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Por que judeus são atacados na França, segundo este historiador

Marc Knobel, especialista em antissemitismo, fala ao ‘Nexo’ sobre o aumento de 74% nos ataques à comunidade judaica francesa

 

Quando tinha 9 anos, o historiador e escritor francês Marc Knobel encontrou numa gaveta de um móvel da sala de casa uma Estrela de Davi amarela, na qual estava escrita, em francês, a palavra “judeu”.

Ele levou objeto ao pai e perguntou: “O que é isso?” Knobel relata que o pai, com expressão obscura, simplesmente mandou que ele guardasse o objeto onde o havia encontrado.

No relato, publicado na terça-feira (19) em Paris pela Revista Cívica, Knobel explica que veio a saber mais tarde que seu pai havia sido obrigado a bordar essa mesma estrela na roupa quando tinha apenas 11 anos.

A Estrela de Davi amarela identificava os judeus não apenas na França, mas também em outros países da Europa, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ela foi uma marca distintiva de preconceito e morte.

Passados mais de 70 anos do fim da Segunda Guerra, a França vê crescer os ataques antissemitas (contra judeus). O número de notificações cresceu 74% entre 2017 e 2018.

Nesta terça (19), aproximadamente 90 túmulos de judeus foram pichados com a suástica nazista em Quatzenheim, no leste da França. Dois dias antes, o filósofo judeu Alain Finkielkraut fora xingado de “judeu de merda” durante uma manifestação dos coletes amarelos em Paris. O ataque foi gravado em vídeo.

O Nexo conversou por telefone nesta quarta-feira (20) com Marc Knobel a respeito desses ataques recentes. O historiador Knobel, que atualmente é diretor de estudos do Crif (Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França), é apontado por cientistas políticos franceses como Pascal Perrineau como uma das maiores referências no estudo do antissemitismo na França atualmente.

O Crif, do qual Knobel é um dos diretores, recebeu a visita do presidente francês, Emmanuel Macron, nesta quarta-feira (20), em Paris. Macron anunciou que pretende ampliar a definição de antissemitismo na França. A ideia é impedir que o povo judeu seja coletivamente apontado como responsável pelas ações do Estado de Israel. Macron também pretende tornar crime a negação ao princípio de autodeterminação judaica. Esse princípio é um dos que guiou a criação do Estado de Israel, em 1948.

Como o sr. explica esse aumento do número de atos antissemitas na França?

Marc Knobel Primeiro, é preciso dizer que isso não é novo. Nós dispomos de dados com esses registros e estatísticas [oficiais] a partir de 1998. Com base nesses levantamentos, é possível ver uma alta a partir do ano 2000. Esse crescimento coincide com o aumento da violência entre israelenses e palestinos. Por exemplo, de 2000 a 2004, sobe. Em 2009, sobe. Em 2012 e 2014, também. Nessas datas, há cifras elevadas [e são datas que coincidem com as “intifadas” palestinas, que são “revoltas” ou “insurreições” contra os israelenses na Cisjordânia e na Faixa de Gaza]. Exemplos: em 2004, foram contabilizados 974 atos antissemitas pelo Ministério do Interior da França. Em 2009 foram registrados 830 atos. [Em 2018 foram 541].

'Entre 25% e 35% dos franceses pensam que os judeus têm mais dinheiro que eles'

A primeira hipótese de trabalho é, portanto, a seguinte: quando há um conflito entre israelenses e palestinos no Oriente Médio, há uma importação dessa violência, que se manifesta contra os judeus na França e na Europa de maneira geral. Isso é inegável. O aumento das cifras corresponde perfeitamente à correlação com o conflito no Oriente Médio. As pessoas atacam sinagogas, lançam pedras e tudo isso. É algo que começa no ano 2000 e se repete desde então.

A segunda hipótese de trabalho tem a ver com os estereótipos, que são muito poderosos, que são construídos ao longo de muitos e muitos anos. Entre 25% e 35% dos franceses pensam que os judeus têm mais dinheiro que eles. Especialmente os mais pobres costumam associar judeus a dinheiro. Por isso não surpreende que hoje você encontre pichações em muros de Paris e de outras cidades francesas dizendo “Macron = Rotchschild” [O presidente francês Emmanuel Macron foi diretor do Banco Rotchschild, pertencente a uma influente e rica família judia da Europa]. Se Macron tivesse sido diretor de qualquer outro banco, ninguém falaria disso. Mas, como o nome Rotchschild é um nome judeu, associado aos judeus que têm dinheiro, e como este é um estereótipo forte e popular, pronto. Há três tipos de estereótipos: o do judeu que tem dinheiro, o do judeu poderoso e o do judeu jornalista. O estereótipo é, portanto, a segunda hipótese de trabalho.

A terceira hipótese é o islamismo. O conflito israelo-palestino é um conflito forte para os que, entre os muçulmanos, acreditam que é necessário destruir a civilização judaico-cristã. Essas pessoas são capazes tanto de cometer ataques em igrejas e mesquitas quanto de assassinar jornalistas, assassinar policiais. Houve, nessa linha, o atentado contra o Charlie Hebdo [quando em janeiro de 2015 terroristas mataram 12 pessoas no jornal e em seus arredores]. Houve também a série de atentados em Toulouse [em 2012], quando três crianças, de 3 anos, de 5 anos e de 7 anos foram assassinadas por um terrorista chamado Mohammed Merah. Houve o atentado contra o supermercado Cacher [com tomada de reféns e quatro mortos, em Montrouge, nos arredores de Paris, em 2015, mesmo ano do atentado à casa de shows Bataclan, que deixou 90 mortos]. Isso demonstra um ódio visceral, uma loucura furiosa contra nossa civilização judaico-cristã.

A quarta hipótese é a de que nós temos uma radicalização crescente na sociedade, embalada numa crise política e numa crise social fortes, e que há pessoas que se aproveitam disso, que canalizam a angústia e a raiva das pessoas – é isso que vemos acontecer com os coletes amarelos, por exemplo –, e que podem ser pessoas da extrema esquerda ou da extrema direita, que sabem manipular as pessoas que não têm necessariamente consciência política, dizendo a elas que os judeus são responsáveis por tudo de ruim, como se essa fosse a verdade. Essa é a quarta hipótese de trabalho, portanto.

 

O sr. vê relação entre os ataques que ocorrem hoje na França e os que ocorrem em outras partes do mundo, particularmente da Europa, e mais precisamente na Alemanha?

Marc Knobel  Na Alemanha, as cifras são muito mais significativas. São números inquietantes [foram 1.646 registros em 2018]. Lá, há dois fatores. Aliás, ambos muito recentes. De um lado, está o crescimento da extrema direita, da AfD [Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita que em setembro de 2017 se tornou a terceira maior força do legislativo ao receber o equivalente a 12,6% do total dos votos válidos, o que se traduz em 94 dos 631 assentos]. Esse é um partido em certa medida negacionista [que nega o holocausto, que foi a matança de judeus, incluindo 6 milhões em campos de concentração], que glorifica um certo período da história que é muito significativo para o imaginário coletivo de grupos neonazistas muito violentos, grupos que atacam os judeus.

De outro lado, há também grupos muçulmanos, de imigrantes, que refletem na Alemanha os momentos de paroxismo do conflito israelo-palestino. Quando há conflitos entre o Hamas e Israel, nós vemos atos antissemitas serem cometidos em Berlim até mesmo por refugiados sírios.

Nos EUA, apenas para citar outro contexto, há grupos pequenos que apoiam a causa palestina, que pregam o boicote a produtos israelenses ou até mesmo a destruição do Estado israelense. Aí se trata de um antissemitismo mais de extrema esquerda. E há também atos como o atentado em Pittsburgh [maior atentado contra a comunidade judaica da história dos EUA, que deixou 11 mortos numa sinagoga, em 2018]. Isso foi um choque terrível para a sociedade americana. Mesmo assim, logo depois desse atentado, havia comentários de gente que considerava que os judeus são responsáveis por todos os problemas da sociedade americana.

Muitas vezes as pessoas querem acreditar em supostas verdades que lhes confortem. É por isso que certas informações, mesmo não sendo verdadeiras, são tomadas como tal. Isso acontece com a conformação dos estereótipos, seja na França, na Alemanha ou nos EUA. É o caso típico dessa associação entre Macron e os Rotchschild, que eu mencionei. Esse é o problema.

 

Há atualmente uma associação estreita entre governos que estão nas mãos de partidos de extrema direita, como na Polônia, na Hungria, na Itália e nos EUA, e o atual governo de Israel. Como o sr. explica que a extrema direita possa ter boas relações com o atual governo de Israel e, ao mesmo tempo, se envolver em casos ou discursos de antissemitismo?

Marc Knobel  O termo extrema direita é um termo genérico tanto quanto extrema esquerda. O que é preciso compreender é que se trata de uma família com membros e nomes diferentes, que não necessariamente compartem a mesma ideologia por completo, não têm a mesma história, e podem abrigar pessoas que, talvez, sejam até mesmo muito mais ultra [no sentido de serem mais radicais].

Dito isso, a extrema direita, sobretudo na Europa, coloca a imigração como a culpada pelos problemas da nossa sociedade. É o caso do partido Rassemblement National [reunião nacional] da França [encabeçado por Marine Le Pen]. É o que nós vemos também na Áustria, na Hungria, na Polônia e, talvez, até mesmo no Brasil.

Porém, em paralelo a isso, há uma razão de Estado e de relações bilaterais que faz com que o Estado de Israel tenha relações diplomáticas com esse ou aquele país, e isso ocorre com, sei lá, uns 140 países do mundo. Essa é uma escolha política, baseada em considerações geopolíticas e em razões de Estado.

Agora, no seio da extrema direita há grupos que são claramente negacionistas, neonazistas e francamente antissemitas com os quais não é possível ter relação. Há eventualmente críticas no interior da sociedade israelense ao premiê Benjamin Netanyahu por ele ter ido à posse de Jair Bolsonaro. Não há um consenso sobre isso em Israel. Há um setor da opinião pública que é contrária a isso, assim como há outra parte que diz se tratar de uma relação normal. É assim que as coisas funcionam.

Quando um país, por exemplo, como a França, tem relação com um determinado país, isso não significa que haja um alinhamento com as pessoas que estão no poder naquele momento. O que se procura é melhorar as relações diplomáticas entre os países.

Pode ser que nesse processo haja fricções com os grupos políticos que estão circunstancialmente no poder. Basta ver o caso da Polônia. Há um grupo nacionalista no poder agora por lá, que protagonizou uma fricção muito forte com Israel. [Autoridades israelenses criticaram uma lei polonesa que bane menções a “campos de concentração poloneses”, nos quais milhares de judeus foram mortos na Segunda Guerra. Em função dessas críticas, os poloneses cancelaram a participação numa reunião de cúpula que seria realizada em fevereiro em Israel.] Então, como você vê as coisas podem chegar a ser bem complicadas.

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