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O que há de local e internacional no fenômeno Bolsonaro

Cientista político Mathias Alencastro fala ao ‘Nexo’ sobre a sintonia do presidente eleito do Brasil com a direita e a extrema direita no Ocidente

 

O cientista político brasileiro Mathias Alencastro, doutor pela Universidade de Oxford e mestre pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, considera que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, é parte de uma “nova onda conservadora [que] atinge todo o tipo de países, igualitários e desigualitários, com imigração e sem imigração, ricos e pobres”.

Para ele, a eleição de Bolsonaro também “põe o último prego no caixão das explicações localistas” porque “pela primeira vez, um país fora do Atlântico Norte, não francamente neoliberal, tampouco pós-comunista, vira dessa forma à direita”.

As declarações dadas por Alencastro nesta entrevista concedida ao Nexo, por e-mail, na quinta-feira (15), complementam uma linha de argumentação que o cientista político havia iniciado três dias antes em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, quando disse sobre Bolsonaro o seguinte: “Raramente um governo brasileiro esteve tão alinhado com as dinâmicas em curso no mundo ocidental.”

Em que medida Bolsonaro é um político autóctone, fruto de circunstâncias muito particulares do Brasil? E em que medida ele é fruto de uma corrente internacional maior e mais estruturada?

Mathias Alencastro Penso que Bolsonaro, tal como a nova geração de políticos conservadores na sua generalidade, é um fenômeno autóctone com ramificações internacionais. No seu já clássico trabalho sobre a ascensão de Donald Trump, [o cientista político americano] Corey Robin demonstra como o aparato ideológico do presidente tem origens na história moderna do conservadorismo dos EUA.

É possível que os estudiosos de Bolsonaro cheguem a uma conclusão semelhante à de Corey Robin sobre Trump no futuro. Bolsonaro trará algumas inovações importantes, mas tanto a sua retórica quanto a sua forma de se projetar podem não vir a constituir uma ruptura com o aparato ideológico do conservadorismo brasileiro. Nesse sentido, Bolsonaro constituirá um fenômeno essencialmente autóctone.

Isto posto, a eleição de Bolsonaro também põe o último prego no caixão das explicações localistas. Pela primeira vez, um país fora do Atlântico Norte, não francamente neoliberal, tampouco pós-comunista, vira dessa forma à direita. Talvez isso ajude a entender o espanto da comunidade internacional em relação à eleição de Bolsonaro.

A chegada ao poder de Bolsonaro deixa claro que a nova onda conservadora atinge todo o tipo de países, igualitários e desigualitários, com imigração e sem imigração, ricos e pobres. Por conseguinte, a explicação para a sintomatologia não pode ser local. O livro “Crashed”, de Adam Tooze [historiador britânico], oferece uma das primeiras tentativas convincentes para uma explicação global. Ele confere um papel central à crise financeira de 2008 e sobretudo à forma como a comunidade internacional lidou com o colapso do sistema financeiro. Ela levou as populações a questionarem profundamente os méritos da ordem liberal que parecia prometida a ordenar o mundo. Não por acaso, Francis Fukuyama decidiu recentemente adiar o “fim da história”, a conclusão do seu ensaio clássico publicado em 1989.

 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, tem um canal direto com Steve Bannon, ideólogo da campanha de Donald Trump. Ambos falam em cooperação informal, no campo das ideias e estratégias. Qual a profundidade e a efetividade dessa articulação?

Mathias Alencastro Acho a expressão “ideólogo da campanha” exagerada, e sintomática do papel excessivo que a imprensa tende a conferir a Steve Bannon. Vamos aos fatos. Steve Bannon é um personagem excêntrico que circulou na fronteira do sistema financeiro midiático e político dos Estados Unidos durante décadas.

Ele serviu na Marinha, produziu uma dezena de filmes fracassados em Hollywood, trabalhou na Goldman Sachs e ficou milionário investindo na série Seinfeld. Descobriu a força dos movimentos de massa na era digital jogando World of Warcraft e entrou no radar de Donald Trump pela mão do site de notícias Breitbart. Se os irmãos Coen realizassem um filme sobre política internacional, Bannon seria o ator principal.

A sua participação na ascensão de Trump foi decisiva, porém efêmera. Ele entrou na equipe de campanha quando o presidenciável enfrentava dificuldades em sustentar o debate contra Hillary Clinton depois das convenções partidárias, em julho de 2016. Bannon ajudou Trump a direcionar o seu discurso antiglobalização para as regiões pós-industriais de Michigan e Pensilvânia. Com isso, ele desempenhou um papel essencial na inovação da matriz ideológica de Trump e ganhou o status de “guru”, com direito à capa da revista “Time”.

Mas a lua de mel durou pouco. Na Casa Branca, o supostamente todo poderoso Bannon criou antipatias com todos os grupos de poder do governo – os militares, os representantes do mercado, a família do presidente – e terminou marginalizado. Fora do governo, ele regressou ao papel em que se sente mais confortável: o de “lone rider” [andarilho solitário]. É nessa condição que ele vem desenvolvendo, com mais ou menos sucesso, laços com os diversos movimentos conservadores na Europa e agora no Brasil.

Desconheço a natureza da relação atual entre Bannon e Trump. Ele é suspeito de ser uma das principais fontes de matérias e livros sobre as dinâmicas internas do governo. O próprio Trump desdenhou Bannon em diversas declarações. Tudo leva a crer, no entanto, que ele continue tendo acesso direto ao presidente.

O acesso direto a Trump não significa que Bannon tem autoridade para influenciar a política externa americana. O presidente americano pode ter poderes quase imperiais no campo da política externa, mas Trump está longe de conseguir executar tudo o que pretende. Uma cena do livro “Medo”, de Bob Woodward, em que Gary Cohn, um dos conselheiros econômicos da Casa Branca, subtrai da mesa presidencial um documento que cancelava o tratado de livre comércio entre os Estados Unidos e a Coréia do Sul, é a ilustração mais caricata de um processo mais amplo de resistência burocrática às decisões tomadas pelo Poder Executivo no campo da política externa.

Não estou dizendo que o papel de Bannon deve ser minimizado. Muito longe disso. Apenas precisamos fazer a diferença entre a rede de políticos conservadores criada por ele e as relações formais entre os diferentes governos conservadores.

Quais podem ser as consequências práticas de o Brasil ter, a partir de 2019, um governo alinhado ideologicamente com EUA e Israel, por exemplo? Há consequências econômicas? Políticas? Ou a afinidade de ideias não se traduz necessariamente em cooperação prática?

Mathias Alencastro Antes de mais nada, é importante sublinhar que o realinhamento proposto por Bolsonaro é excepcional. A política externa é geralmente pautada por continuidades; as reorganizações profundas costumam acontecer depois de mudanças de regime, como na África do Sul pós-Apartheid ou na Polônia pós-comunista. No entanto, e ao contrário de Trump, Bolsonaro tem condições para levar a cabo o seu projeto. A máquina do Itamaraty tem a característica de se alinhar rapidamente ao programa do novo governo, e de raramente oferecer alguma forma de resistência. Duvido muito que algum assessor tente subtrair documentos da mesa presidencial.

A guinada prometida por Bolsonaro estaria, no entanto, confrontada a dois problemas fundamentais. Primeiro, o Brasil não é exatamente uma prioridade dos governos americanos e israelenses. O governo Bolsonaro teria de tomar medidas concretas para estruturar o novo realinhamento. A mudança da Embaixada do Brasil para Jerusalém seria um passo importante nessa direção, mas não seria suficiente. Esforços na cooperação militar e econômica teriam de ser ampliados.

Isso nos leva à segunda complicação: a compatibilidade do projeto de política externa com o projeto econômico desenhado por Paulo Guedes [futuro ministro da Economia]. É possível que os grupos econômicos que apoiam o governo Bolsonaro vejam mais custos do que benefícios numa reorientação da política externa.

Como é possível pensar numa coordenação internacionalista entre governos nacionalistas? Não há uma contradição inerente em qualquer internacionalização de ideologias que pressupõe a supremacia de um grupo nacional por cima do outro?

Mathias Alencastro Não tenho a menor dúvida que Bolsonaro vai se beneficiar de um contexto muito favorável. A arena internacional está dominada por líderes como [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin, Trump, [o presidente da Turquia, Recep Tayyip] Erdogan e o [ministro do Interior da Itália, Matteo] Salvini. Todos se apresentam como “homens fortes”, defensores dos valores conservadores face à ordem multicultural que eles consideram dominante. Nas grandes cúpulas internacionais, tem sido possível constatar a capacidade desse grupo de desestabilizar a autoridade das instâncias internacionais. Bolsonaro pode participar dessa empreitada, se assim o desejar.

Mas estamos diante de um processo em construção. Os novos líderes conservadores se reforçam mutuamente, mas ainda é muito cedo para afirmar que eles vão mudar profundamente as relações internacionais. Trump sofreu um revés nas eleições de midterms [eleições de meio de mandato], e as presidenciais de 2020 prometem ser mais competitivas do que inicialmente esperado. Na Europa, o Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia], um dos marcos da nova onda conservadora, tem tudo para se revelar um imenso desastre para o Reino Unido, e o embate entre o governo italiano e a União Europeia está apenas começando.

Será interessante observar se o governo Bolsonaro buscará um alinhamento unicamente com o governo dos Estados Unidos ou com os novos governos conservadores mais amplamente. A próxima cúpula dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] é uma bela oportunidade para Bolsonaro oferecer a sua visão da relação do Brasil com o mundo dito pós-ocidental. Qual será a posição do governo brasileiro sobre a entrada da Turquia no grupo, por exemplo?

Como o novo chanceler Ernesto Henrique Fraga Araújo se encaixa nesse cenário maior?

Mathias Alencastro Dentro do Itamaraty, Ernesto Araújo representa uma linha ideológica minoritária no Brasil, mas cada vez mais importante no mundo. Resumidamente, ela defende a desconstrução da ordem liberal criada depois da Segunda Guerra Mundial. Embora Bolsonaro tenha insistido no caráter técnico da escolha (“quero um quadro do ministério”), ela deve ser entendida como eminentemente política.

Tudo indica que o novo chanceler não terá a autonomia dos ministros da Economia [Paulo Guedes] e da Justiça [Sergio Moro], e muito menos a mesma visibilidade. Bolsonaro assume plenamente o desejo de ser o rosto do Brasil no mundo. Caberá a Ernesto Araújo, um homem da casa, implementar uma política externa com fortes tons personalistas.

Precisamos conhecer melhor a equipe de Araújo no Itamaraty e as prerrogativas internacionais do ministério da Economia para tirar mais conclusões. Um cenário possível é a divisão de trabalhos entre as diferentes equipes. O Itamaraty ficaria com o soft power, e seria responsável pelos temas que contribuem diretamente para a projeção global do presidente. Enquanto isso, o Ministério da Economia dividiria o hard power da política internacional com o ministério da Defesa. Caberia ao presidente arbitrar os prováveis conflitos entre as diferentes agendas.

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