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O conhecimento indígena sob ataque, segundo este pesquisador

Saberes de povos indígenas, historicamente influentes para a cultura brasileira, correm riscos quando terras são invadidas ou retiradas, diz o arqueólogo Eduardo Góes Neves

 

Os primeiros dias do governo de Jair Bolsonaro registraram diversos ataques a comunidades e terras indígenas. Entre eles, estão invasões a terras dos Uru-eu-wau-wau, em Rondônia, e dos Awá Guajá, no Maranhão. Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), as declarações de Bolsonaro, antes e depois da posse, têm funcionado como incentivo para que se invista contra territórios indígenas.

Com a transferência da Funai (Fundação Nacional do Índio) para o Ministério da Agricultura, existe preocupação de quem atua em questões indígenas com o futuro das terras indígenas, em especial as mais de 200 que ainda estão em processo de demarcação. Em entrevista dada em Brasília em 18 de janeiro, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, falou em não permitir invasões e proteger aldeias isoladas, mas também que deveria ser permitida a produção agrícola comercial nas terras indígenas, ideia criticada por estudiosos da área.

“É um tipo de conhecimento cujo desaparecimento é muito ruim, principalmente agora, com o mundo em que estamos vivendo, sentindo e percebendo com mais intensidade a mudança climática.”

Eduardo Góes Neves

Arqueólogo, Museu de Arqueologia e Etnologia da USP

Não são apenas extensões de terra ou modos de vida tradicionais que correm risco quando se desloca ou se modifica o uso de terras ocupadas por populações tradicionais. Existe também um acúmulo de conhecimento de cada povo ou comunidade que fica ameaçado. São saberes que vão desde informações sobre uso de plantas a modos de preservar o meio ambiente em uma área.

“O arrendamento da terra [conforme proposto pelo governo Bolsonaro] é como tirar todo o conhecimento tradicional que estes povos têm, toda a tradição que têm no resguardo da floresta”, explicou Carlos Nobre, cientista e pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em entrevista ao UOL.

Em 2014, um comunicado da Plataforma para Biodiversidade e Serviços do Ecossistema das Nações Unidas enfatizou que o conhecimento das comunidades indígenas de várias regiões tinha utilidade para áreas como agricultura, manejo florestal e exploração dos oceanos, assim como para cumprir as metas da biodiversidade global.

“Os povos da floresta são detentores de bancos genéticos e promotores de novas variedades de agricultivares”, escreveu Mauricio Torres, doutor em Geografia Humana pela USP, em artigo de 2011 intitulado “A despensa viva: um banco de germoplasma nos roçados da floresta”, em que questiona a perda dessa diversidade agrícola frente à “uniformidade” do agronegócio. Em seu trabalho, Torres pontua que em comunidades, em que a história se baseia na transmissão oral, há uma “memória coletiva” interligada com a paisagem e a geografia de suas regiões.

Para Eduardo Góes Neves, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (Universidade de São Paulo), autor de “Arqueologia da Amazônia” e coautor de “Unknown Amazon: Culture in Nature in Ancient Brazil” (Amazônia desconhecida: cultura na natureza no Brasil antigo, em tradução livre), desperdiçar esse patrimônio implica um grave problema ético. “Esse arranjo que compõe a diversidade do planeta tem milhares de anos e a nossa geração não tem o direito de acabar com isso”, afirmou ao Nexo, por telefone.

Leia a entrevista completa abaixo.

Quando se extingue ou se altera o território de um povo indígena, quais os riscos para o conhecimento que ele acumulou?

Eduardo Góes Neves Corre o risco é de desaparecer também. Esse processo geralmente é muito violento e truculento e o processo de transmissão desse conhecimento também é demorado, é um diálogo que as sociedades vão construindo ao longo do tempo. A gente sabe de populações que têm contato há muitos anos com a sociedade nacional, mas que têm conhecimentos que ficam guardados naquele âmbito. E se formos pensar no conhecimento sobre bichos, dos ciclos da natureza, por exemplo, isso é muito importante diante dos desafios que temos pensando em lugares como na Amazônia, que a gente ainda nem conhece direito e estamos ocupando de maneira totalmente errada. É um tipo de conhecimento cujo desaparecimento é muito ruim, principalmente agora, com o mundo em que estamos vivendo, sentindo e percebendo com mais intensidade a mudança climática.

Quando se fala em conhecimento indígena, pensamos primordialmente em plantas. O que mais a gente pode considerar?

Eduardo Góes Neves É uma maneira diferente de olhar para o mundo. Cada maneira de olhar que é diferente da que consagramos, a tradição intelectual judaico-cristã, tem de ser respeitada pelo seu próprio valor. A gente fala de ontologias diferentes, maneiras de olhar para o mundo, de pensar a existência. Compartilhamos o mesmo planeta, mas somos populações com histórias culturais diferentes, então vivemos o desafio de aceitar essa unicidade que é biológica, mas ao mesmo tempo de respeitar todas as manifestações culturais, assim como as outras formas de vida que estão aqui, e não só humanas, mas animais, plantas. Claro que o conhecimento sobre a natureza é importante, mas estamos falando de um conhecimento sobre o mundo em geral, sobre o universo, no sentido mais amplo. Mas essa discussão não pode ser apenas utilitária, porque esses caras têm uma solução para os problemas que criamos no mundo. Claro que é importante, é legal saber para poder usar e aplicar, mas tem uma questão mais de fundo, de justiça. As sociedades ocidentais tem a força bélica, mas não temos o direito de fazer isso, se formos pensar num sentido mais profundo. Esse arranjo que compõe a diversidade do planeta tem milhares de anos e a nossa geração não tem o direito de acabar com isso, de zerar esse relógio.

Você pode falar um pouco mais sobre como o conhecimento indígena colabora para manter a biodiversidade?

Eduardo Góes Neves  Uma coisa vai ficando cada vez mais clara: uma parte dessa biodiversidade da Amazônia foi formada por humanos, por uma interação entre humanos e não-humanos, plantas e animais, ao longo dos últimos 10, 12 mil anos. O que se percebe em populações tradicionais, não só indígenas, mas quilombolas também, e populações ribeirinhas, é o interesse em estimular a diversidade, experimentar plantas diferentes, plantar, colher, trazer para o quintal, ver para que serve, ver como funciona. Um exemplo: trabalhamos com restos de plantas preservadas arqueologicamente e temos de fazer coleções de referência para comparar, por exemplo, [vestígios de] plantas antigas com modernas para poder classificá-las. Percebemos que mais de 90% das plantas que encontramos não sabemos ainda quais são. Significa que estamos vislumbrando só uma parte inicial desse conhecimento. Esse processo de produção, de aumentar a biodiversidade, é muito interessante, mas o que temos oferecido para a Amazônia nos últimos anos é justamente o oposto: é reduzir a diversidade, é não saber manejar. E fazemos isso de uma maneira tecnologicamente muito avançada e máquinas super-modernas, como a gente vê lá no Cerrado, substituindo a biodiversidade por algumas poucas espécies de plantas e animais.

Como vê o discurso que encara os indígenas como “animais no zoológico”, como se em estágio “inferior” ao do homem branco?

Eduardo Góes Neves  Existe aí uma espécie de racismo ambiental, porque a gente vem de uma tradição intelectual forjada em países nórdicos, de clima temperado, na Europa e na América do Norte, que tem um contexto geográfico e ecológico totalmente diferente e que vê as regiões tropicais como insalubres, marginais, periféricas, que tem de ser aprimoradas. Lembro quando descobri que a malária não era uma doença tropical em uma visita ao Instituto de Medicina Tropical, mas existia malária na Europa até o século 20, nos Estados Unidos também. O conceito de doença tropical não é natural, mas sim social, que tem a ver com pobreza, com o contexto dos trópicos. Existe uma relação de colonialismo interno que funciona da mesma maneira. Nosso discurso sobre a Amazônia é sempre de que ela tem de ser aprimorada, desenvolvida, ocupada, a partir de critérios que não têm nada a ver com essas regiões e que não respeitam populações que vivem lá há séculos, milhares de anos, e que desenvolveram formas de vida interessantes para esse tipo de ambiente.

Faz sentido, no contexto atual, desvalorizar o conhecimento indígena para poder usar como justificativa [de ocupar suas terras]. Ninguém está preocupado com o país, se trata de negócios, tem muito dinheiro potencialmente disponível nessas terras. O paradoxal é que são terras públicas. É um discurso cínico: eles querem privatizar terras públicas dizendo que é pelo interesse nacional. Como é que uma terra pública pode ser contra o interesse nacional?

Olhando historicamente, qual o tamanho da influência do conhecimento indígena na cultura e sociedade brasileiras?

Eduardo Góes Neves  Veja as matas de pinhão no sul do Brasil, por exemplo. Temos evidências de que são antrópicas, de que foram manejadas pelos ancestrais dos indígenas caingangue. Temos evidências de que o símbolo do estado do Paraná, a araucária, compõe matas que ganharam mais extensão pelo manejo humano, o que chamamos de domesticação da paisagem. A mandioca todo mundo sabe, mas tem a castanha, pupunha, amendoim, cacau, goiaba, tabaco, o açaí, que virou um produto de exportação, que gera muito dinheiro no norte do Brasil. É uma planta manejada há muito tempo. Saindo da Amazônia, temos exemplos como a batata, que é uma planta andina. Hoje, se pensamos em comida alemã e inglesa logo pensamos em batata. Tem muita planta consumida no mundo inteiro que resultou desse processo de manejo e seleção realizado por povos indígenas que vivem no continente americano há muito tempo. Esse conhecimento não funciona da mesma maneira que o método científico, mas ele vem de uma curiosidade que reflete uma forma de conhecimento que é sofisticada também. Desprezar isso tem uma questão ética, mas é também uma grande estupidez. É uma catástrofe.

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