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Por que a guerra às drogas mata mais no Brasil

Johann Hari visitou 15 países para escrever livro sobre tema. Em entrevista ao ‘Nexo’, afirmou que, no Brasil, ‘as classes média e alta agem como se as drogas já estivessem legalizadas’

 

Uma das memórias mais antigas do jornalista britânico Johann Hari é a de tentar acordar uma parente caída no chão após ter usado drogas. Anos depois, seu namorado deixava a heroína e passava a usar crack, enquanto o próprio Hari tomava remédios contra narcolepsia que o ajudavam a escrever por semanas a fio.

“Eu estava totalmente pilhado”, escreve o jornalista logo na abertura de seu livro “Na Fissura: Uma história do fracasso no combate às drogas” (ed. Companhia das Letras). A obra é fruto de um trabalho iniciado em 2012, no qual Hari resgata a história da criminalização e da guerra às drogas, marcada pelo foco em repressão violenta e aprisionamento de traficantes e usuários.

Hari se baseia em documentos históricos, artigos acadêmicos e entrevistas com usuários, pesquisadores, assistentes sociais e traficantes, em um trajeto por 15 países. Em 2017, dois anos após a publicação da versão do livro em inglês, visitou o Brasil para coletar material para um último capítulo sobre o país.

Lançada em novembro de 2018, a edição em português descreve a política brasileira de combate às drogas como, “talvez, a versão per capita mais mortal dessa guerra em todo o mundo”.

Ele acompanhou, no Complexo do Alemão, no Rio, a ação de um Caveirão, “um blindado equipado com uma torre giratória com alcance de 360 graus que consegue acertar tiros em qualquer direção”. Hari nota que se trata de um veículo do Estado brasileiro, usado por policiais militares do Bope (Batalhão de Operações Especiais), que tem como símbolo oficial “uma caveira gigante com uma faca atravessada de cima para baixo”.

Distantes do Alemão, “as classes média e alta agem como se as drogas já estivessem legalizadas”.

Em São Paulo, acompanhou o Programa Braços Abertos, que oferecia moradia e renda a usuários de crack, mas começou a ser desativado em maio de 2017, logo após a posse do prefeito João Doria (PSDB). Ele o descreve como uma tentativa oposta à estratégia no Alemão, de oferecer “compaixão, amor e apoio para as pessoas que sofrem, permitindo, assim, que transponham seus problemas”.

O Nexo conversou no dia 27 de novembro de 2018 com Hari, que esteve de passagem em São Paulo para promover sua obra.

O que a guerra às drogas no Brasil tem de comum e de diferente do resto do mundo?

Johann Hari É particularmente ruim aqui. A crise de vício é extrema, porque o sofrimento no país é extremo. E suspeito que, se o presidente Bolsonaro fizer o que ele promete fazer, com privatizações e o modelo Pinochet, haverá aumento do sofrimento, porque isso acontece em todo lugar em que essas políticas são aplicadas. Medidas duras contra os viciados também vão piorar a situação.

Em qualquer país há uma quantidade enorme de pessoas que infringem leis relativas a drogas, e é impossível prender todas elas. Os Estados usam o poder e a licença que a guerra às drogas dá para aplicar medidas repressivas [especificamente] contra os grupos que a sociedade gostaria de reprimir de qualquer forma.

Nos Estados Unidos, afro-americanos têm a mesma probabilidade de usar drogas ilegais que qualquer outra pessoa. Mas têm uma probabilidade muito maior de ir para a cadeia por isso.

Eu abro o livro com a história da grande cantora de jazz Billie Holiday, que era viciada em heroína porque tinha sido terrivelmente estuprada quando era criança, muitas vezes. Ela era negra, e foi perseguida e morta pelo homem que lançou a guerra às drogas, Harry Anslinger.

Esse mesmo homem descobriu que Judy Garland, a atriz que fez Dorothy em “O Mágico de Oz”, era viciada em drogas. Ela era branca, e ele disse para ela tirar férias ligeiramente mais longas. Essa é a diferença: a guerra às drogas é sempre usada para perseguir os grupos que o Estado quer perseguir.

No Brasil, você vê isso muito claramente, o Estado age desproporcionalmente contra negros pobres.

Quando cheguei, eu saí do meu hotel na praia de Ipanema, e a primeira coisa que um brasileiro disse para mim foi “ei, amigo, você quer comprar cocaína?”. Tem gente usando drogas na praia de Ipanema todo dia.

No dia seguinte, fui ao [Complexo do] Alemão, e vi uma violência extrema contra as pessoas. Já fiz reportagens em muitas partes do mundo, e os únicos lugares em que vi soldados apontando abertamente armas contra crianças foi nas favelas brasileiras e nos territórios palestinos.

Se o Estado brasileiro agisse, por um dia, em Ipanema, da forma como age todos os dias no Alemão, seria uma notícia internacional.

A retórica contra as drogas é o único argumento possível para se fazer uma guerra contra as favelas. É uma ferramenta tão poderosa que até mesmo algumas pessoas das favelas a apoiam.

Acabar com a guerra às drogas não acabaria com o choque de classes no Brasil. Mas retiraria uma das desculpas mais poderosas para o que está acontecendo.

Se as drogas fossem legalizadas, o que aconteceria com os criminosos que recorrem a seu comércio por ele ser ilegal?

Johann Hari Criminosos respondem a incentivos, como todo mundo. É improvável que você empurre uma velhinha na rua, mas se eu te oferecesse US$ 1 milhão, você poderia pensar a respeito.

O que nós fazemos com a proibição é criar uma enorme estrutura de incentivo. Transferimos cerca de 5% do PIB global para o mercado ilegal. Se transformamos isso em negócios legais, a estrutura de incentivos é reduzida enormemente.

A guerra às drogas gera uma guerra pelas drogas [entre os criminosos], que é inacreditavelmente mortífera. A juíza Maria Lucia Karam calcula que cerca de 30 mil homicídios no Brasil são causados diretamente por essa guerra pelas drogas.

Não há varejistas violentos de heroína na Suíça desde que eles legalizaram a droga, não há vendedores violentos de maconha no Colorado ou em Washington desde que legalizaram a droga. É isso o que acontece.

Algumas pessoas podem dizer que legalizar as drogas é uma coisa em um lugar rico, como a Suíça ou [o estado americano do] Colorado, e diferente em um país pobre como o Brasil. Mas, como a Maria Lucia Karam disse, legalizar é mais necessário no Brasil, porque não havia 30 mil pessoas morrendo violentamente naqueles países ricos antes da legalização.

Além disso, quando você transfere essa enorme indústria para as gangues criminais por meio da proibição, você cria um tipo de banco de investimentos para o crime.

Durante a proibição do álcool nos Estados Unidos, nos anos 1920, houve um aumento enorme de sequestros. Isso porque o sequestro é um crime que requer muito capital, precisa de um motorista, de um carro, de um lugar onde ninguém vai te ver.

Não dá para pegar esse investimento de um banco, mas sim do dinheiro do tráfico. Com a legalização, pode-se esperar não só uma queda dos crimes ligados ao tráfico, mas de outras formas de crimes.

Há uma segunda questão que vem com a legalização. No caso das favelas do Alemão ou da Maré, grande parte da renda vem do tráfico. Se você tira, haverá sofrimento econômico na maioria dos lugares.

Por isso, é importante usar os impostos obtidos com o dinheiro da venda de drogas legalizadas para apoiar economicamente lugares que perderem dinheiro.

Legalização pode ser chocante para algumas pessoas, mas ela significa coisas diferentes para cada droga. Em Londres, que é de onde eu venho, é legal comprar um cachorro, um macaco ou um leão. Mas as regras são diferentes. No caso dos macacos, as regras são mais rígidas; no dos leões, muito mais rígidas.

No livro você diz que certas drogas ganham fama de muito viciantes e venenosas, como o crack no Brasil. Por quê?

Johann Hari Tem gente que acha que, se você sequestrar 20 pessoas e forçá-las a fumar crack ou usar heroína todo dia por um mês, elas vão se transformar em viciadas nessas drogas, pelo simples motivo de que há “amarras químicas” [em uma tradução livre de “chemical hooks”] na heroína e no crack que fazem com que os corpos passem a sentir uma fome física desesperada pelas drogas, o que levaria ao vício.

Na verdade, “amarras químicas” respondem apenas por uma parte muito pequena do que está acontecendo com o vício.

A descoberta veio do professor Bruce Alexander. Ele explicou para mim que a história que temos de que vício é causado pelas amarras químicas vem de uma série de experimentos feitos no começo do século 20.

Você pega um rato, coloca ele numa gaiola e dá duas garrafas, uma apenas com água, outra, com água e heroína ou cocaína. Se você faz isso, o rato quase sempre vai preferir a água com drogas e se matar em uma ou duas semanas. A história é: se você usa drogas, fica obcecado por elas e morre.

Mas nos anos 1970, o professor Alexander pensou e fez o mesmo experimento, mas com um “parque para ratos” [“rat park”, em inglês], um paraíso para ratos em que ele tem amigos, queijo, bolas coloridas, tudo o que ele pode querer da vida. No caso, o rato não fica sozinho, em uma gaiola vazia sem nada para fazer a não ser usar drogas.

No “parque para ratos”, os ratos não gostam da água com drogas, eles quase nunca a bebem, e nunca compulsivamente. Nenhum tem overdose. Você vai de 100% de overdoses para nenhum uso compulsivo. Isso nos diz que o oposto de vício não é sobriedade, mas conexão.

Na cracolândia, o que acontece não é só a droga, é uma dor psicológica terrível, além das drogas. Carl Hart, chefe da psicologia da universidade de Columbia, em Nova York, mostra que entre 10% e 15% das pessoas que usam crack ficam viciadas em crack, o mesmo que álcool e a maior parte das drogas.

Por que há algumas pessoas viciadas e outras não? Porque a vida delas é um lugar demasiadamente doloroso para estar. Uma vez que você entende isso, você vê por que a política praticada pelo ex-prefeito e futuro governador de São Paulo [João Doria (PSDB)] é um desastre.

A guerra às drogas se baseia na ideia de que vício é uma falha moral e que é necessário impor sofrimento aos viciados para que eles parem de usar drogas. Mas as evidências mostram que vício é uma tentativa de anestesiar a dor profunda. Então você vê por que impor mais dor e sofrimento é um desastre. Aumenta o vício, e a cracolândia piora.

Há uma definição técnica objetiva para 'dependência química'?

Johann Hari Houve uma mudança no entendimento científico disso. “Amarras químicas” existem. Há um consenso muito forte de que tabaco é uma das drogas mais viciantes que existem. E sabemos que a amarra química do tabaco é a nicotina. Se você fuma por um tempo e para de fumar, o que você sente falta, fisicamente, é da nicotina.

Nos anos 1980, quando foram inventados os adesivos de tabaco, houve um grande otimismo, porque os cientistas pensaram que supririam todas as amarras químicas sem a fumaça carcinogênica, e todos parariam de fumar.

Mas as melhores pesquisas do governo americano mostraram que 17% dos fumantes que usavam os adesivos paravam de fumar. Isso é muita gente, mas, por outro lado, 83% das pessoas não deixaram de fumar.

Não é errado dizer que essas pessoas são dependentes químicas, mas isso é apenas uma parte pequena de por que estavam viciadas. O motivo é a dor psicológica, a falta de ajuda, e esse é o  jeito de anestesiarem sua dor.

Falei com um jovem de 15 anos expulso de casa que fumava pasta base de cocaína no Brasil, e ele disse, de uma maneira muito articulada o motivo: “eu fumo para evitar que algo pior aconteça”.

Isso pode parecer estranho, mas o que ele quer dizer é que se ele não fumasse ele sofreria tanto que iria querer se matar. Isso não significa que o crack é uma boa solução para o menino. Mas precisamos entender que as pessoas não estão fumando só porque são "dominadas pela droga", isso é simplista demais.

Vá para qualquer reunião dos Jogadores Anônimos. Elas estão tão viciadas quanto os participantes dos Alcoólicos Anônimos, mas não há ganchos químicos na aposta. Isso diz algo sobre como o papel dos ganchos químicos é superestimado. Eles têm um papel, mas é relativamente menor.

Pode falar sobre o Programa Braços Abertos e seu fechamento, abordados no livro?

Johann Hari O que o Brasil vem fazendo até agora é copiar lugares que falharam desastrosamente em reduzir a violência por drogas e o vício. Copia os Estados Unidos, o Vietnã, as Filipinas, em que eles [o Estado] foram agressivos e a situação só piorou.

O Braços Abertos tentou copiar os lugares que tiveram sucesso. Em 2000, Portugal tinha um dos piores problemas de drogas do mundo, 1% da população era viciada em heroína. Todo ano tentavam o “jeito Bolsonaro”, prendiam e puniam mais gente, eram brutais. Mas a cada ano, [a situação] piorava.

Um dia, o primeiro-ministro e o líder da oposição se reuniram e decidiram fazer algo radical, montaram um painel de cientistas para decidir o que resolveria o problema. Eles disseram: descriminalizem todas as drogas, mas retirem todo o dinheiro que gastamos ferrando com a vida das pessoas, envergonhando-as e prendendo-as, e o gastem para melhorar as vidas delas.

A meta era dizer a todos que tinham vícios: nós te amamos, nós te valorizamos, estamos do teu lado. Após 13 anos, os resultados foram muito claros, o vício havia caído 50%, a infecção por HIV e crimes nas ruas haviam despencado. Virtualmente, ninguém quer voltar [à situação anterior].

O Braços Abertos tentou copiar isso, mas, claro, sem o poder de legalizar as drogas. Eles ofereceram quartos em hotéis, trabalho subsidiado e comida. O básico.

Quando o programa abriu na cracolândia, eles perguntaram para as pessoas o que elas queriam. Para muitos, a maior prioridade era cuidar dos cachorros. Eles têm muito amor pelos animais, e pediram para levá-los aos hotéis.

Outra coisa que perturbava as pessoas na cracolândia era a memória dos mortos. Se você morria, você era enterrado em um túmulo sem identificação. O corpo dos amigos deles era simplesmente levado.

Eles queriam preservar a memória de quem morria. Isso contrasta com a ideia que aparece nas telenovelas, de que a cracolândia é um inferno em que ninguém liga para nada. São seres humanos, com esperanças, sonhos e amores, como todo mundo. E eles merecem ser tratados como seres humanos.

O Braços Abertos mostrou o que poderia ser feito no Brasil. Em pouco tempo, 65% tinham reduzido seu uso de crack, a maioria voltou a entrar em contato com as famílias e houve queda no crime no entorno. Esses projetos levam tempo, mas sabemos, pela experiência no mundo todo, que essa é a forma de reduzir vício com o tempo.

Você sabe o que aconteceu, São Paulo elegeu um prefeito de direita, ele acabou com o projeto.

Mas vi isso em muitas partes do mundo, em que havia um passo para a frente, e depois um passo para trás. As pessoas vão se lembrar do que o Braços Abertos fez, uma hora ou outra, quando o Brasil quiser, de novo, copiar os casos de sucesso.

Como você encara o apoio à violência policial pela população brasileira?

Johann Hari Não acredito que as pessoas no Brasil achem que essa estratégia [de repressão violenta] funcione e querem que ela continue. Acho que estão desesperadas, não sabem o que fazer e não têm uma solução melhor explicada para elas.

Aquilo que Bolsonaro quer fazer irá piorar o problema. Eu já vi lugares que tentaram o que será tentado aqui, e os resultados são sempre os mesmos.

É preciso explicar para as pessoas que há a solução falsa, há as pessoas que não querem fazer nada, e há a solução verdadeira: fazer o que o Uruguai, Portugal, Canadá e Suíça fizeram, que é retomar esse comércio das gangues violentas e transferi-lo para negócios legais.

As pessoas acham que legalização significa coisas que ela não significa. Por exemplo: que crianças vão usar drogas. Mas é muito mais difícil para crianças comprarem de negócios legais do que ilegais. É preciso explicar o que as alternativas significam, e por que essa solução falsa não tem como funcionar, e construir apoio para as soluções verdadeiras.

O governo dos Estados Unidos realmente tentou. Eles vêm fazendo isso há 100 anos, gastaram trilhões de dólares, mataram centenas de milhares, e aprisionaram milhões de seus cidadãos, eles destruíram países inteiros. E, no fim, têm um dos piores problemas de vício em drogas do mundo. E a segunda pior violência por armas do mundo, depois do Brasil. Nós conseguimos ver onde isso [uma maior repressão violenta] vai dar, a evidência é muito clara.

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