O estado da ficção científica brasileira, por este especialista

Apesar do preconceito, gênero produz obras de qualidade e com temas atuais. Nelson de Oliveira, organizador da antologia 'Fractais Tropicais', falou ao Nexo

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    De “Jogos Vorazes” aos filmes de “Star Wars”, histórias de ficção científica atraem milhões às telas. Na literatura, títulos como “1984”, de George Orwell, e “Neuromancer”, de William Gibson, se tornaram influentes para a cultura popular, ao acertar em previsões sobre o futuro.

    “Hoje, a ficção científica é o gênero artístico mais importante que existe”, decretou o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens” e “21 Previsões para o Século 21”, que conta com um capítulo dedicado a esse ramo da ficção. “Ela molda o entendimento do público a respeito de coisas como inteligência artificial e biotecnologia, que têm grandes chances de mudar nossas vidas e a sociedade mais do que qualquer outra coisa nas próximas décadas”, declarou à revista Wired.

    No Brasil, a ficção científica também é popular e relevante para a cultura como um todo. Entretanto, o que reverbera tende a ser a produção feita no exterior, principalmente a americana e, em grau um pouco menor, a britânica. Muito menos conhecida é a ficção científica criada no Brasil. É um universo que tem tradição, constância e pluralidade, mas com raras aparições entre lançamentos das editoras médias e grandes e com raros autores de projeção nacional.

    “A ficção científica no Brasil – um planeta quase desabitado”, escreveu o crítico e escritor Fausto Cunha, em um artigo de 1977, em que lamentava o isolamento do subgênero no país. Três décadas depois, o cenário era parecido. Em 2005, um simpósio realizado no Itaú Cultural chamado “Invisibilidade – Encontro de Ficção Científica” lotou horas de discussões “sobre vários aspectos relacionados à dificuldade de inserção da ficção científica literária e também cinematográfica junto ao mercado e o público em geral”.

    “Há décadas o Brasil vem produzindo obras-primas da ficção científica, mesmo não sendo (ainda) um grande produtor de ciência e tecnologia. Como isso é possível? Parece que ficou evidente que a ficção científica é antes de tudo ficção, ou seja, invenção literária”

    Nelson de Oliveira

    Escritor e organizador de "Fractais Tropicais"

    Lançada em dezembro de 2018, a coletânea “Fractais Tropicais”, organizada por Nelson de Oliveira (ed. Sesi-SP), é um mostruário de autores antigos e atuais que tenta reverter o que o organizador chama de “mais injusta e estúpida invisibilidade” do sci-fi nacional.

    O livro tem um caráter educador. Seus 30 contos, cada um de um autor ou autora diferente, são divididos de forma a explicitar as “ondas” do gênero no Brasil: 1961-1980, 1981-2000 e 2001-2020. Há também explicações sobre as várias subcategorias da ficção científica presentes na coleção e um histórico do gênero no país, que tem origem no século 19 com a obra "Doutor Beniguns", de Augusto Emilio Zaluar, de 1875.

    Entre os autores estão:

    Jeronymo Monteiro

    Nascido em 1908, foi um pioneiro do gênero no país com obras como “A Cidade Perdida”, de 1948, e “Os Visitantes do Espaço”, de 1963. Além de ter publicado contos e textos em revistas e jornais como O Cruzeiro e o Diário de São Paulo, foi editor do gibi “O Pato Donald”, lançado no Brasil pela Editora Abril, em 1950. O Dia da Ficção Científica Brasileira é comemorado no dia do seu aniversário, 11 de dezembro.

    Braulio Tavares

    Conhecido por sua pesquisa de literatura fantástica, o escritor paraibano tem na bibliografia trabalhos como o romance “A Máquina Voadora” e a coletânea de contos “A Espinha Dorsal da Memória”, de 1985. Tavares aparece em “Fractais tropicais” com “O Molusco e o Transatlântico”, em que um astronauta brasileiro é capturado por uma avançada espécie alienígena e se torna sua cobaia.

    Dinah Silveira de Queirós

    “Única mulher a integrar a primeira geração da ficção científica brasileira”, a autora paulista foi também a segunda mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Apesar de mais conhecida por seu romance “Floradas na Serra”, que não é de ficção científica, fez história no gênero pelo pioneirismo de obras como “Os Invasores” e “Eles Herdarão a Terra”, publicadas nas décadas de 1950 e 1960. Assim como muitos autores brasileiros, suas histórias expressavam uma desconfiança com relação à ciência e à tecnologia.

    Cristina Lasaitis

    Nascida em 1983, é uma das representantes da “terceira onda” da ficção científica no país. Com Robert Pinheiro, foi responsável pela organização dos três volumes da coletânea “A fantástica literatura queer”, com contos de temática LGBTI. Sua coleção de contos, “Fábulas do Tempo e da Eternidade”, de 2008, foi bem avaliada pela crítica. A edição traz o conto “Além do Invisível”, também incluído em “Fractais Tropicais”.

    O organizador de “Fractais Tropicais”, Nelson de Oliveira, conversou com o Nexo sobre o lançamento e o cenário da sci-fi nacional

    Você diz que a ficção científica brasileira é a “verdadeira literatura marginal” do país. Há preconceito, de leitores e da crítica acadêmica?

    Nelson de Oliveira De modo geral, a ficção científica sempre foi considerada um gênero de segunda categoria, principalmente pela crítica acadêmica formalista, que sempre valorizou mais a forma (linguagem) do que o conteúdo (enredo) das obras literárias. Mas a ficção científica, da mesma maneira que qualquer outro gênero literário, também já produziu muitas inegáveis obras-primas. O erro da maioria dos críticos é desconhecer as obras-primas da FC e avaliar o gênero a partir apenas de suas obras medianas ou medíocres. Ora, quando a crítica séria avalia um gênero artístico ou literário, ela precisa descartar as obras medianas e medíocres e analisar principalmente as grandes realizações nesse gênero. Esse é o famoso Postulado de Dickson: “Uma arte deve ser julgada pelo seu melhor, não pelo seu pior”. No Brasil, o preconceito contra a FC brasuca é ainda mais absurdo. O leitor brasileiro consome tranquilamente a ficção científica estrangeira, mas não prestigia a nossa FC. É o proverbial complexo de vira-lata: “se é brasileiro não pode ser bom”. É por isso que eu afirmo, na apresentação da antologia, que no Brasil a verdadeira literatura marginal é a ficção científica. Visite uma livraria, compre ingressos para a Flip, observe as listas do Jabuti e do Prêmio Oceanos e me diga se não é a FCB que está à margem da margem do nosso mercado editorial. A boa ficção social, sobre os oprimidos da periferia dos grandes centros urbanos, sempre é resenhada e premiada, e às vezes até vira filme ou minissérie. A boa ficção científica brasileira, jamais.

     

    Grandes produtores de ficção científica como EUA e Reino Unido são também países de ponta na pesquisa científica e no desenvolvimento tecnológico. Muitos dos temas abordados pela literatura sci-fi de lá estão mais presentes no cotidiano das pessoas. O fato do Brasil não ter essas características não estaria relacionado ao fato de não termos uma ficção científica local mais prolífica e popular?

    Nelson de Oliveira A FC é o único gênero que está tratando das questões mais urgentes de nosso tempo: engenharia genética, inteligência artificial, desequilíbrio ecológico etc. Talvez seja um problema de miopia seletiva. Tanto a crítica acadêmica quanto a jornalística estão com preguiça de se debruçar sobre obras que sempre estiveram fora de seu radar. Em meados do século 20, um dos sofismas que a crítica costumava usar pra depreciar a ficção científica brasileira era: o Brasil não é um produtor de ciência e tecnologia, consequentemente jamais será um produtor de boa ficção científica. Esse sofisma foi desmontado na prática. Há décadas o Brasil vem produzindo obras-primas da ficção científica, mesmo não sendo (ainda) um grande produtor de ciência e tecnologia. Como isso é possível? Parece que ficou evidente que a ficção científica é antes de tudo ficção, ou seja, invenção literária. Além disso, mesmo não vivendo num grande centro produtor de ciência e tecnologia, o escritor brasileiro é um compulsivo consumidor da ciência e da tecnologia produzidas fora do país. Então, durante a escritura de uma obra de FC, a curiosidade científica e a criatividade literária farão todo o trabalho.

    Em “Fractais Tropicais” há uma variedade de autores, temas e subgêneros. Dá para falar em algumas características gerais que permeiam a sci-fi brasileira?

    Nelson de Oliveira A ficção científica moderna, iniciada em 1818 com o romance “Frankenstein”, de Mary Shelley, é uma árvore com mais de trinta galhos ou subgêneros importantes. Na antologia “Fractais Tropicais” foram contemplados catorze subgêneros: cyberpunk, FC esotérica, FC exobiológica, FC hard, FC soft, imortalidade, inteligência artificial, new weird, primeiro contato com aliens, realidade paralela, FC satírica, space opera, FC ufológica e viagem no tempo. Os autores e os assuntos são bastante diversificados. Não acredito que exista uma característica única, que defina a FC brasileira. Mas posso dizer que as ficções que mais me agradam costumam expressar os conflitos e os dilemas tipicamente brasileiros: a miscigenação, as injustiças sociais, a riqueza ecológica, a corrupção na política, a luta contra o racismo, o sincretismo religioso, o erotismo tropical etc. Muitas dessas questões foram tratadas maravilhosamente bem, por exemplo, nas ficções futuristas de André Carneiro, Fausto Fawcett, Braulio Tavares e Ivan Carlos Regina, quatro de meus autores prediletos, presentes na antologia.

    Que tipo de personagens interessantes o leitor vai encontrar em “Fractais Tropicais”?

    Nelson de Oliveira Nos trinta contos da antologia, o leitor encontrará uma galeria enorme de personagens incomuns vivendo conflitos inquietantes. Por exemplo: um casal de namorados flanando numa metrópole imaginária, um geômetra preso num sólido geométrico fantástico, um soldado humano no centro de uma guerra alienígena, um homem com quatro séculos de vida, um viajante do tempo que ao retornar ao passado se apaixona por si mesmo, uma criatura-máquina extraterrestre capaz de se transformar numa gigantesca mulher, duas cidades conscientes que se movem na planície e fazem amor, um(a) terrorista que é simultaneamente homem e mulher, e muito mais.

    Há uma presença significativa de mulheres na terceira onda da ficção científica brasileira, sendo que antes praticamente não havia mulheres. Ainda é uma área muito desigual em termos de gênero?

    Nelson de Oliveira Totalmente desigual, infelizmente. Em seus duzentos anos de história, apesar de ter sido iniciada por uma mulher, Mary Shelley, a moderna ficção científica se tornou uma instituição masculina e, por vezes, machista. O primeiro romance de FC escrito por uma mulher, no Brasil, foi “A Rainha do Ignoto”, de Emília Freitas, publicado em 1899. Esse foi o período dos precursores. A principal autora da primeira onda da FCB (anos 60 e 70) foi Dinah Silveira de Queiroz. Na segunda onda (anos 1980 e 1990) temos a talentosa Finisia Fideli. Na terceira onda (de 2000 até hoje) a presença de escritoras é, felizmente, bem mais significativa: Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybylla e Márcia Olivieri estão na antologia “Fractais Tropicais”, ao lado de Andréa del Fuego, que flerta esporadicamente com o gênero. Há também mais uma dúzia de jovens autoras talentosas que não entraram nessa seleta de contos porque ainda estão no início da carreira. Outra participação importante, na antologia, é a de Alliah, talvez a primeira pessoa trans não-binária de nossa ficção científica.

    As oportunidades de divulgação e publicação proporcionadas pela internet, passando ao largo dos canais tradicionais, têm sido aproveitadas por autores da sci-fi brasileira?

    Nelson de Oliveira A internet é uma poderosa ferramenta de divulgação e publicação, e os autores e pesquisadores de FCB logo aprenderam a usá-la intensamente. A revista online Trasgo, por exemplo, tem feito muito sucesso entre os aficionados, publicando ficções inéditas e entrevistas com veteranos e iniciantes. Também os blogues Almanaque da Arte Fantástica Brasileira e Ficção Científica Brasileira, que publicam regularmente resenhas dos bons livros brasucas de FC, conquistaram um número expressivo de seguidores. Graças à revolução da informática, a quantidade de autores escrevendo e publicando sci-fi no Brasil nunca foi tão grande, e a maior parte dessa produção só existe online. O mais difícil está sendo separar o lixo do luxo, mas essa sempre foi a situação de toda a literatura nacional e mundial, incluindo a chamada literatura erudita. Afinal, segundo a Lei de Sturgeon: “noventa por cento de qualquer coisa é lixo”.

     

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