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Escola de Chicago: o berço do pensamento econômico do governo

‘Nexo’ entrevistou professor que pesquisa história do pensamento econômico para entender as bases teóricas que renderam 30 prêmios Nobel à universidade

 

Desde que começou a campanha, o agora presidente eleito Jair Bolsonaro deixou claro quem responderia pela economia em seu governo. A autonomia dada era tanta que Paulo Guedes foi apelidado de “Posto Ipiranga”, alguém que atenderia a demandas da área, quaisquer que fossem.

Guedes tem 69 anos e uma carreira feita principalmente no mercado financeiro. Na formação acadêmica, ele destaca o fato de ter cursado o doutorado na renomada Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Com a autonomia dada por Bolsonaro, Guedes vem escolhendo um a um os principais membros de sua equipe econômica. Em comum, os nomes têm o fato de serem defensores do liberalismo econômico e da diminuição da intervenção do Estado na economia. Mas mais do que isso, é marcante no perfil da equipe a semelhança com a trajetória de Guedes.

Dos quatro principais nomes anunciados até agora, três cursaram doutorado ou pós-doutorado pela Universidade de Chicago: Joaquim Levy (BNDES), Roberto Castello Branco (Petrobras) e Rubem Novaes (Banco do Brasil).

A Escola de Chicago

Para entender o que isso significa, é preciso voltar à década de 1950, quando um grupo de professores do departamento de economia da universidade começou a produzir as teorias que deram fama à instituição.

O grupo era liderado por Milton Friedman e George Stigler, os dois maiores expoentes do liberalismo econômico americano na segunda metade do século. Os professores defendiam a observação dos dados e a realização de testes empíricos como maneira de mostrar as limitações da ação do Estado na economia.

No período do pós-guerra, os economistas de Chicago se encarregaram de atacar as bases das teorias econômicas vigentes principalmente nos Estados Unidos, essencialmente baseadas na intervenção estatal na economia. Havia dois grandes exemplos dessa prática de intervenção.

Primeiro, o New Deal foi o programa para enfrentar a grande depressão que aconteceu após a quebra da bolsa em 1929. Na década de 1930, o governo injetou recursos públicos em obras de infraestrutura para gerar empregos e reativar a economia do país. Depois de 1945, foi novamente o governo americano o responsável por financiar a reconstrução da Europa no Plano Marshall.

As experiências deixavam em evidência as teorias do economista britânico John Maynard Keynes, que defendia a intervenção do Estado em alguns casos. E é essa a ideia que Chicago se dispôs a combater.

A partir da produção de Friedman e Stigler, a Escola de Chicago se destacou como polo do pensamento liberal nos Estados Unidos e no mundo. Nas décadas seguintes, foram 30 professores de Chicago vencedores do Prêmio Nobel de Economia.

Além de Friedman, que ganhou em 1976, e Stigler, em 1982, outros expoentes de Chicago como Gary Becker e Robert Lucas receberam o Nobel pela contribuição com a teoria econômica. Na lista também está Friedrich von Hayek, um dos maiores ícones da chamada escola austríaca (outra vertente do liberalismo econômico), mas que lecionou em Chicago por mais de uma década.

Na América do Sul, a “Escola de Chicago” ganhou projeção em sua atuação durante a ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Num país sem liberdades democráticas e sem oposição, um grupo que ficou conhecido como “Chicago boys” implementou políticas como o estabelecimento do modelo previdenciário de capitalização, hoje enfrentando contestações no país.

Sobre a Escola de Chicago, o Nexo entrevistou o economista Pedro Garcia Duarte, professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e que pesquisa história do pensamento econômico. Duarte fala das inovações e da importância das teorias desenvolvidas em Chicago e de como elas podem ou não ser aplicadas no governo de Jair Bolsonaro.

Em que contexto emerge o pensamento econômico liberal da Escola de Chicago?

Pedro Garcia Duarte  O departamento de economia da Universidade de Chicago é muito antigo e super tradicional nos Estados Unidos,e teve uma história anterior à geração da década de 1950, com os professores do Friedman.

São claramente duas fases. Nos anos 1950, com o Friedman e com o Stigler, ela assume uma nova cara. Quando chega essa nova geração, esse rótulo “Escola de Chicago” passa a ser usado pelos próprios economistas como um elemento distintivo. O que é interessante é que, naquele momento, o “Escola de Chicago” era usado para outros departamentos, era uma cultura da instituição.

No caso da economia, o Friedman e o Stigler deram essa cara de liberalismo econômico. O Friedman teve uma carreira longa na qual ele defendeu liberdade econômica, com ideias de que as pessoas respondem a incentivos racionais, de que o Estado não tem todo esse poder de intervir e, portanto, o melhor a se fazer é favorecer a liberdade. E ele fez isso inclusive difundindo suas ideias com livros mais populares como o “Capitalismo e Liberdade”.

O surgimento dessas ideias tem muito a ver com a dinâmica da própria Escola de Chicago. O departamento de economia pré-Friedman tinha a presença de um grupo que era chamado de “os institucionalistas”, economistas muito importantes nos Estados Unidos. Na verdade, são as pessoas que estão por trás do “New Deal”. Em Chicago, antes do Friedman, havia gente importante que defendia a intervenção do Estado.

O rótulo vem depois do New Deal, vem depois do Plano Marshall para promover uma ideia liberal, como reação ao keynesianismo e aos institucionalistas.

O que essa geração de Friedman e Stigler trouxe de inovação teórica? O que a diferencia do que havia anteriormente?

Pedro Garcia Duarte As ideias começam com as teorias, principalmente, macroeconômicas do Friedman e microeconômicas de Stigler. Depois vêm vários desenvolvimentos, com autores como Gary Becker e Robert Lucas.

Focando no Friedman, o que ele fez de mais marcante é sobre política monetária. Para ele, a oferta de moeda deve seguir uma regra de expansão. Ele era contra a ideia keynesiana de que o Estado pode fazer política de ajuste de acordo com ciclo econômico, de estímulo.

Para o Friedman, o Estado é incapaz de fazer essa política funcionar e pode, na verdade, desestabilizar ainda mais a economia ao intervir. Para ele, não se sabe exatamente quando o efeito da política econômica aparece.

Por exemplo: você faz uma política econômica e espera resultado em seis meses. Se ele não vem, você aumenta a dose. Mas o resultado pode vir em oito meses e, quando vier, você já terá dobrado a aposta. E ainda tem o problema de informação, porque se toma decisões hoje com base em informações do passado. A gente sabe o PIB de três meses atrás, não se sabe exatamente o estágio atual da economia.

Para ele, não se deve inventar que é possível fazer política de curto prazo, porque não é. Dada a incapacidade, o melhor a se fazer é buscar uma estabilidade de longo prazo, com uma regra de oferta de moeda. E isso gerava um embate muito acalorado com os keynesianos.

Há também um trabalho importante sobre a Grande Depressão, uma interpretação controversa de que ela foi gerada pelo banco central. Ele atacou o keynesianismo em diferentes frentes.

O que das teorias econômicas de Chicago continua atual e o que foi suplantado?

Pedro Garcia Duarte Aconteceu muita coisa desde que essas teorias foram escritas. A regra de crescimento da base monetária mudou completamente nos últimos 30 anos. Agora se controla inflação com juros.

Houve uma influência muito grande das ideias de Chicago nos governos Ronald Reagan e Margareth Tatcher [presidente dos EUA e primeira-ministra do Reino Unido na década de 1980, dois exemplos de governos liberais], mas já naquele tempo a política econômica ia além de Friedman puramente. Surgem outras questões, como a curva de Laffer que diz que aumentar alíquota de imposto só aumenta a arrecadação até um certo ponto. A partir dele, aumentar a alíquota faz a arrecadação cair porque incentiva a sonegação. Mas a base são as ideias liberais, diminuição do tamanho do Estado, reforma do Estado.

Pessoas de Chicago estiveram envolvidas em iniciativas de difusão dessas ideias. Friedman e Hayek estão entre os fundadores da Sociedade Mont Pèlerin, que tinha essa finalidade política mesmo. Não é apenas Chicago, e mesmo Chicago é diverso. Mas é também Chicago, uma das bases. 

Como avalia as experiências dos economistas de Chicago no Chile de Pinochet?

Pedro Garcia Duarte É o caso mais emblemático. Porque, no geral, há uma distância entre o desenvolvimento teórico da academia e a aplicação prática desses conceitos, a política filtra, a negociação molda. O governo pode ter uma inspiração liberal, mas o que ele vai efetivamente fazer depende de negociação política, com Congresso.

O Chile foi uma relação muito direta entre a teoria e a prática. O governo Pinochet deu o golpe e o governo promoveu a vinda de jovens economistas formados em Chicago para reformular a política econômica chilena. Esses economistas se puseram à disposição e o governo usou o que eles propunham.

O grande entusiasmo que existia à época era a ideia de que o Pinochet representava uma oportunidade única para se escrever política econômica numa folha em branco. Eles podiam fazer o que quisessem e implantaram uma política liberal em um governo autoritário.

O sucesso disso ou não é controverso. É muito fácil associar o sucesso posterior do Chile a uma mudança liberal, ao fato de ser uma economia muito aberta. O meu ponto é: não sei o quanto efetivamente do sucesso do Chile se deve às políticas adotadas por esse grupo de economistas.

Os ‘Chicago Boys’ aceitaram se aliar a um governo autoritário para implantar um modelo liberal na economia. Qual a relação dos formuladores dessas teorias com o pensamento político?

Pedro Garcia Duarte Houve o envolvimento até maior de professores como o Hayek do que do próprio Friedman. O Friedman foi poucas vezes ao Chile, mas no “Capitalismo e Liberdade” ele argumenta que liberdade política e econômica são indissociáveis.

O argumento do grupo à época é a ideia de que a liberdade econômica era a melhor forma de se conseguir a liberdade política. Era um custo a se pagar ter esse governo autoritário por um certo período, seria o caminho para garantir uma liberdade individual posterior.

O Brasil já teve alguma experiência com forte influência de Chicago?

Pedro Garcia Duarte Dos anos 1980 pra cá, o problema da inflação era muito grande. Os planos econômicos implantados usavam mecanismos não tradicionais, congelamento de preços, tudo muito antiliberal, desrespeita o funcionamento do mercado. O Plano Real foi melhor pensado nesse sentido.

Talvez o governo Collor, com uma política de abertura, seja um exemplo. Mas como inflação era um tema que dominava muito o debate, o resto ficava em segundo plano.

As teorias de Friedman e Stigler são aplicáveis ao Brasil de hoje?

Pedro Garcia Duarte Do que estava colocado no primeiro turno, várias das propostas eram comuns entre vários candidatos. Falava-se de privatizações, reforma da Previdência e abertura econômica. O PSDB com o Pérsio Arida falava coisas parecidas, o próprio PT falava que abrir o mercado bancário aos estrangeiros era uma saída.

Pode ser que o Bolsonaro faça um governo ultraliberal na economia. Ele está dando poderes ao Paulo Guedes e tem um pedaço da agenda que não depende do Congresso. Agora, a grande maioria depende e, chega no Estado, no município, a conversa com o parlamentar é outra.

O discurso de campanha é um discurso fácil de fazer, dá ideia de que há mágica e mágica não existe. Tem aquela visão de que o Estado é nocivo, mal gerido, ineficiente. Esse discurso deixa de reconhecer que, no fundo, há ineficiências dos dois lados. Privatizar o que não é necessário é uma boa ideia, Estado e mercado devem se complementar.

O que esperar dos ex-alunos de Chicago na equipe de Bolsonaro?

Pedro Garcia Duarte A solução que o governo vai dar eu não faço ideia. O discurso é muito inconsistente. Uma hora fala que vai reduzir imposto, depois fala que não dá pra reduzir. Fala que vai cortar gasto, mas não fala exatamente onde.

É um governo que fez uma campanha baseada em slogans liberais: 'vou abrir a economia', 'vou reduzir o tamanho do Estado'. Mas aí isso se choca com a política externa, que é de aproximação com o Trump, que é contra a globalização, a China. É incongruente, não se sabe qual vai ser o tom.

O Bolsonaro se baseou em slogans liberais que não estão dimensionados, apresentou números que são difíceis de imaginar que são possíveis. E Paulo Guedes foi aluno de Chicago, mas ninguém sabe direito quais são as ideias dele. Não a ponto de dizer que é um economista de Chicago, uma cria do Friedman ou coisa do tipo.

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