O que mudou para este professor, 3 anos após ser alvo de racismo

Ofensas contra docente da Unesp de Bauru escritas em parede de banheiro, em 2015, deram origem a ações contra a discriminação

 

Em julho de 2015, as paredes de um banheiro masculino da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru, no interior de São Paulo, amanheceram pichadas com frases racistas. Algumas delas eram endereçadas ao professor do curso de jornalismo Juarez Tadeu de Paula Xavier, que é militante do movimento negro. Era a primeira vez que ele via ofensas como aquelas escritas contra si, afirmou à época.

Nascido em São Paulo, Juarez é filho de uma empregada doméstica. Seu pai, ex-presidiário, foi assassinado. Com apenas oito anos, começou a trabalhar numa banca de jornal. Foi quando teve o primeiro contato com o jornalismo. “O dono exigia que a gente lesse. Me lembro de ter visto uma reportagem sobre os Black Panthers [Panteras Negras] na revista ‘Realidade’”, disse ao jornal Folha de S.Paulo, em 2015.

Ele trabalhou como ajudante geral numa fábrica e como agente administrativo no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), antes de entrar no curso de jornalismo na PUC. Envolveu-se com os movimentos estudantil e sindical. Mestre e doutor em comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), passou a dar aulas em 2000.

Mais de três anos após o episódio das pichações, o Nexo ouviu o professor para saber o que mudou na rotina da universidade desde então.

As ações para a diversidade

“O episódio deflagrou uma série de ações contra a violência racial e a segregação na universidade. Nós criamos o Educando para a Diversidade, em todas as 34 unidades da Unesp em 24 cidades, que tem como objetivo criar a cultura de paz e o enfrentamento dessas questões.

Há, por exemplo, um curso de formação de ouvidores para aprender a lidar com a diversidade. Também atuamos na produção de conteúdo. Fizemos dez programas exibidos na TV Unesp, com temas específicos como o racismo, a violência contra a mulher, a questão indígena.

O episódio estimulou o debate e impulsionou a política de combate ao racismo, com a criação de protocolos internos. O objetivo era institucionalizar as políticas, porque não pode ser apenas uma atividade isolada, e isso foi o grande ganho daquele movimento.”

O autor das pichações

“A unidade nunca conseguiu identificar o autor das pichações. Nós tínhamos, na época, dois braços de ação. Um era o legal. Isso aqui é um crime e deve ser combatido como tal.

Mas outro braço tinha um caráter didático e pedagógico. Passamos a desenvolver uma série de atividades com o Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp [o órgão faz uma série de recomendações sobre como promover os direitos humanos nas universidades] para ampliar o debate político. Fizemos vários debates, estive recentemente discutindo o tema, por exemplo, na unidade de São Vicente e em Rio Claro.”

Novos episódios

“Depois do que aconteceu em 2015, não tivemos nenhum outro ato massivo de racismo. Nós decidimos que seríamos intolerantes com a intolerância.

Na unidade em Rio Claro, apareceu uma pichação em alusão à violência contra a mulher. Independente do tamanho da manifestação, a gente tem que se pronunciar. Temos fatos isolados em relação a mulheres, gays, negros, lésbicas, mas nada de forma massiva como o de 2015, e quero crer que nossas ações tenham coibido essas manifestações de forma mais articulada.”

As parcerias

“Sou responsável pelo Educando para a Diversidade. Nós buscamos parcerias para desenvolver atividades. Levantamos as empresas que têm políticas de diversidade e solicitamos apoio a elas. Conseguimos um convênio com o banco Santander, que tem como objetivo desenvolver atividades para o enfrentamento do problema na universidade [como fóruns de debates, grupos e editais de pesquisa e atividades de formação].

Temos também uma comissão de prevenção à violência, em parcerias com as pró-reitorias de extensão e graduação, e vamos fazer uma recepção de calouros com o tema da diversidade, numa atividade coordenada em todos os campi.”

O pacto das universidades

“Nós estivemos em audiências públicas em que a Defensoria Pública da União apresentou uma avaliação de que há uma política de assegurar o arcabouço legal, para que as instituições deem continuidade a esses enfrentamentos.

Internamente, nós aderimos ao Pacto Universitário dos Direitos Humanos [acordo do Ministério da Justiça e Cidadania e do Ministério da Educação de 2016 para implementar a educação de direitos humanos nas instituições], que articulou todas as políticas.

Por parte dos coletivos que surgiram, de mulheres, de negros, há uma movimentação na universidade para que a instituição se posicione. Queremos fazer um encontro entre todos os coletivos em 2019 para assegurar a função da universidade que é de formar cidadãos.”

O governo Bolsonaro

“Do ponto de vista pessoal, tenho uma avaliação pouco positiva do que vai acontecer, mas uma ação muito pró-ativa. A leitura que eu faço do cenário que se apresenta é que, se forem aplicadas as políticas prometidas durante a campanha [o presidente eleito prometeu acabar com todos os ativismos no país], o cenário não vai ser propício, mas vamos ampliar nossa ação.

Os setores organizados já sinalizam que vão dar continuidade às ações para não permitir retrocesso. A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), de coibir as ações nos campi [em outubro de 2018, a corte suspendeu o efeito de ações policiais e judiciais contra manifestações políticas em universidades de sete estados, por considerarem que elas feriam a liberdade de expressão de alunos e professores], favorecem as ações que estão sendo sinalizadas.”

A cicatriz que não se fecha

“Como eu pensaria a metáfora da cicatriz hoje? [Em 2015, Juarez afirmou que as pichações racistas representavam uma cicatriz que fica coçando e incomoda]. Mais do que uma cicatriz que não se fecha, é uma cicatriz que insistem em querer deixar aberta.

Muitos insistem em querer negar direitos fundamentais à população negra. No âmbito interno da universidade, isso aparece em não assumir a efetividade da política das cotas raciais. Não é uma lógica interna da universidade nem fora dela.

A universidade é o microcosmos da sociedade e temos enfrentado o mecanismo do preconceito. Uma parte não reagiu bem à questão das cotas. Diziam que os cotistas poderiam não ter o mesmo desenvolvimento dos demais alunos, e os dados derrubam isso de forma absoluta. As cotas têm oxigenado a nova massa de estudantes que chega às universidades, têm mais meninas, mais pessoas afirmando suas identidades, gays, lésbicas, trans.

Por isso é uma cicatriz que querem deixar aberta, porque muitos não pensam na necessidade de superação do racismo. Tenho discutido muito o fato de essas ações legitimarem uma prática de segregação brutal da população negra.”

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