Ir direto ao conteúdo

Por que a música nos emociona, segundo a neurociência

Pesquisadora Patrícia Vanzella fala ao 'Nexo' sobre a importância científica e terapêutica de se entender o efeito de canções e ritmos no nosso cérebro

 

Existe uma pesquisa séria e cada vez mais aprofundada em torno de entender por que aquela música específica de 1991 provoca arrepios quando você a ouve. Ou por que somos tomados de melancolia durante uma audição de Joy Division ou de Maysa.

Estudar os efeitos da música no cérebro, segundo a pesquisadora brasileira Patrícia Vanzella, “é um pouco como estudar como o ser humano evoluiu e como ele funciona”. Segundo ela, que coordena o projeto Neurociência e Música da UFABC (Universidade Federal do ABC), a música atua como modelo bastante eficaz para a pesquisa de processos neurológicos pois “ela envolve uma série de funções mentais que a gente usa em outros domínios, como memória, atenção, planejamento motor e sincronização”.

O projeto Neurociência e Música foi instituído em 2015, dentro do Núcleo Interdisciplinar de Neurociência Aplicada da UFABC, sendo o único do gênero no país, segundo Vanzella. A iniciativa inclui atividades de ensino, de pesquisa e de extensão.

No exterior, esse campo de pesquisa também é relativamente recente. Antes, a possibilidade de analisar reações cerebrais era limitada ao estudo de pacientes com lesões causados por tumores ou um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Um rudimentar mapeamento podia ser obtido por meio de evidências fornecidas pela incapacidade de um paciente lesionado em realizar certas ações ou reagir a certos estímulos.

“A música  é uma coisa que a gente costuma pensar do ponto de vista das ciências humanas, como produto cultural. Mas o impulso de fazer música é universal, caracteriza o ser humano assim como a linguagem, o falar.”

Patrícia Vanzella

Coordenadora do projeto Neurociência e Música, da UFABC

Na década de 1990, a chegada de técnicas de neuroimagem, como a tomografia por emissão de pósitrons e a ressonância magnética, possibilitaram a observação do cérebro humano ativo, de pessoas normais e em grupos, o que permitiu a compilação de dados e estatísticas.

De lá para cá, pesquisas e conferências sobre o tema se multiplicaram. Em 2007, o músico e neurocientista canadense Daniel Levitin lançou “A Música no seu Cérebro”, um livro pioneiro sobre o assunto que entrou para a lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. No mesmo ano, o consagrado neurologista britânico Oliver Sacks publicou “Alucinações Musicais”, em que traz casos de pacientes que ilustram diferentes aspectos de como o cérebro processa a música.

A ampliação desse conhecimento tem sido promissora para o uso da música para fins terapêuticos, da reabilitação neurológica de certos casos de demência e doença de Parkinson à melhoria de limitações cognitivas, motoras e sociais em crianças com dislexia ou autismo.

Pianista desde os 6 anos de idade, formada em música, Vanzella se fascinou com a neurociência musical ao ler um artigo sobre o chamado “ouvido absoluto” (a capacidade de distinguir a nota de qualquer som com exatidão). Ela falou ao Nexo sobre seu trabalho e diferentes efeitos neurológicos da música.

Por que é importante estudar a maneira como nosso cérebro reage à música?

Patrícia Vanzella A música serve como modelo bastante interessante para entender como funciona o cérebro porque ela envolve uma série de funções mentais que a gente usa em outros domínios, como memória, atenção, planejamento motor e sincronização que não são exclusivas da música. Então, a gente está estudando todas essas funções através de um aspecto.

Além disso, a música  é algo que a gente costuma pensar do ponto de vista das ciências humanas, como produto cultural. Mas o impulso de fazer música é universal, caracteriza o ser humano assim como a linguagem, o falar. A tendência de querer se envolver em experiências musicais, a gente nasce com ela assim como nasce com a capacidade de desenvolver linguagem, seja fazendo ou seja apreciando música. Mas a maior parte das pessoas tem o seu humor influenciado pela música, as pessoas usam músicas para relaxar, para ficar mais animadas. Aliás, essa questão da apreciação é mais recente do ponto de vista evolutivo. Antigamente, o envolvimento em atividades musicais era muito mais participativo. Essa coisa da especialização, da profissionalização, do intérprete virtuoso, é bem recente na história, é dos últimos séculos.

Muito se fala do poder da música mexer com emoções. Qual é o mecanismo neurológico por trás disso?

Patrícia Vanzella Voltando à questão evolutiva, existem algumas especulações de que música e linguagem têm uma origem comum, de que lá atrás teria existido um sistema de comunicação não referencial, que não era baseado nos elementos da linguagem que a gente conhece e que teria aspectos tanto linguísticos como musicais. Só muito recentemente na nossa história evolutiva, há cerca de 200 mil anos, esse sistema teria se especializado em dois sistemas diferentes: a linguagem, com essa característica de transmissão de informações precisas, e a música, com a característica de transmitir emoções. É uma especulação feita por alguns arqueólogos, antropólogos e cientistas.

Isso é só uma visão, mas a gente sabe do efeito que a música causa nos ouvintes. Raramente, a gente tem alguém que diz que não gosta de música, que não ouve música. Algumas pessoas com amusia, que é um comprometimento no processamento musical, às vezes não são capazes de perceber, produzir ou mesmo apreciar música. É algo muito visível, então esses estudos que usam as imagens mostram que essas emoções evocadas pela música modulam atividades em praticamente todas as estruturas límbicas e paralímbicas do nosso sistema nervoso, que são estruturas envolvidas com emoção. Aquela música que causa arrepio, que emociona mais, libera um neurotransmissor chamado dopamina e que está envolvido no sistema que a gente chama de recompensa, que, por sua vez, está envolvido em outros comportamentos motivadores como sexo, comida e algumas drogas.

Quando a gente fala que uma música é triste isso é uma interpretação cultural ou ela é verdadeiramente triste?

Patrícia Vanzella Na realidade, tem as duas dimensões. Alguns aspectos acústicos parecem ser universais. Outros são nitidamente culturais, de acordo com a música que você escuta. Por exemplo, algo que você ouve desde pequeno você vai associar com uma determinada emoção. Entre os aspectos acústicos comuns estão o andamento da música: mais rápido, em geral, passa uma sensação de música alegre, ou mais triste quando o andamento é mais lento. Intensidade é outro aspecto: quando a música é mais forte, mais agitada, ela é percebida como alegre. Entre diferentes aspectos culturais, por exemplo, há os modos maior e menor [sistema de classificação de escalas musicais]. A gente associa normalmente o modo maior com música alegre e o menor com música triste. Parece ser uma associação mais cultural. Tem um estudo bem interessante feito com o povo africano Mafa. Pesquisadores levaram gravações musicais que eles nunca tinham ouvido e que os ocidentais caracterizavam como alegres ou tristes ou que provocavam medo. Os mafa conseguiram fazer uma leitura dessas emoções, não tão bem como os ocidentais, mas acima do acaso, o que mostrou que algum elemento acústico deu pistas para eles.

Há muito se pesquisa o uso da música em tratamentos de saúde mental. Como as pesquisas recentes têm contribuído para esse campo?

Patrícia Vanzella Já há algum tempo a gente sabe do efeito da música em alguns quadros específicos. O autismo é um deles: a música facilita a comunicação em pacientes com transtorno do espectro autista, a música também diminui ansiedade, pois diminui o nível de cortisol [hormônio do stress], pode ajudar na recuperação de funções cognitivas e motoras em pacientes que tenham tido AVC. Tem terapias baseadas na estimulação musical, como uma chamada melodic intonation therapy. Quando há uma área danificada no cérebro, por um processo de neuroplasticidade outra área pode eventualmente assumir a função que foi prejudicada pelo AVC, por exemplo. Pacientes que tiveram AVC e depois tiveram problemas na produção da fala, depois de algumas sessões de terapia começam a recuperar a fala porque constróem outros caminhos neurais para retomar essa função. Há terapias também que estimulam movimentos de pessoas com doença de Parkinson e outras que facilitam um resgate de memória em pacientes com demência. O que a gente faz é pesquisar quais são os mecanismos neurais subjacentes a esses efeitos, a essas terapias, os mecanismos e os processos envolvidos nessa melhora, para depois eventualmente usar em outros quadros.

É possível explicar com base na neurociência por que as pessoas gostam de tipos de música diferentes? Ou isso seria um fator cultural?

Patrícia Vanzella Isso é bem cultural. A gente tende a gostar do que é mais familiar, a familiaridade tem um papel enorme no gosto. Se você não tem exposição é mais difícil gostar de imediato. Quando você se habitua, acaba desenvolvendo ou não um gosto. Lógico que isso se deve também a traços de personalidade. A influência do grupo também é importante, sobretudo na adolescência. Muito da música que a gente carrega, que tem um significado maior para nós, vem da adolescência. No trabalho que a gente está fazendo, de resgate de memórias autobiográficas em idosos, a música que mais tem potência para evocar essas lembranças são as músicas ouvidas na adolescência.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: