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Ilú Obá: ‘Carnaval será especialmente político’ em 2019

Uma das fundadoras do bloco afro paulistano, Beth Beli falou ao ‘Nexo’ sobre o encontro entre música, ativismo e empoderamento feminino

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    Foi no livro “O Povo do Santo”, do antropólogo Raul Lody, que a percussionista Elizabeth Belisário, mais conhecida como Beth Beli, se deparou pela primeira vez com o termo ilú abademin, que designa um atabaque tocado por três mulheres ao mesmo tempo. Adaptando o termo a outras palavras da língua iorubá usadas no candomblé, ela chegou na formulação Ilú Obá de Min, que Beli traduz como “mãos femininas que tocam tambor para Xangô”.

    O nome foi escolhido para batizar um bloco afro “dirigido, pensado e organizado apenas por mulheres”, como explicou Beli pelo telefone ao Nexo. Fundado pela musicista junto com Sandra Campos e Sônia Leite, em 2004, “a primeira ideia foi criar um bloco para empoderar a mulher através do tambor”.

    No primeiro Carnaval da agremiação, 5.000 pessoas compareceram para dançar seus ritmos na região central de São Paulo. Originária da Brasilândia, na periferia paulistana, Beli mora na Bela Vista desde os 17. No ano passado, o bloco levou para o Vale do Anhangabaú cerca de 40 mil participantes.

    O número de percussionistas subiu de 30 para 250 ao longo dos anos. Os ritmos incluem toques do candomblé, maracatu, afoxé e jongo, entre outros.

    Além de Beli, o Ilú é hoje dirigido por um grupo de mulheres que inclui Adriana Aragão, Mafalda Pequenino, Baby Amorim, Wanda Martins, Mazé Cintra, Fabiane Reginaldo, Nega Duda e Sosso Parma.

    O Ilú Obá de Min se tornou um dos blocos mais políticos de São Paulo. As manifestações em prol da consciência negra, feminismo e direitos LGBTI são parte inseparável do trabalho do grupo. A carga política se faz presente nos temas e tributos de cada ano, em debates e atividades fora do Carnaval e por meio de participações em atos, como o realizado em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), em São Paulo em março de 2018.

    Em 2019, o bloco pretende homenagear mulheres negras de importância histórica, como a escritora Conceição Evaristo e a atriz Ruth de Souza. Haverá também a reencenação da leitura do manifesto do Movimento Negro Unificado, organização ativista negra pioneira, que ocorreu originalmente em 1978.

    As demandas dos blocos

    Em 2019, o Ilú Obá de Min assinou, junto a cerca de 50 outras agremiações, um manifesto contra o que consideram uma burocratização e diluição do Carnaval da capital paulista.

    “Nós fazemos carnaval e observamos assombradas as tentativas de mercantilizar, burocratizar e encaixotar nossa manifestação cultural ancestral, espontânea e livre”, diz o texto. “Nós fazemos carnaval e não há senhor, dono ou patrão, de terno e gravata ou camisa pólo, que nos impedirá de fazê-lo.”

    “Foram muito rigorosos, por exemplo, sobre quais são os dias nos quais os blocos estão autorizados a sair. Não consideraram a sexta-feira um dia oficial do Carnaval, o que deixou o Ilú Obá de Min, um bloco super tradicional, fora da programação oficial”, explicou Lira Alli, integrante do bloco Vai Quem Qué, ao portal UOL. Os blocos também consideram que a transferência da gestão do Carnaval da secretaria da Cultura para as subprefeituras também criou dificuldades.

    O caso do Ilú acabou resolvido, pois sua apresentação já é considerada tradicional, característica destacada e respeitada pelo regulamento municipal. O bloco também recebeu apoio da secretaria de Cultura em sua demanda para manter seu desfile na sexta-feira de Carnaval.

    Leia a seguir entrevista com a fundadora do Ilú Obá de Min, Beth Beli. 

    O que levou à publicação de um manifesto protestando contra a gestão do Carnaval em São Paulo?

    Beth Beli São vários problemas. Não temos pessoas competentes cuidando do Carnaval na subprefeitura da Sé [responsável por parte da área central de São Paulo]. Antes, quem cuidava do Carnaval era a secretaria de Cultura. E esse ano são as subprefeituras. Então ficou super difícil de lidar, com tantas demandas, porque o Carnaval de São Paulo cresceu muito de uns três anos prá cá. A subprefeitura já tem muitas demandas. Podiam ter deixado para a secretaria cuidar, penso eu. Eles queriam que o Ilú Obá De Min saísse no sábado e não na sexta, como há 14 anos saímos. Graças a parceiros que temos, conseguimos manter a tradição do Ilú Obá De Min sair na sexta-feira. Tradição não se derruba assim sem nenhuma explicação, concorda?

    O meio do samba, nos instrumentos e no comando, ainda é muito masculino. Como foi abrir caminho com um grupo inteiramente feminino?

    Beth Beli Sempre via poucas mulheres tocando. A ideia foi chamar mulheres e não dar só instrumentos como o ganzá e o tamborim para elas, mas também surdo, instrumentos que chamam o ritmo. Na escola de samba tem essa hierarquia de instrumentos, no Ilú elas escolhem o que querem tocar, se é djembê, alfaia, xequerê [instrumentos de percussão]. Essa é uma grande diferença em relação às escolas de samba. Elas escolhem onde querem estar, se querem cantar, dançar. Elas se sentem pertencendo a algo importante porque o Ilú se tornou um grande bloco de São Paulo. É uma forma de empoderar, de dar pertencimento. E as mulheres lá têm vozes, principalmente as mulheres negras. Não é ninguém falando por elas. Faço regência sem apito, sem grito, só na dança, é um estilo que fui desenvolvendo. A gente já tocou dentro da [escola de samba] Vai-Vai e os ritmistas de lá ficaram impressionados.

    E o candomblé proíbe muitos instrumentos de serem tocados por mulheres. Como foi enfrentar essa tradição?

    Beth Beli Os tambores sagrados do candomblé fazem parte de um culto religioso de matriz africana. A gente está fazendo algo fora dele. Estamos levando a base, as musicalidades, do candomblé. Tantos fazem isso, Caetano, Gil, Bethânia, na música popular, levam isso pra rua. Estamos fazendo bases e fazemos referência à religiosidade dos orixás, mas não estamos fazendo um culto. A gente entende isso como a musicalidade que vem da África para o Brasil.

    É possível chamar a atenção para problemas sociais durante o Carnaval?

    Beth Beli Essas sempre foram as temáticas do Ilu. Temáticas que deveriam merecer reflexão de todo o Brasil, mas em 2019 ainda temos racismo, uma juventude negra sendo assassinada o tempo todo. Somos educação, cultura e arte negras. Temos um projeto chamado Ilú na Mesa, onde chamamos o pessoal da academia e uma pessoa da oralidade para falar do mesmo assunto, porque são olhares diferentes. Uns estão lá, vivendo, outros escrevem sobre. Nosso tema de 2019 é “Negras vozes: tempo de Alakan”. Alakan é um termo em iorubá que significa aliança. Vamos contar a história de 1978 até 2019, o que aconteceu, principalmente com as mulheres negras, no lado artístico, individual, na medicina, nas conquistas e avanços. A gente vai ler uma carta de 1978, quando foi fundado o MNU (Movimento Negro Unificado), vamos reproduzir a cena da sua fundação, quando eles leram essa cartas nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Nosso desfile vai ter esse momento. A gente vai parar, subir as escadas e ler a carta. Esse Carnaval vai ser especialmente político, vamos trazer algumas faixas e pessoas que leram a carta em 1978, elas estarão conosco, fazendo a mesma ação. A ideia nossa é sempre recontar os 500 anos [de Brasil] pela voz das mulheres negras. Esse ano esperamos um Carnaval muito forte, tenso, por conta da conjuntura que estamos vivendo. Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Ruth de Souza, uma das primeiras mulheres negras a fazer televisão e teatro.

    O Ilú é aberto para mulheres de diversas raças e classes sociais. O que uma mulher precisa para fazer parte do Ilú?

    Beth Beli Tem desde moradores de rua até pós-doc [pessoas que fizeram pós-doutoramento na universidade]. Hoje o Ilú está muito mais enegrecido. De dois anos para cá, as primeiras inscrições feitas são com mulheres negras. Depois, a gente abre para as mulheres ameríndias. Se sobrar, abrimos para as mulheres brancas. São 20 vagas que abrimos e acaba muito rápido. Esse ano soltamos às dez da manhã, e às oito da noite não tinha mais nada. O que fazemos é uma ação afirmativa. A gente percebeu que, quando abriam as inscrições, rapidamente as mulheres brancas entravam e as negras continuavam de fora. E isso tá errado, é um bloco afro. Pelo menos esse privilégio [as mulheres negras] têm de ter. Hoje temos 80% de mulheres negras e 20% de brancas.

     

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