dito, no qual a perda terá que ser processada e vivenciada. Este luto se dá em diferentes dimensões. Há a perda da morte de um amigo, do colega de escola ou de um filho, uma dor irreparável. Mas há também a perda da ilusão de viver em um mundo em que a vida humana é respeitada. Perde-se o sentimento de segurança mínima de ir à escola, perde-se a confiança de que as instituições e o Estado podem proteger a sociedade. Quem pode me proteger, afinal? O jovem sente-se desprotegido e a sociedade desamparada, e fica-se suscetível a explicações e sugestões que chegam a ser ridículas, como a de que essas tragédias seriam evitáveis se os professores andassem armados, por exemplo. Diante da perplexidade surgem as respostas mais descabidas, porque não conseguimos compreender o que está acontecendo à nossa volta.

Podemos traçar um paralelo com Brumadinho, que foi uma catástrofe social, isto é, indiretamente provocada pelo homem. Você se depara com a expressão do desamparo: as instituições e o Estado que deveriam te proteger, te deixam vulnerável. Inconscientemente, você é tomado por vulnerabilidade e impotência. Você perdeu um amigo ou um filho e, ao mesmo tempo, perdeu a confiança nos recursos da sociedade e nas instituições que deveriam zelar pelo cidadão.

Durante o luto, essas duas dimensões precisarão ser reconstruídas. E o luto deve ser uma ação coletiva: a sociedade precisa digerir o que aconteceu, elaborar alternativas e se reerguer coletivamente, por exemplo, com o trabalho de psicólogos e educadores conversando com estudantes, as famílias e os amigos não só de Suzano ou Brumadinho, mas do país inteiro. Isto diz respeito ao Brasil: precisamos reconstruir o mínimo de confiança no coletivo. A ausência desse elo, desse sentimento de comunidade, é muitas vezes explorada por extremistas e oportunistas. No Brasil, vivemos um fenômeno de violência que alude a um esgarçamento do compromisso social e, no limite, do pacto civilizatório. Talvez nunca tenhamos firmado propriamente esse pacto.

Que efeito a exposição excessiva de imagens de atentados pode provocar, inclusive para quem não conhece pessoalmente as vítimas?

BERNARDO TANIS As mídias sociais assumiram um papel de proporções enormes na atualidade, com poder, inclusive, de eleger presidentes mundo afora. Qual é o intuito de divulgar essas imagens, seja nas mídias sociais, ou na TV? Às vezes o ser humano tem um sentimento mórbido de atração pela catástrofe. Eu diria que é muito mais construtivo pensar em “espaços de reflexão”, e não em “espaços de exibição” desses episódios. Sim, foram acontecimentos impactantes, marcantes, mas de que adianta ficar reproduzindo essas imagens? Podemos pensar, por exemplo, em discussões sobre esses fenômenos de violência, extremamente complexos, dentro de espaços abertos ao diálogo: as escolas, os bairros, os blogs na imprensa. Penso que vale trabalhar mais o pensamento, a leitura crítica, a análise que pode ajudar as pessoas, e menos uma cultura do espetáculo e da catástrofe que prima pelo impacto da imagem mas que não contribui para um movimento solidário, para restauração da cidadania e da confiança.

Após o incêndio na boate Kiss, em 2012, a cidade gaúcha de Santa Maria vive impactos até hoje, com diversos casos de depressão e suicídio. Fenômeno similar aconteceu na capital argentina, Buenos Aires, após o incêndio na discoteca República Cromañón, em 2004 - 18 sobreviventes se suicidaram. Como uma cidade pode lidar com marcas traumáticas de uma tragédia?

BERNARDO TANIS Esta é uma questão muito interessante, pois as cidades lidam de diferentes formas com essas marcas. Visitei há pouco tempo o Museu de Memória e Tolerância, no México, que trata do holocausto e outros massacres na história, como Kosovo e Sudão. Na Alemanha, há diversos lugares de memória. No Chile, há um museu importante sobre o período e efeitos da ditadura militar. Em Portugal, sobre a ditadura de Salazar. É importante que uma sociedade enterre seus mortos, elabore seus lutos, seus crimes, sua fragilidade e assuma a responsabilidade pelos seus atos.

Cito esses exemplos porque é importante cultivar a memória, o que não quer dizer ficar melancolicamente preso ao passado. Ao contrário, trata-se de reconhecer o passado para impedir que experiências similares se repitam no futuro. Não adianta armar uma cidade como Suzano dizer ‘agora estamos seguros’. Assim como não adianta dar dinheiro apenas a algumas famílias de Brumadinho e dizer ‘agora vamos esquecer’. Precisamos discutir o que aconteceu.

O processo de luto envolve discutir o que aconteceu, o que inclui iniciativas para lembrar e homenagear os afetados, as famílias que perderam seus parentes ou suas casas, mas também para discutir a violência nas escolas e o acesso a armas. As pessoas só vão conseguir reconstruir a cidade quando tiver um trabalho de reconhecimento da fatalidade. No Brasil, diferentemente de outras culturas e outros países, nós muitas vezes apagamos a memória. Mas, para termos o mínimo de uma projeção para o futuro, não podemos esquecer o passado.

O que o atentado de Suzano diz sobre nós enquanto país?

BERNARDO TANIS O psicanalista paulista Fabio Herrmann (1944-2006) escreveu um trabalho importante sobre o que se denomina um ‘regime de atentado’. A ideia surgiu na década de 1990, após uma tentativa de atentado ao Papa, mas diz muito sobre o contexto atual: vivemos em um mundo globalizado onde o indivíduo teve sua importância cada vez mais diminuída. Os indivíduos, as instituições, os Estados nacionais têm cada vez menos relevância diante das grandes corporações. Isso gera um novo estado de subjetividade humana, no qual o sentimento inconsciente de impotência cresce. É a impotência diante do mundo e de transforma-lo, algo como ‘o sonho acabou’.

Frente a isso, surgem respostas. Alguns indivíduos podem pensar: ‘para que eu tenha valor, para que eu me sinta vivo e existente, eu preciso produzir algo de impacto’. Surgem performances e invenções que não necessariamente são ruins. Muitas delas, porém, são logo absorvidas pelo mercado e viram marca e, assim, novamente minha individualidade se perde. Dessas humilhações narcísicas, pode surgir um tipo de desejo vingador e justiceiro: ‘agora vou mostrar minha potência, mesmo que isso custe minha vida’. Isso pode levar a atos impensados, que às vezes se dão como uma psicose de ação, sem pensamento nem narrativa. O atirador que matou John Lennon (1940-1980) e os atiradores de Columbine, Realengo, Suzano lançaram suas ações pensando talvez: ‘vão lembrar de mim’.  É diferente de um atentado político que vem acompanhado por um discurso político (isto não o justifica, mas é diferente).

Obviamente, não é possível generalizar ou atribuir estes eventos a um grupo político ou um grupo social. Vivemos em um país onde há discriminação social, sim, e racial e religiosa. Bullying, infelizmente, sempre existiu. Situações humilhantes, infelizmente, sempre existiram no cotidiano, nas ruas e nos elevadores dos prédios que segregam uns e outros. Não é por isso que as pessoas saem atirando nos outros. O ‘regime de atentado’ se vê em indivíduos de personalidade mais frágil e mais propensa a ceder a essas pressões de violência. É preciso pensar essas questões no contexto amplo, o que inclui as configurações familiares e as relações sociais e econômicas. O que me leva a dizer que a educação nas escolas não deve ser mera transmissão de conhecimento para o vestibular, mas aprendizado para a cidadania, para se relacionar com a sociedade e com o mundo ao seu redor.

E como lidar com esses traumas? É possível superá-los?

BERNARDO TANIS A elaboração do luto, de caminhos e alternativas pode e deve ser coletiva mas, no fim, a trajetória é singular e individual. Em alguns casos, foram formadas associações de pais e professores para elaborar projetos para prevenir novos casos de tiroteios em escolas. Em outros, organizaram-se trabalhos comunitários, montaram-se memoriais ou exposições de arte, escreveram livros. É importante que as instituições e o Estado ofereçam recursos para se reconstruir o tecido psíquico e social: abertura de espaços públicos, acompanhamento de psicólogos, etc. Mas as condições de sublimação e de elaboração processo do luto são singulares. É preciso processar o ressentimento, o ódio, a dor. Para algumas pessoas, será quase impossível superar. Para outras, vai passar, transformando o sentimento dentro de si. Algumas vão perdoar; outras, não. Mas, para todas, é preciso tempo. Não há atalhos ou saídas simplistas.

 

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