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‘Era um orgulho para ele que as pessoas soubessem seu nome’

No livro “Ricardo e Vânia”, jornalista Chico Felitti traz novas informações sobre a vida do ex-maquiador Ricardo Correa, conhecido como Fofão da Augusta

     

    “Como pode uma pessoa invisível e, ao mesmo tempo, conhecida passar entre nós sem envolvimento algum? Este é um retrato da cidade e de nós mesmos (...) Se um dia cruzarmos com ele novamente vou poder chamá-lo pelo nome com certa vergonha de nunca ter lhe dito bom dia, boa tarde ou boa noite quando passei por ele.”

    O depoimento acima está no livro “Ricardo e Vânia”, de Chico Felitti. Em 2017, em uma reportagem no site BuzzFeed, Felitti escreveu um perfil sobre o personagem conhecido como Fofão da Augusta. O texto deu história, família e voz a uma figura que era vista apenas como uma aberração misteriosa a andar pelas ruas de São Paulo. Felitti revelou um ser humano, com nome e sobrenome: Ricardo Corrêa da Silva.

    O interesse foi imenso: foram mais de 2.560 comentários na própria matéria, além de outros 10 mil no post do BuzzFeed no Facebook. O trabalho rendeu reconhecimento e prêmios a Felitti, incluindo o Prêmio Petrobras de Jornalismo, na categoria Inovação. A maneira como o autor costura informações de sua apuração com a narrativa, incluindo a valiosa ajuda de sua mãe, a escritora Isabel Dias, contribuiu para dar sabor ao trabalho.

    Mais importante: as pessoas não atravessavam mais a rua quando viam Ricardo. Passaram a cumprimentá-lo, chamando-o pelo nome verdadeiro. O homem que havia sido um reconhecido maquiador e cabeleireiro nas décadas de 1970 e 1980 recuperava aos poucos sua dignidade e identidade. Mas a nova fase durou pouco: Ricardo morreu de embolia pulmonar dois meses depois da publicação do perfil, em dezembro de 2017.

    Nesse meio tempo, surgiu Vânia. Era uma mulher trans vivendo em Paris que havia sido “o amor da vida” de Ricardo. Nasceu assim um complemento fundamental à história, resultando em “Ricardo e Vânia”. O livro promete repetir o sucesso da reportagem original. Os direitos para o cinema foram comprados pela produtora RT Features.

     

    O Nexo conversou com Chico Felitti sobre o desenvolvimento do livro e a força dos personagens que encontrou, entre outros assuntos.

    Por que houve tanto interesse pela história do Ricardo?

    Chico Felitti Em primeiro, para as pessoas de São Paulo que conheciam ele de vista e tinham essa referência estética, era uma curiosidade e foi uma das coisas que pode ter atraído. A outra é que vejo nele um caráter muito universal, existe uma solidão, uma solidão da cidade grande, e uma questão de relacionamento familiar, que são universais. Acho que são temas mais abrangentes, que abraçam muito mais gente do que os que conheciam ele. Apostaria nessas duas hipóteses.

    Por que você decidiu incluir a história da Vânia no livro?

    Chico Felitti A ideia era não fazer mais nada relacionado ao Ricardo. A matéria [jargão jornalístico para reportagem] foi publicada [no BuzzFeed], fez algum sucesso, teve alguma repercussão, e daí houve até um momento de discutir se iríamos fazer mais alguma coisa. O BuzzFeed concordou que a história estava contada, e de uma maneira digna. Qualquer outra coisa poderia resvalar em exploração. É muito fácil cair na tentação de retratar as pessoas como coitados ou com um revestimento moral, “ah, foi errado o que ele fez com o rosto”. A vida seguiu. Dali a dois meses, o Ricardo morreu e veio uma nova onda de lugares que queriam falar, fazer o obituário dele, e achei justo e merecido.

    Mas, nesse meio tempo, apareceu a Vânia. A gente começou a ter contato. No começo não era pauta, era só curiosidade. Até que ela me disse que tinha tido sete nomes diferentes, uma vida muito frondosa. Ela meio que se ofereceu como “personagem” e provou pra mim que era um personagem digno, porque eu tava bem cauteloso, bem cioso de fazer qualquer outra coisa. Falei com a editora que seria o caso de mudar de livro, porque tinha uma nova história. Fomos para Paris, a Vânia nos convidou para ficar na casa dela e falou sobre sua vida abertamente. De fato, era uma história que por si só valeria um livro e preenchia algumas lacunas da história de vida do Ricardo. Ela revolucionou o mercado de marketing sexual em Paris ao ficar se renovando, mudando de nome, anunciando em revista de sexo heterossexual (sendo trans) e ganhou muito dinheiro, perdeu muito dinheiro, foi presa. Não tem arrependimento ou autocomiseração, além de ser 100% factual, que é o sonho de qualquer entrevistador.

    A narrativa mistura os fatos da vida dos personagens com informações sobre a apuração. Por que decidiu manter isso no livro?

    Chico Felitti  Nem foi muito pensado porque eu não vi outra maneira de narrar a história. Acho que ficaria manca se eu não fosse sincero. É um caso em que a coxia e o palco fazem parte da história. Não podia mentir que fui para Araraquara [cidade do interior de São Paulo, onde Ricardo nasceu] por motivos escusos. Não, fui para lá porque minha mãe encontrou um comentário numa notícia muito velha em um jornal da cidade que dizia que esse colunista social sendo entrevistado era o irmão do cara conhecido como Fofão da Augusta. Negligenciar esse tipo de informação seria um golpe na narrativa e prejudicaria a história. Então propus desde o começo que iria contar tudo que aconteceu. Contei da editora, do processo de produção da notícia, sem fingir que o livro não é um livro.

    Esta é uma história com temas sensíveis e personagens vulneráveis. Ao entrevistar e escrever, quais os cuidados que você tomou?

    Chico Felitti  Fiz uma coisa que não é muito do manual dos grandes veículos de jornalismo, onde trabalhei muito tempo, que era confirmar com a pessoa depois da entrevista: “você quer mesmo que eu publique isso? Isso pode ter efeitos na sua vida, acho que você talvez não tenha dimensão do que isso possa causar pra você”. Eu dava essa advertência e agora é algo que levo pra vida. Faço isso com matérias menores. Outro dia fiz um perfil com a pessoa que é o paciente zero de HIV no Hospital das Clínicas, que está viva até hoje e ótima. A entrevista foi muito boa, mas ficamos quatro semanas depois discutindo se era o caso de publicar ou não. Eu dei esse tempo para ele. Pelo manual, pelo ofício, não precisaria ter dado. A pessoa vai expor, por o nome, a cara, tudo precisa ser medido e, na medida do possível, previsto.

    No caso do Ricardo, eu torcia para que o perfil se espalhasse, mas na verdade ficava ansioso que pudesse ser ruim o fato de ele ter um dinheiro depositado em juízo que podia sacar, que ninguém sabia bem quanto era, R$ 35 mil, 70 mil, e ele frágil, exposto. Meu medo maior era que alguém fosse atrás dele por causa desse dinheiro. Mas não aconteceu. Nos dois meses entre a publicação e a morte dele, as intenções de quem o procurou foram as melhores, pelo menos os que me procuravam ou os que falavam com ele quando estava na rua comigo. As pessoas queriam ajudar ou parabenizar ele, queriam reconhecer a existência dele.

    Ricardo passou por muitas situações difíceis e humilhantes na vida. Ao registrar e divulgar sua história, você acha que a existência dele reconquistou uma certa dignidade?

    Chico Felitti  Para a conta bancária certamente não, para a vida do dia a dia não. O grande ganho aí foi a questão do nome. As pessoas paravam ele na rua e o chamavam pelo nome. Era um orgulho para ele que as pessoas soubessem seu nome. Era como se ele tivesse no papel que sempre deveria ter desempenhado na vida. Ele ficou zero assustado com o assédio. A matéria saiu sexta à noite e sábado de manhã eu já estava com ele, por preocupação. A gente saiu pra andar, ficamos o sábado todo andando, e as pessoas o paravam e ele agia com muita naturalidade, super se achava merecedor dos cumprimentos e do assédio.

    O livro retrata personagens que pertencem a grupos muito discriminados pela sociedade. O que você aprendeu sobre quem vive marginalizado pelo preconceito?

    Chico Felitti  O que mais aprendi foi reconhecer um valor imenso, a ter uma admiração imensa, por gente que, apesar de ter o mundo contra elas, consegue sobreviver, alguns conseguem perseverar. Alguns dizem que nem percebem, a Vânia diz que não percebe. É uma pessoa que é discriminada todos os dias, há 55 anos, você percebe quando sai num lugar público com ela. Ela aprendeu a desenvolver uma couraça, a tonificar um músculo da alma que não sei qual é, e consegue viver essa vida, com as pessoas olhando, comentando. Acho que então [aprendi a ter] admiração pelas que conseguem. Mas também não é uma cobrança, você não pode esperar que todo mundo consiga. Tem muita gente que sucumbe, que morre por isso, que se mata, que é morta pela violência e não se pode esquecer disso. Não é só um teste de força que vai deixar a pessoa melhor, não é. É uma questão de saúde pública, de segurança, que esse tipo de comportamento não seja tolerado.

    O que representa uma história como essa no Brasil de hoje, tomado por uma onda conservadora e intolerante?

    Chico Felitti  Teve um timing, né, mas não houve nenhuma intenção. Quando você começa a se aproximar das pessoas que ficaram mais tocadas, que querem falar sobre isso, você percebe esse valor. As pessoas que acreditam que os outros deveriam ter o direito de existir do jeito que são, de não serem discriminados, criminalizados e jogados para a periferia da sociedade, esse é mínimo denominador comum entre quem conversei sobre essa história. Então acaba tendo esse lado político, sim. Porque existe quem não acredita em direitos humanos e que tá ganhando voz. O que pensam essas pessoas? Pra mim é uma grande questão, não entendo o conservadorismo, o Brasil ainda vai precisar de muita auto-análise para entender o que essas pessoas querem.

    No livro, você fala que teve dificuldades em fazer pessoas de Araraquara falarem sobre o Ricardo. Isso mudou?

    Chico Felitti  Mudou completamente, Araraquara se redimiu, quero lançar o livro lá! Muita gente veio pedir desculpas, alguns dizendo que não teriam se negado a falar, e outras dizendo que falei com as pessoas erradas. Existe agora um orgulho araraquarense, até falei depois com algumas pessoas que estão no livro, como a Vicky Marrone, uma travesti maravilhosa, enfermeira e que foi amiga do Ricardo. É ela que narra como era ser LGBTQ+ em Araraquara, nos anos 1970 e 1980. Tem uma frase dela que me marca muito que é: “a gente apanhava muito quando a gente passava pelo Centro. Tinha dia que não apanhava, mas a gente apanhava mais do que não apanhava”. E ainda assim conviviam, andavam, acho inacreditável, se eu pudesse escolher para quem iríamos construir uma estátua, seria para gente assim.

    Por que você usou nomes próprios para os títulos dos capítulos?

    Chico Felitti  Para mim, essa é uma história de nomes. É a história de uma pessoa que tinha um nome, esse nome foi arrancado dela, ela perdeu o direito de usar esse nome e passou a ser conhecida por um apelido maldoso por muito tempo, então é a história da retomada de um nome. E, por outro lado, é a história de uma pessoa que nasceu com um nome com o qual não se identificava e mudou de nome oito vezes no decorrer da vida e tem essa manipulação de identidade maravilhosa, que é da Vânia, que cria personas e personagens e vai trocando. Deixou de ganhar dinheiro, muda para próxima, cansou de uma, muda para próxima. E também dos personagens secundários, gente formidável que merece ter nome e sobrenome e ter um capítulo só para eles.

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