Esta executiva quer igualdade de gênero na indústria musical

Em entrevista ao ‘Nexo’, Vanessa Reed, a mulher à frente da PRS Foundation, fala sobre desigualdades no meio musical e estratégias para combatê-las

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    Desde 2011, a executiva britânica Vanessa Reed vem combatendo a desigualdade de gênero na indústria musical em múltiplas frentes.

    Diretora da Fundação PRS, ela comanda o programa internacional Keychange, que investe no desenvolvimento de artistas mulheres e profissionais inovadoras no ramo musical, além de vir firmando, com mais de cem festivais do mundo todo, o compromisso de alcançar a paridade de gênero na programação até 2022.  

    O pacto foi assinado pelos brasileiros No Ar Coquetel Molotov (PE), Rio Music Market (RJ), Subtropikal Festival (PR) e pela Semana Internacional da Música de São Paulo.

    No final de setembro de 2018, Reed foi declarada pela BBC a terceira da “The Woman’s Hour 2018 Power List”, que elege desde 2013 as 40 mulheres com maior impacto sobre a música que estamos ouvindo. O primeiro e segundo lugares foram ocupados, respectivamente, pelas artistas Beyoncé e Taylor Swift.

    A lista é um desdobramento do programa de rádio Woman’s Radio, da BBC do Reino Unido.

    Em São Paulo para participar da sexta edição da Semana Internacional de Música, Reed falou ao Nexo sobre a desigualdade de gênero nos festivais e na indústria da música, sobre o que melhorou desde que começou a trabalhar a questão e o que é necessário para continuar a avançar.

    Realizada entre 5 e 9 de dezembro de 2018 no Centro Cultural São Paulo, a programação da Semana Internacional de Música de São Paulo é um misto de painéis, workshops e apresentações musicais de estilos variados.

    Como você avalia a desigualdade de gênero nos festivais de música pelo mundo hoje?

    Vanessa Reed Acho que estamos em um momento positivo, porque ignorar as desigualdades não é mais uma opção. Campanhas nas redes sociais têm chamado atenção para o fato de que o público quer algo diferente e muitos dos festivais [que participam] do nosso programa, o Keychange, já mostraram que é possível promover festivais bem sucedidos, com participação equilibrada entre os gêneros, sem prejuízo para a qualidade.

    Você teve a oportunidade de analisar o cenário brasileiro? Algo chamou sua atenção?

    Vanessa Reed Até o momento, minha única experiência com a cena brasileira foi conhecer representantes e organizadores de festivais brasileiros no Reino unido (incluindo o SIM) que estavam muito entusiasmados com o nosso programa, o Keychange. O SIM assinou nosso compromisso de equilíbrio de gênero.

    O que chamou minha atenção foi a vontade deles de mudar as coisas, e o desejo de envolver mais festivais brasileiros e sul-americanos nessa ação coletiva voltada para a mudança, o que é muito positivo.

    O que melhorou desde que a fundação começou a trabalhar nessa frente, em 2011? Estamos hoje em um momento mais favorável para as mulheres na música?

    Vanessa Reed Sim, sem dúvida. Quando lançamos o fundo UK Women Make Music, em 2011, o debate sobre as mulheres na música não recebia tanta atenção e algumas pessoas realmente não gostavam da ideia de um fundo somente para mulheres.

    Agora, as pessoas reconhecem que o investimento direcionado a grupos subrrepresentados é crucial em uma fase de transição rumo à igualdade que irá beneficiar a todos. 

    Os festivais estavam abertos à ideia de assinar um compromisso com a paridade de gênero? Como foi a negociação?

    Vanessa Reed Sim, muitos festivais vieram até nós perguntando como poderiam integrar o compromisso [com a paridade de gênero], antes mesmo de serem abordados por nós. Inicialmente, não tínhamos planejado promovê-lo como um parâmetro internacional, foi, em muitos sentidos, um movimento popular. 

    Aversão à mudança, mão de obra dominada por homens e falta de disposição para correr riscos são três grandes obstáculos à diversidade entre os headliners

    Agora que está estabelecido, claro que abordamos os festivais [sobre o compromisso] com os quais nos reunimos, mas o boca a boca foi o maior impulsionador por trás dos mais de 140 festivais que assinaram o pacto.

    Qual o maior obstáculo para alcançar um número maior de artistas mulheres e headliners [atrações principais] em festivais?

    Vanessa Reed Aversão à mudança, mão de obra dominada por homens [no meio musical] e falta de disposição para correr riscos quando se trata de atrações principais são três grandes obstáculos ao meu ver.

    Muitas pessoas também apontam a “cadeia de talentos” [como obstáculo]. Concordo que precisamos encorajar o maior número possível de mulheres a seguir carreira na música e investir nessas etapas iniciais.

    No entanto, ao fazermos isso, continua sendo crucial promover mais mulheres que já fazem parte da indústria musical para posições de maior relevo. Caso contrário, não há modelos e histórias de sucesso suficientes para inspirar a próxima geração.

    Como rebater as justificativas de organizadores de festivais que afirmam estar sujeitos à disponibilidade dos artistas ou que poucas atrações femininas vendem muito ingresso?

    Vanessa Reed  Amplie suas redes, tenha uma equipe mais diversa, olhe além, peça ajuda, dê uma margem de tempo maior para encontrar substitutos para aqueles que não estão disponíveis e corra mais riscos.

    Veja o que aconteceu quando a Florence and the Machine acidentalmente se tornou atração principal do [Festival de] Glastonbury, quando o Foo Fighters teve que cancelar [em 2015]. Fizeram o melhor show do festival.

     

    Imagino que a igualdade nos festivais de música seja apenas a ponta do iceberg. Onde mais você vê desigualdade na indústria da música?

    Vanessa Reed Com exceção da comunicação e do marketing, as desigualdades estão praticamente em todo lugar quando se chega a cargos mais altos.

    O estúdio de gravação e as equipes de backstage também são muito dominadas por homens (2% das 300 músicas mais populares nos Estados Unidos foram produzidas por mulheres, segundo uma pesquisa recente).

    Por isso tem havido tanta discussão sobre incentivar jovens produtoras e engenheiras de som. Quanto aos desafios no backstage, é por isso que artistas mulheres como a [cantora e compositora] Kate Nash decidiram sair em turnê com uma equipe formada somente por mulheres.

    Quais são as raízes dessa desigualdade?

    Vanessa Reed  A música não está sozinha no tocante às desigualdades, mas é muito pior do que as pessoas imaginam. Há mais mulheres hoje nas diretorias do setor financeiro do que nas associações comerciais da indústria da música.

    Precisamos, na origem do problema, romper com padrões tradicionais e estereótipos desde cedo na educação, para que meninas jovens e mulheres possam se ver na total amplitude de papéis disponíveis para quem quer uma carreira na música.

    Ao mesmo tempo, precisamos garantir que mulheres consigam manter carreiras na indústria e que questões mais amplas, sobre creches e condições de trabalho, sejam abraçadas tanto por homens quanto por mulheres.

    Campanhas, investimento dirigido e mudança nas políticas na indústria também são cruciais para que abordemos as questões de cima tanto quanto as de baixo. [A obrigação de] informar a desigualdade salarial no Reino Unido é um bom exemplo de legislação governamental que ajudou a inaugurar o debate acerca das oportunidades existentes para as mulheres, em grandes empresas do ramo musical.

     

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