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Por que os militares venezuelanos respaldam Maduro

Daniel Lansberg-Rodríguez, analista de risco geopolítico e professor da Universidade Northwestern, fala ao 'Nexo' sobre a história e o comportamento das Forças Armadas na Venezuela

 

As Forças Armadas da Venezuela têm “dado incontáveis demonstrações de disciplina, coesão e preparação para enfrentar qualquer ameaça dos inimigos da pátria”, disse o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em sua conta no Twitter, nesta terça-feira (22).

A declaração foi publicada um dia depois de 27 membros da Guarda Nacional roubarem armas num quartel de Caracas e convocarem pelas redes sociais uma rebelião militar para tirar Maduro à força do poder. O grupo, no fim, acabou preso e a rebelião, debelada. Mas a “coesão” e a “disciplina” alardeada por Maduro saíram arranhadas.

A cada dia, a oposição venezuelana vem conclamando abertamente uma rebelião militar na Venezuela. O discurso é respaldado pelos EUA, que defendem uma “intervenção militar” na Venezuela, enquanto Maduro – chamado de presidente “ilegítimo” pelo Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) desde que foi empossado no dia 10 de janeiro para seu segundo mandato –  busca manter o respaldo de seus militares contra o que chama de imperialismo, golpismo e intervencionismo estrangeiro.

As Forças Armadas têm papel central na crise venezuelana. Enquanto membros do Judiciário abandonam o país e membros do Legislativo proclamam um governo paralelo contra Maduro, os olhares se voltam para os quartéis, de onde os adversários do atual presidente esperam que venha uma virada de mesa definitiva.

Para entender o papel que esse setor desempenhou ao longo da história venezuelana, e como ele se comporta hoje, o Nexo entrevistou por telefone, nesta terça-feira (22), o venezuelano Daniel Lansberg-Rodríguez, que deixou seu país em 2010, e hoje é professor na Northwestern University, em Chicago, nos EUA, e analista de risco geopolítico na consultoria Greenmantle.

Como o sr. descreveria as Forças Armadas e as forças de segurança na Venezuela, ao longo da história?

Daniel Lansberg No tempo colonial [1522-1811], a Venezuela era uma zona que não tinha uma grande população e que não tinha muitos recursos. Por isso, a presença militar e administrativa ali sempre foi muito frágil.

Porém, quando começaram os movimentos de independência contra a Espanha nas Américas, teve início na Venezuela algo que se converteu numa rebelião e que libertou não somente a Venezuela em si, mas também libertou a Colômbia, que era um vice-reinado importante, além do Panamá, da Bolívia, do Peru. Esse evento teve uma importância psicológica enorme para as Forças Armadas na Venezuela. Uma colônia tão frágil, sem tantos recursos, entrou para a história e se fez relevante para seus vizinhos a partir desse evento liderado por Simon Bolívar [1783-1830], nesses movimentos de independência.

Depois da independência, Bolívar, um venezuelano, se tornou presidente da Grã-Colômbia [formada pelo que hoje corresponde a Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá, além de porções de Guiana, Peru, Honduras, Nicarágua e Brasil].

A partir de então, a Venezuela não chega a ter nenhuma outra guerra por todo o resto de sua história. Excetuando momentos de rebelião interna nos 1800 e alguma tensão e troca de tiros com guerrilhas nos anos 1960 e 1970, a Venezuela não entra em guerra com seus vizinhos para proteger a pátria, diferentemente do que ocorreu entre Equador e Peru, ou com a Argentina. Então, na Venezuela, as Forças Armadas foram muito importantes na independência, mas, depois disso, elas não se envolveram mais no combate a ameaças externas contra a pátria.

Isso criou uma situação inusitada nos anos 1900, pois as Forças Armadas da Venezuela não estavam defendendo o país contra uma ameaça do exterior, mas elas ainda assim assumiram um papel-chave na sociedade. Como ocorre em muitos países da América Latina, a sociedade venezuelana à época era muito estratificada em classes sociais. Por isso, as Forças Armadas se converteram em veículo para que pessoas do povo, operários, pudessem chegar a obter algum respeito social.

Se você ia ao clube hípico de Caracas, poderia se encontrar com militares que estavam se sentando pela primeira vez ao lado de pessoas que tinham nascido com muito mais recursos. Isso ocorreu até 1958, quando terminou a ditadura de Marcos Pérez Jiménez. O meio militar foi até aí um meio de ascensão social para as classes baixas e a classe média, que fazia com que uma pessoa de origem simples pudesse se sentar ao lado de qualquer político.

 

Em que momento essa dinâmica se reverte? E por que razão?

Daniel Lansberg Nos anos 1980 e nos anos 1990, a Venezuela sofreu uma crise econômica muito forte, a tal ponto que passamos a viver uma grave crise social, além da crise econômica em si. Foi quando ocorreu o que chamamos de Caracazo, em 1989. Um ajuste de preço de combustível levou ao aumento do preço do transporte público. Isso gerou uma onda de violência que desestabilizou toda a capital. Centenas de pessoas foram mortas e os prejuízos foram calculados em milhares de dólares. Esse foi um trauma importante para os venezuelanos comuns e para os líderes políticos, além das próprias Forças Armadas.

Até então, os militares tinham respeito social. As pessoas respeitavam o uniforme, talvez de maneira parecida com o que é hoje no Egito ou na Turquia. Mas os eventos de 1989 levaram o presidente [Carlos Andrés Perez] a usar as Forças Armadas para conter o caos de maneira violenta. Isso causou enorme dano à imagem dos militares na Venezuela. O mesmo cabo, tenente ou coronel que antes podia se sentar em qualquer mesa e ser respeitado por seu uniforme, se converteu num pária social. Há uma frase de Bolívar muito repetida na Venezuela. Ela diz que quem usa suas armas contra um compatriota é um maldito, basicamente. E isso é levado muito a sério.

No início dos anos 1990, as Forças Armadas atingiram seu ponto mais baixo no que tange a respeitabilidade social. Pessoas que tinham buscado por anos alguma mobilidade social por meio das Forças Armadas se viram então desprestigiadas. A sociedade passou a ver as Forças Armadas como algo autocrático, e isso foi um fato inédito na história da Venezuela até então.

Chávez fez os militares andarem de cabeça erguida outra vez, depois do massacre de venezuelanos no ‘caracazo’ de 1989

Quando Hugo Chávez, em 1992, tentou um golpe de Estado utilizando as Forças Armadas, ele usou como uma das justificativas justamente a decisão do governo de usar os militares para reprimir as manifestações populares durante o Caracazo. Com esse discurso, Chávez ganhou o respaldo de uma Força Armada que havia cumprido ordens em 1989, mas que havia saído muito mal desse episódio.

Chávez tentou dois golpes em 1992, com um apoio apenas parcial das Forças Armadas, razão pela qual fracassou em ambos. Ainda assim, para os que estavam na academia militar naquele momento, para oficiais novos, isso gerou um apoio grande a Chávez, porque os militares voltaram a poder andar de cabeça erguida no país, pois a narrativa de Chávez invertera a situação – o argumento de Chávez era de que os neoliberais e os imperialistas haviam corrompido toda a cúpula das Forças Armadas, mas que os soldados eram na verdade heróis nacionais. Com isso, ele ganhou um respaldo imenso das Forças Armadas. E ele manteve isso até 2002.

Em 2002, as Forças Armadas se dividiram um pouco. Houve um golpe [contra Chávez] que não funcionou [ele foi afastado por apenas 47 horas]. N��o chegou a haver uma rebelião militar nacional. A lealdade a ele se manteve porque ele havia reabilitado socialmente os militares no passado.

A fase seguinte a esses eventos foi marcada por expurgos de qualquer elemento que pudesse ser percebido como um foco de problemas para o governo dentro das Forças Armadas. Isso começou com Chávez, mas foi acelerado com Maduro. Tratou-se de um sistema que pensava menos no fortalecimento das Forças Armadas em si e mais em como proteger o governo. Isso levou à existência de um governo ilegítimo e impopular, que, apesar de estar ilhado internacionalmente, ainda é apoiado pelas Forças Armadas.

Ao longo dos últimos 19 anos, o chavismo conseguiu manter um apoio relativamente coeso das Forças Armadas da Venezuela. A que se deve isso?

Daniel Lansberg Primeiro, porque o governo começou a mover os militares pelo país, de maneira que eles não ficassem muito tempo no mesmo lugar, o que poderia gerar laços que levariam a complôs. Quando alguém vai fazer um complô em qualquer lugar do mundo, começa por fazer contato com o militar que está ao lado, para saber se o vizinho pensa como você, e se é possível ter confiança nele. Para evitar isso, o governo começou a mover os militares, para desfazer laços o tempo todo.

Em segundo lugar, o governo começou a utilizar a volatilidade política e social no país para cuidar de quem dizia o quê e quando. A Venezuela tem tantas crises num único ano que cada vez que há uma crise, um soldado que põe a cabeça para fora, é decapitado. Quando há uma crise, e alguém levanta a voz, é logo cortado fora. Então, os cortes das possíveis lideranças são frequentes.

O terceiro e mais importante fator é que a hierarquia tradicional das Forças Armadas está de cabeça para baixo na Venezuela. Você pode ser um general, mas se entra um tenente ligado a alguém importante do chavismo, ele passa a mandar em você, que é general. A fidelidade ao governo está definindo mais do que a patente no uniforme. Isso tira eficiência e coerência às Forças Armadas, dá um sentido interno de impunidade total, mas também subverte a dinâmica tradicional dos golpes, que é a seguinte: oficiais médios que se rebelam porque sentem desconexão com coronéis e generais, pois sabem que não chegarão ao topo, porque há generais demais e eles nunca se aposentam. Isso não importa na Venezuela, pois a ligação política faz um militar mais importante que a patente que ele tem.

Outro fato importante: os golpes vêm da Força Aérea, que tem capacidade de se mover mais rápido. Basta ver o Chile [onde caças da Força Aérea bombardearam o palácio presidencial, em 1973]. É a aviação que tem o poder de anunciar ao resto do país que uma intervenção está ocorrendo. Isso é especialmente improvável no caso da Venezuela porque a Força Aérea é a que está mais metida no tráfico de drogas. A Força Aérea é quem mais tem a perder caso entre um novo governo disposto a investigar a ligação de militares com o Cartel de Los Soles, que controla todo o tráfico que passa pela Venezuela. Esse tráfico não vem pelo mar, mas pelo ar e pela Força Aérea da Venezuela.

 

Líderes de oposição estão encorajando os militares a se sublevarem contra Maduro. Qual a chance de que isso aconteça?

Daniel Lansberg A Guarda Nacional é um elemento importante. Depois da Força Aérea, a Guarda Nacional é a que mais razão tem para ser leal a Maduro. Esse é um corpo que cometeu muitos, muitos abusos, muitos crimes contra os direitos humanos e contra a democracia. Mas eles estão incrivelmente protegidos por lei. A lei agora diz que se algum membro da Guarda Nacional se sentir ameaçado, pode fazer uso da força letal. Tem carta branca. Nem precisa provar, basta dizer que sentiu. Nenhum processo contra eles pode ser aberto. Esse é um nível importantíssimo de impunidade. Então, a Guarda Nacional tem muito a perder com uma queda de Maduro.

Essa proteção foi dada de propósito pelo governo, que sabe que a Guarda Nacional e a Força Aérea são estratégicas. A Guarda Nacional rodeia o presidente. A Força Aérea se move muito rápido. Além disso, a Guarda Nacional resguarda a fronteira. Todos os bens que passam por aí, como os combustíveis, todo o contrabando que passa de um país a outro, passa pela Guarda Nacional, que controla tudo na fronteira.

É muito significativo que a Guarda Nacional esteja se movendo contra Maduro agora. Isso é perigoso para Maduro. [Um grupo de 27 membros da Guarda Nacional foi preso depois de roubar armas e sequestrar oficiais superiores em Caracas, na segunda-feira, dia 21 de janeiro de 2019]

A questão é que hoje as Forças Armadas não movem um dedo para proteger Maduro. Quando Chávez caiu em 2002, os militares se mobilizaram por ele. Ninguém faria isso hoje por Maduro. A liderança hoje é caótica.

Posso imaginar um cenário: o mais provável é que haja algum problema de fronteira, algo que faça com que Maduro precise mobilizar tropas para a fronteira. Se ele tentar fazer isso hoje, seria impossível. Não há combustível, não há cadeia de comando, não há mobilização rápida. O dia em que Maduro tiver de pedir algo às Forças Armadas, não haverá resposta. Esse será provavelmente o dia em que cai Maduro, porque, no chavismo, se você dá uma ordem e não é atendido, você está acabado. O risco para ele é dar uma ordem e não ser ouvido.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que os 34 países da OEA classificam Maduro como ilegítimo. A informação correta é que o Conselho Permanente da OEA - organização formada por 34 países das Américas - decidiu por maioria classificar Maduro como presidente ilegítimo. A votação não foi unânime, mas o resultado, por maioria, expressa a posição do bloco.

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