Como a dependência tecnológica ameaça a democracia

O ‘Nexo’ conversou com Evgeny Morozov, um dos principais críticos dos impactos políticos de aplicativos como Facebook e WhatsApp

 

Um mundo em que plataformas como Facebook e WhatsApp têm uma enorme influência não apenas no que compramos e com quem conversamos, mas em como votamos e decidimos nosso futuro, encontra no autor e pesquisador Evgeny Morozov um de seus críticos mais veementes.

Muito antes dos fenômenos Trump e Brexit, em que dados de pessoas nas redes sociais foram usados para o direcionamento de conteúdo político, muitas vezes falso, Morozov lançou seu primeiro livro, chamado “A ilusão da rede – O lado escuro da liberdade de internet” (2011). Nele, se mostrava cético com relação a noções “utópicas” de que a internet seria um meio para avançar questões sociais e políticas.

Em seu livro seguinte, “To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism” (Para salvar tudo, clique aqui: a loucura da solução tecnológica para tudo, em tradução livre), de 2013, a premissa é de que a disponibilização irrestrita de dados pessoais, em aplicativos que propõem facilitar nossas vidas, constitui uma ameaça à democracia.

Atento aos acontecimentos brasileiros recentes, Morozov falou sobre a convergência entre interesses comerciais de empresas de tecnologia, que incluem coleta e venda de dados em escala global, e o uso intensivo das redes para a disseminação de informação e propaganda.

Seu próximo livro, “Freedom as a service”, deve sair em 2019 no exterior. Em dezembro de 2018 sai no Brasil uma coleção de ensaios, chamada “Big tech - a ascensão dos dados e a morte da política” (pela Ubu Editora).

Nascido em Belarus, Morozov é doutor em história da ciência pela Universidade Harvard. Colunista do jornal britânico The Observer, ele hoje mora em Barcelona, na Espanha. Por e-mail, respondeu às perguntas do Nexo.

Há um bom tempo você alerta sobre a influência das empresas de tecnologia na política no Ocidente. Como a situação brasileira recente se encaixa nesse processo?

Evgeny Morozov Defendo há anos que a conveniência privada de curto prazo que vem por meio das plataformas digitais – sustentada pelo constante monitoramento do que fazemos e a transformação de todos esses dados em serviços como a inteligência artificial – tem um custo social a longo prazo que ainda permanece invisível para a maior parte de nós. Nesse sentido, nossa dependência na extração de dados não é muito diferente da nossa dependência na extração de recursos naturais: eficiência econômica e crescimento mais rápido, facilitados por energia mais barata, provaram ser muito mais caros do que originalmente pensávamos. Qual é o custo social a longo prazo do extrativismo de dados? Existem muitos custos econômicos, mas também custos políticos, como vimos no caso das atividades da Cambridge Analytica no Reino Unido, Estados Unidos e agora Brasil. A proliferação de publicidade online – e a coleta de dados que originou – resultou em uma esfera pública quase que completamente integrada ao capitalismo global. Como resultado, os incentivos das pessoas em repassar informação falsa e errada agora coincidem com o interesse das plataformas digitais de distribuir informação. Sem dissociar essas duas estruturas de incentivo uma da outra, a probabilidade é de ver resultados ainda piores no longo prazo.

Redes sociais e grupos de WhatsApp se tornaram a principal fonte de informação para muitos eleitores brasileiros, que rejeitam a imprensa tradicional. Muito parecido com o que aconteceu nos EUA, com Trump, e no Reino Unido, com o Brexit. As empresas de tecnologia não poderiam ter se preparado melhor para lidar com isso desta vez?

Evgeny Morozov Pensar se as empresas de tecnologia poderiam estar melhor preparadas é conceder muito território político a elas. É claro, elas se fazem de bobas e dizem que eram ingênuas, despreparadas e assim por diante. Isso provavelmente fará com que se apresentem como idealmente posicionadas para resolver esse problema no futuro – por meio do emprego de mais inteligência artificial para identificar posts problemáticos ou da introdução de sistemas de reputação de usuário que barrem usuários potencialmente inoportunos. Acho que isso só deve piorar o problema ao aprofundar a dependência do público nessas empresas. Essa crise é uma chance de refletir sobre como poderíamos reestruturar a economia digital para ter um arranjo de longo prazo sustentável, onde coleta de dados e a propaganda que se apoia nela deixam de ser centrais para o debate online e o consumo de notícias.

 

Muitas empresas de tecnologia argumentam que sua tecnologia é apenas intermediária e que não podem se responsabilizar pelo modo como é usada. Elas não têm certa razão?

Evgeny Morozov As maiores empresas de tecnologia agora empregam mais advogados em Bruxelas e Washington do que os bancos de Wall Street. A ideia de que tudo que acontece com suas ferramentas e plataformas é problema dos usuários é um mito. De qualquer forma, não quero gastar muito tempo culpando as empresas de tecnologia – elas estão racionalmente explorando o tipo de aberturas legais e políticas que foram criadas pela transformação mais ampla de nossa sociedade na direção de metas como a liberalização dos mercados, a privatização da infraestrutura, a financeirização da economia e assim por diante. Uma empresa como a Uber nunca teria sido possível se os mercados de trabalho não fossem liberalizados, com trabalho precário se tornando um fenômeno muito mais evidente por todo o globo. Todas essas metas que mencionei antes não foram estabelecidas pelas empresas, mas por nossos políticos. E são nossos políticos que precisamos chamar à responsabilidade.

A influência do WhatsApp na eleição é uma consequência da popularidade do aplicativo no país. Se você entrar em um ônibus é sempre grande o número de pessoas nos seus celulares, usando WhatsApp. No entanto, a empresa não tem um escritório no país e raramente fala com a imprensa local. Não deveriam estar mais presentes?

Evgeny Morozov É o mínimo que se poderia esperar – presença local de algum tipo. Mas vou mais longe. Deveria se exigir que armazenassem os dados localmente, em servidores localizados no Brasil. O problema, é claro, é que tais exigências – presentes em países como Índia e Rússia – são cada vez mais colocadas como ilegais e ilegítimas em acordos de livre comércio assinados por governos por todo o globo. A razão pela qual governos locais não têm controle sobre empresas globais e seus dados e operações em rede é muito simples: as tais provisões que exigem que os dados fiquem localmente são explicitamente proibidas por estes tratados de comércio, que celebram um conceito completamente oposto – o livre fluxo de dados, sem restrições de qualquer governo.

Além das questões na esfera política, existem muitas outras áreas em que as empresas de tecnologia estão sendo criticadas. Em Portugal, o Airbnb é culpado por problemas habitacionais. O Uber é visto como agente da precarização em vários lugares. Existe uma pressão crescente para que empresas de tecnologia se comportem de uma maneira mais ética?

Evgeny Morozov Sim, existe tal pressão mas ela está vindo principalmente do setor da sociedade que acredita que é possível fazer o capitalismo global se comportar de modo ético. Eu não alimento tais ilusões. Atualmente, o Uber é uma empresa que tem como principal investidor a entidade japonesa chamada SoftBank, que tem como principal investidor o fundo de investimento soberano da Arábia Saudita. É preciso ser muito ingênuo para acreditar que os sauditas podem ser forçados a se comportar de maneira ética, especialmente diante das novidades das últimas semanas. O Uber perde bilhões de dólares todo ano – não é uma empresa que gera lucro, pelo menos não na América do Norte. A única maneira de recuperar um pouco dessas perdas seria ou destruir a competição local e aumentar os preços ou se livrar dos seus motoristas e mudar para um modo de direção completamente automatizado, se livrando assim das despesas relacionadas a trabalho.

Considero muito difícil imaginar porque alguém gostaria de ter seu sistema de transportes – do qual o Uber é uma parte essencial em muitos países – nas mãos dos fundos sauditas, com nenhum ou pouquíssimo dinheiro sendo deixando na economia local, uma vez que não haverá mais motoristas locais empregados. É apenas um exemplo de muitos, mas revela uma verdade muito desagradável: as plataformas digitais hoje são precisamente a vanguarda do capitalismo global e a lógica da competição capitalista global deixa muito pouco espaço para a ética. O que precisamos são infraestruturas que pertençam e seja operadas localmente, não esperanças vagas de que Uber e Airbnb podem se tornar éticos.

Você geralmente expressa visões bastante sombrias a respeito do papel da tecnologia em nossas vidas. Mas essa mesma tecnologia, por exemplo, também não empodera e conecta movimentos e atores democráticos e espontâneos, que do contrário não atingiriam um público maior? Não pode essa mesma tecnologia ser usada para fazer resistência a regimes populistas e tirânicos?

Evgeny Morozov Minhas visões sobre o papel da tecnologia em nossas vidas não são sombrias. A ideia de que Uber e Airbnb representam “tecnologia” é o maior truque ideológico que o capitalismo global opera em nós atualmente. Se isso representa alguma coisa, são as formas mais avançadas de financeirização e precarização. Consigo imaginar facilmente um sistema de transporte digital totalmente automatizado que será amigo do meio ambiente e irá reinvestir as economias que gera de volta na economia local, talvez até na forma de algum tipo de renda mínima para todos.

As pessoas que passaram anos pensando em como Facebook ou Twitter podem ajudar movimentos democráticos a disseminar conscientização, em minha opinião, perderam tempo: o que estes movimentos ganham em facilidade de espalhar mensagens acabam perdendo em sua habilidade de analisar como estas mesmas plataformas digitais representam e personificam exatamente o tipo de capitalismo autoritário que estes movimentos dizem estar combatendo. A era das “redes sociais” – em que essas plataformas se resumiam em sequestrar a atenção – terminou; o que veremos na próxima década é a proliferação de serviços avançados, todos sustentados por inteligência artificial, que irão transformar territórios muito mais importantes, da operação do estado do bem-estar e da burocracia até o modo como organizamos a produção. Focar apenas no aspecto da comunicação de tudo isso é ignorar a transformação estrutural do estado e da economia.

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