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Fotógrafa e ativista dedicou boa parte da vida a registrar e interpretar a cultura yanomami. Assumiu também papel destacado na defesa do povo indígena a partir da década de 1970

Quando chegou ao Brasil em 1955, Claudia Andujar ainda não falava português. Algum tempo depois, quando fez sua primeira visita ao povo Yanomami, em 1971, já dominava o idioma — mas não compreendia nada da língua indígena, nem eles falavam a língua portuguesa.

A fotografia foi a linguagem assumida — com cautela e respeito — por Andujar para se aproximar, se comunicar e compreender aqueles com quem travou contato.

O percurso artístico e político de Andujar junto aos Yanomami aparece reunido na exposição retrospectiva “Claudia Andujar – A luta Yanomami”, de 20 de julho a 10 de novembro de 2019, no IMS Rio, na capital carioca. A mostra, que já passou por São Paulo, apresenta cerca de 300 obras e uma instalação, além de livros e documentos da artista.

 

A trajetória de Claudia

Nascida na Suíça em 1931, Claudia Andujar cresceu em Oradea, na fronteira entre a Romênia e a Hungria, onde vivia sua família paterna, de origem judaica.

Em 1944, a perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial obrigou-a a fugir com a mãe para a Suíça. As duas sobreviveram, mas toda a família paterna foi morta nos campos de concentração.

Logo depois, Andujar emigrou sozinha para os Estados Unidos, indo morar com um tio em Nova York. Em 1955, veio ao Brasil para reencontrar a mãe, e decidiu se estabelecer no país.

Aqui deu início à carreira de fotógrafa. Ao longo das décadas seguintes, percorreu o país e colaborou com revistas nacionais e internacionais, como Life, Look, Cláudia e Quatro Rodas. A partir de 1966, começou a trabalhar como freelancer para a revista Realidade.

“[Ser uma sobrevivente] a marcou profundamente. Desde o começo da carreira, ela se interessou por povos que eram vulneráveis, por grupos marginalizados ou discriminados. A infância criou nela um senso ético, de respeito à vida, que fez com que ela tentasse, através da fotografia, conhecer e proteger as pessoas, mas também fazer as pazes com a própria culpa de ter sobrevivido a essa tragédia. Acho que isso colocou nela uma missão de tentar salvar quem ela pudesse”, disse o curador e coordenador da área de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles, Thyago Nogueira, em entrevista ao Nexo.

Em 1971, quando completou 40 anos, fez sua última colaboração com a revista Realidade em uma edição especial sobre a Amazônia. Foi neste mesmo ano que esteve pela primeira vez na terra Yanomami, encontro que marcaria definitivamente sua trajetória. 

A fotógrafa conviveu por longos períodos com os Yanomami na região do Catrimani, em Roraima. Fez retratos, registrou seu cotidiano e produziu, através da fotografia, uma interpretação visual potente dos rituais xamânicos.

Em 1977, foi expulsa e impedida pela Funai (Fundação Nacional do Índio) de voltar à área indígena. Daí em diante, os planos do governo militar de “desenvolvimento” da Amazônia e o garimpo introduziram um rastro de doenças, violência e poluição que aniquilou comunidades indígenas inteiras.

Andujar passou a mobilizar organizações nacionais e estrangeiras, levantar fundos e escrever manifestos. Sua fotografia começou a evidenciar mais explicitamente esse engajamento, tornando-se instrumento de denúncia.

Ela desenvolveu, ainda, programas de saúde e educação indígenas e lutou durante mais de uma década junto a outros ativistas pela aprovação da demarcação contínua da terra Yanomami no Congresso, obtida em 1992.

O contexto da ameaça aos direitos indígenas

Em 2 de janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro publicou no Diário Oficial uma medida provisória que redefine o órgão autorizado a demarcar terras. A atribuição, que até então era da Funai, passa a ser conduzida pelo Ministério da Agricultura.

Ainda durante a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro havia manifestado a intenção de interromper a demarcação de terras indígenas, e de rever demarcações já existentes.

Idealizada a princípio com propósito histórico, a exposição de Claudia Andujar ganhou uma dimensão urgente com a definição da nova política, segundo o curador Thyago Nogueira.

“Agora, mais do que simples homenagem, gostaria que a exposição mobilizasse as pessoas a se aproximarem da questão, a entenderem melhor do que estamos falando, de quem são os povos indígenas e o que podemos fazer para defendê-los”, disse.

Claudia Andujar falou ao Nexo em seu apartamento em São Paulo, sobre seu trabalho fotográfico, o contato com os Yanomami e a continuidade da defesa das populações indígenas.

Como a senhora se tornou fotógrafa?

Claudia Andujar Eu nasci na Suíça e me criei na Hungria. Durante a Segunda Guerra Mundial, minha mãe e eu fugimos de lá. Meu pai e toda sua família morreram num campo de concentração. Como minha mãe e eu éramos de origem suíça, quando a gente deixou a Hungria ela pensou que seria bom voltarmos para lá.

Eu tinha um tio, irmão do meu pai, que soube que sobrevivi e que estava na Suíça, então me perguntou se eu queria ir para os Estados Unidos, se eu gostaria de morar com ele e sua mulher. Eu aceitei. Tinha 13 anos. Fui para Nova York, morei na casa do meu tio, me colocaram na escola. A certa altura, decidi que queria viver sozinha e deixei a família.

Fiquei uns anos nos Estados Unidos, depois soube que minha mãe havia decidido vir para o Brasil, em São Paulo. Ela me mandou uma carta, perguntando se eu também queria conhecer o país. Eu falei que sim.

Então vim para São Paulo e gostei muito do Brasil. Eu gostei muito das pessoas, achei-as mais abertas, me senti mais próxima delas do que do pessoal dos Estados Unidos.

Com isso, decidi morar no Brasil e estou aqui até hoje. Quis conhecer melhor o Brasil e os brasileiros. Eu dava aulas de francês em uma escola, e, ao mesmo tempo, comecei a viajar, primeiro ao redor de São Paulo, pelo litoral, e depois sempre mais longe. Acontece que conheci o [antropólogo] Darcy Ribeiro e ele sugeriu que eu tentasse conhecer também os povos indígenas.

Eu comecei a fotografar porque não falava português, tinha dificuldades de comunicação. Era a minha maneira de me comunicar com as pessoas. Foi assim que comecei a fotografar. Eu não tinha estudos [em fotografia] ou alguma coisa que me ligasse academicamente à fotografia. Mas me satisfazia fotografar e mostrar às pessoas o que eu tinha feito. Na verdade, é por isso que depois continuei sempre a fotografar mais e mais.

 

Gostaria que a senhora contasse como foi seu primeiro encontro com os Yanomami. O que a fez querer voltar?

Claudia Andujar Como falei, comecei a conhecer também os povos indígenas. Os primeiros povos foram os karajá, os bororo. Eu ficava um tempo nesses lugares e voltava para São Paulo. Mas tinha um desejo de ir mais longe.

Eu tinha um amigo suíço que tinha acabado de voltar de uma viagem com os Yanomami, que moram na Amazônia. Ele sugeriu que eu tentasse ir lá. Foi assim. Lá, decidi ficar o tempo que precisasse para conhecê-los como povo e, depois, fotografá-los. Eu gostei muito de conhecê-los e decidi ficar um tempo indefinido.

 

O que a agradou nos Yanomami?

Claudia Andujar Obviamente, eu não entendia nada do que eles falavam. Mas eles eram sempre muito gentis, especialmente as mulheres: vinham perto de mim, me acariciavam. Virei um pouco parte das famílias deles.

 

O que a senhora aprendeu no contato e convivência com eles?

Claudia Andujar Que, dependendo da maneira com que você se aproxima deles, eles também se aproximam de você.

Que tipo de relação a senhora estabeleceu com os Yanomami? Como era fotografá-los?

Claudia Andujar Eu não fui lá pensando na fotografia. A fotografia era uma coisa que eu fazia, mas entendi que primeiro teria que conhecê-los. Então eu tentei uma aproximação, comecei a viajar com eles conforme visitavam outros grupos. Para entendê-los como gente, como seres humanos e depois, se quisesse, fotografá-los. Não é que fui lá com a máquina para logo começar a fotografar.

Eles não sabiam o que era uma máquina fotográfica, o que eu estava procurando ao olhar sempre para eles através de uma máquina. Mas, como a gente se deu bem, como seres humanos, como amigos, não foi difícil de fotografar.

 

Eu passava muito tempo lá. Não é que ia lá por uma semana e voltava. No começo, fiquei pouco tempo, mas depois, cada vez mais tempo.

Eles se acostumaram ao fato de eu sempre estar lá com essa máquina. Não é que falavam “ela está tirando uma imagem”. Não entendiam bem. Só mais tarde, quando eu já tinha uma seleção de imagens, tinha voltado para São Paulo e revelado as fotos, eu as levava para mostrar. No começo, eles não entendiam que eram eles. Não se reconheciam.

 

Quais eram as dificuldades técnicas de se fotografar na floresta?

Claudia Andujar Eu diria que era a luz. Dentro da maloca, a casa em que os índios moravam, havia pouca luz. Isso foi uma coisa que eu tinha que ver como iria contornar e aproveitar as luzes. Isso aconteceu tanto dentro da casa deles como na floresta, porque eu também não estava acostumada a fotografar na floresta.

Como seu trabalho jornalístico e artístico se tornou mais diretamente engajado? Por que isso aconteceu?

Claudia Andujar A abertura que eu tinha com o povo me deu a possibilidade de também entender o sentido da vida deles e isso era o que eu queria transmitir, fotograficamente.

Um lugar como São Paulo é totalmente diferente [da terra yanomami], assim como as pessoas, apesar do fato de que o ser humano é um — mas, de acordo com a cultura, onde vive e o que faz na vida, tenta viver, sobreviver e facilitar sua vida. É isso que também me interessava, tentar, através da imagem, mostrar essas coisas.

[O engajamento] aconteceu porque, na época em que eu estava lá fotografando, o governo brasileiro decidiu que queria “conhecer” a região da Amazônia, que não conhecia muito por ser distante.

O que fez suas fotografias reverberarem politicamente?

Claudia Andujar Eu não sei como responder sua pergunta. [pausa longa] A uma certa altura, eu vi que o governo estava querendo ocupar toda essa área. Foi lá, vendo isso, que eu decidi tentar, politicamente, ajudá-los. Meu trabalho estava muito ligado à questão de conseguirem o reconhecimento da terra deles como sendo deles.

Mas acho que esse trabalho, na época, foi feito mais através da minha relação com a situação política, indo para Brasília, tentando contatar pessoas do governo, do que através da fotografia. Isso foi muito importante e continua sendo importante.

Mas, uma vez que voltei a viver em São Paulo, comecei também a retrabalhar sobre a questão da minha fotografia. E consegui a publicação de livros, fazendo conhecer os yanomami não só no Brasil, mas também fora. Tudo isso, depois, virou uma linguagem importante, sim.

A senhora foi vigiada e ameaçada pelo Serviço Nacional de Informações durante a Ditadura Militar. Como foi esse período?

Claudia Andujar Na verdade, eu nunca sabia se conseguiria continuar essa aproximação que eu vinha fazendo com pessoas do governo. Eu tentei. A gente até conseguiu que o governo demarcasse a terra deles. Eu também fotografava, mas acho que, na época, não foi através da fotografia que eu consegui isso. A certa altura eu fui expulsa da terra yanomami pelo governo.

 

Expulsa como, exatamente?

Claudia Andujar Veio uma pessoa que trabalhava no governo, na Funai, e me falou “olha, a gente não entende o que você está fazendo aqui. Você vai ter que ir embora. Faça sua mala e a gente vai sair do território yanomami e você volta para o lugar de onde você veio”. Eu não tinha como resistir a isso. Eu fui realmente levada pelo avião com o qual essa pessoa chegou, voltei junto com ele. Isso foi em 1977. 

Quando foi sua última visita à terra Yanomami? O universo Yanomami que você fotografou segue vivo, preservado?

Claudia Andujar Foi há um ano. Mas antes disso, já tinha voltado. Eles continuam sempre a ser ameaçados. Há muitos garimpeiros que entraram lá e trabalham tirando ouro e minérios. Isso obviamente influi muito na vida deles. Depois que fui expulsa de lá, nunca mais voltei para ficar como ficava antes. Não tinha como. Mas a gente conseguiu a demarcação da terra deles. Até hoje, oficialmente, está demarcado, mas está muito invadida pelos garimpeiros. 

 

Como a senhora vê a situação vivida hoje no Brasil pelas populações indígenas? Ela difere do extermínio contra o qual a senhora lutou na década de 1970?

Claudia Andujar Tem muitas terras indígenas no Brasil, depende um pouco de qual desses lugares estamos falando. O presente governo não tem interesse na questão indígena. É um problema. Bolsonaro já declarou que a demarcação da terra yanomami é muito grande, que teria que mudar. Foi uma coisa que me impressionou. É preciso respeitá-los como seres humanos.

Há algo que a senhora gostaria de dizer hoje àqueles que vão dar continuidade a essa luta?

Claudia Andujar A gente tem que ter muito... [risos] Tem que saber dialogar. Acho importante. O fato de eu agora estar dando muitas entrevistas por causa da exposição, espero que seja importante para conseguir mais respeito [às populações indígenas] da parte do governo. Eu espero.

Não pode ser simplesmente tudo só negativo. É preciso saber se aproximar. Acho que, se a gente quer chegar a algum lugar, temos que continuar. Eu vou continuar a lutar para conseguir mais abertura para transmitir a importância desses povos e para que haja possibilidade de eles também falarem. Não se pode sempre falar em nome deles. Enquanto eu puder, vou continuar.

Fotos de Claudia Andujar

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