Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Estudante da escola estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, após atentado a tiros que deixou oito mortos e dez feridos
 

 

Dois jovens abriram fogo na quarta-feira (13) na escola estadual Raul Brasil, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. O atentado, considerado o maior massacre dentro de uma escola no estado, acabou com dez pessoas mortas, incluindo os atiradores, que se suicidaram.

Os autores do atentado eram ex-alunos da escola. Foram identificados como Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos. Estavam mascarados e munidos de um revólver calibre 38, uma machadinha e uma besta, arma medieval de disparo de flecha.

Antes do atentado, exibiam fotos suas com armas em redes sociais e um deles chegou a dizer para um ex-aluno que gostaria de repetir o massacre de Columbine, cidade americana do estado de Colorado, onde tiros de uma dupla de estudantes fortemente armada deixaram 15 mortos, em 1999. A polícia investiga se a dupla brasileira planejou o ataque em fóruns extremistas na internet.

“A tragédia de Suzano traz uma violência visceral contra uma instituição simbólica: o lugar onde se estuda, onde se dialoga, onde se aprende”, disse o psicanalista Christian Dunker, professor livre docente do Instituto de Psicologia da USP, nesta entrevista ao Nexo.

“Temos, portanto, uma violência que se ancora num discurso disponível na cultura atual, um discurso que legitima a violência e que recentemente se mostrou vencedor na sociedade brasileira: as armas são a cura para todos os males, são a força maior a dar fim aos conflitos. Este é o fator que altera a equação”, afirmou. Confira os principais trechos da entrevista:

O atentado em Suzano não é o primeiro na história recente do Brasil. O sr. vê diferenças entre esses episódios e a violência cotidiana no país?

CHRISTIAN DUNKER Há diferenças, sim. Até a tragédia de Realengo, na zona oeste do Rio, em 2011, dizia-se que atentados e crimes “em massa” não aconteciam com tanta frequência no Brasil, apesar da violência cotidiana, apesar do armamento ilegal, apesar da cultura militar. Isto é, apesar dos pesares, não vivíamos esse tipo de episódio. A violência foi se infiltrando paulatinamente nas instituições onde antes não estava, por exemplo, as escolas. A partir daí, assistimos a uma escalada de assassinos em massa nessas esferas, portando uma simbologia nova: eles estão atacando as pessoas e o que essas pessoas representam. Seguem a lógica dos terroristas ao atirar um avião contra as Torres Gêmeas ou ao imaginar instalar uma bomba na Torre Eiffel.

Algo se alterou nessa equação, de tal forma que a tragédia desta manhã é substancialmente diferente da violência do cotidiano. A violência do cotidiano vai do desagravo verbal à repressão policial, passando por agressões a mulheres e minorias. A tragédia desta manhã, por outro lado, traz uma violência visceral contra uma instituição simbólica: o lugar onde se estuda, onde se dialoga, onde se aprende. Temos, portanto, uma violência que se ancora num discurso disponível na cultura atual, um discurso que legitima a violência e que recentemente se mostrou vencedor na sociedade brasileira: as armas são a cura para todos os males, são a força maior a dar fim aos conflitos. Este é o fator que altera a equação.

Diante de tiroteios em escolas e universidades, vem à tona uma série de argumentos diferentes para tentar compreendê-los: o acesso a armas, a cultura violenta de videogames e fóruns da internet, a existência de gangues nos colégios, os efeitos do bullying. Esses fatores contribuem para a compreensão do fenômeno?

CHRISTIAN DUNKER Em geral, os fatores estão combinados. Mas eu diria que, além desses elementos, há um fator que não podemos esquecer: a performance. Segundo os detalhes que já foram revelados na imprensa, os autores do atentado não parecem, até agora, ter um perfil psicótico ou delirante. Ao contrário, programaram as ações como um teatro, com armas medievais. Ao dizer que pretendiam repetir Columbine, inclusive, já denotam essa ideia de “encenar” e “exibir”, como se tudo não passasse de um jogo divertido, com um efeito amargo de realidade. Movidos, talvez, por um tipo de narcisismo, uma vontade de ser notado e “entrar para a história”.

Reitero: também a questão da performance indica uma mutação do discurso dominante sobre o que é a violência, e o que é a violência “aceitável”, “compreensível” ou “justificável” dentro da sociedade brasileira. Isso altera a nossa realidade psíquica. E essa mutação promete ser muito nefasta, carregando, inclusive, um sentimento de escalada: a violência vem aumentando, num ritmo acelerado e errático.

O que o alvo desses atentados simboliza?

CHRISTIAN DUNKER O que mais sensibiliza e indigna nesses atentados é gratuidade, isto é, a violência gratuita. Por outro lado, está havendo uma alteração importante no ponto de vista subjetivo e intersubjetivo sobre o que é a escola. Cada vez mais, esses espaços estão sendo vistos como lugares “tóxicos”. Por vários motivos, por exemplo: a escola era o último refúgio. Em uma sociedade em que se diz que os políticos são todos corruptos, que a imprensa é mentirosa, que a ciência é fake news, a escola também desmoronou. A escola agora também é um antro de corrupção, de doutrinação, de controle da mente dos outros. Também é parte de um complô internacional. É a expressão do efeito de indução delirante que está permeando a sociedade. Combinado a um discurso ascendente de carta branca para violência, temos um curto-circuito.

É possível evitar essas explosões de violência?

CHRISTIAN DUNKER Quando vivemos o acontecimento, imaginamos medidas pontuais para impedir que uma tragédia se repita: já vão dizer que é preciso instalar detectores de metal nas escolas, dispensar professores e contratar vigias, etc. Isso ignora que essas explosões são provocadas por uma série de fatores sistêmicos, parte de uma estrutura invisível e complexa: a ideia de que a violência é legítima.

Assim, o tratamento não pode ser punitivo, mas reeducativo. É preciso, portanto, uma mudança de discurso. Vão dizer que isso é muito vago, mas é justamente fechar os olhos para as discussões complexas e as contradições da sociedade humana que acaba varrendo essas questões de fundo para debaixo do tapete. Você se concentra tanto em confrontar inimigos imaginários, e não se dá conta de impasses reais.

Sempre pensamos que o momento que vivemos é o auge de tudo, inclusive da violência. Eu diria que o Brasil é violento, sim, e isso não deveria surpreender ninguém. O Brasil vive uma escalada de violência tangível, alavancada por um discurso. Não deveria surpreender ninguém, por exemplo, que no dia seguinte à prisão dos acusados de matar Marielle Franco, um crime histórico, simbólico, trágico, assistimos a um massacre brutal de estudantes. Entretanto, sempre nos surpreendemos. Quantos ainda precisam acontecer para compreendermos que é preciso mudar o discurso sobre a violência?

 

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