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‘PT terá de ceder se quiser baixar a rejeição’

Carlos Melo, do Insper, fala ao ‘Nexo’ sobre as resistências ao partido e sobre o desafio de Haddad na hora de capturar votos do centro

     

    Na véspera das eleições de domingo (8), Fernando Haddad era rejeitado por 41% dos eleitores, de acordo com o Datafolha. Seu adversário no segundo turno, Jair Bolsonaro, tinha uma rejeição ainda maior, de 44%. A diferença é que o candidato do PSL obteve 46% dos votos válidos. O petista teve 29% e precisa, portanto, ganhar muito terreno a fim de vencer a sucessão presidencial, cuja votação decisiva está marcada para 28 de outubro.

    Para o cientista político do Insper (Instituto de Pesquisa e Ensino Superior) Carlos Melo, Haddad terá de enfrentar uma série de obstáculos que envolvem debates éticos, morais e econômicos. Tudo para que possa se aproximar de um eleitorado alinhado mais ao centro e à direita no espectro político-ideológico. Para Melo, porém, a dificuldade do partido em fazer uma autocrítica pode ser um entrave.

    Segundo o cientista político, a defesa intransigente de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente preso pela Lava Jato, barrado pela Lei da Ficha Limpa e principal cabo eleitoral de Haddad, atingiu o objetivo de transferir votos ao ex-prefeito de São Paulo no início da campanha. Mas agora o partido precisa mostrar como combina a defesa de um líder condenado a 12 anos de cadeia ao mesmo tempo em que enfrenta de frente a questão do combate à corrupção, tema caro a um público antipetista que precisa ser conquistado pelo candidato.

    Por que o PT tem uma rejeição alta? É possível encontrar matizes nessa rejeição ou se trata de um fenômeno de total rechaço?

    Carlos Melo Tem matizes. É uma rejeição por vários motivos. Você tem uma rejeição ao PT que é moral, por conta da corrupção, em virtude das denúncias todas que aconteceram. Nesse sentido, o PT de alguma forma está carregando todo o peso dos problemas do sistema político brasileiro. Perceba que o PSDB, o MDB, todos eles, estão tão comprometidos quanto o PT com relação a denúncias de malfeitos nos últimos tempos, mas foi o PT que virou símbolo disso.

     

    Eu não estou dizendo que o partido é inocente. Não estou dizendo que é injusto. Estou dizendo que o PT está arcando com todos os custos da corrupção do sistema brasileiro sozinho. Ele não é inocente, mas também não é o único.

     

    Há ainda uma rejeição de costumes. O eleitor mais conservador vê o PT  formado com pessoas cheias de propostas que considera descabidas, como a defesa do aborto, por exemplo. Para essas pessoas, o partido acaba sendo o antagonista de tudo o que preocupa o setor mais conservador.

     

    Depois, há uma outra restrição ao PT que não é exatamente moral, mas econômica. Essa segunda restrição até tem uma intersecção com a primeira, da corrupção, mas ela também tem uma certa autonomia em relação à primeira. E é menos em relação ao que o PT fez em assuntos de corrupção, é mais em relação às opções que o PT fez na área econômica, sobretudo em relação a intervenções na economia.

    Por que o partido desperta tanta desconfiança na questão econômica? Seu programa em 2018 é de fato uma repetição do programa de Dilma Rousseff?

    Carlos Melo As pessoas têm desconfiança, porque o programa da Dilma [que governou de 2011 a 2016, quando sofreu impeachment] não deu certo. Alguém poderá dizer que ela teve cinquenta e poucos porcento dos votos [na campanha da reeleição em 2014]. É verdade. Só que não deu certo. Logo, se é uma repetição, é um erro.

    Além da questão moral e da questão econômica, há ainda aqueles que até relevariam o PT como única opção diante de Bolsonaro, mas esperam que o partido faça uma autocrítica.

    Então, o PT tem problemas de ordem ética, de ordem econômica e tem dificuldade de fazer uma autocrítica também.

    Por que o PT se recusa a fazer uma autocrítica sobre a corrupção? O fato de ter seu maior líder preso impossibilita um debate aberto sobre o tema?

    Carlos Melo O fato de Lula estar preso, sim. Além disso, acho que, no primeiro turno, havia uma preocupação de não perder o voto do próprio PT, não perder o voto daqueles que dizem que o impeachment foi golpe.

    O PT defendeu uma narrativa ao longo desses anos de que o impeachment foi golpe. Reconhecer erros significa admitir que foram esses erros que levaram ao impeachment, e não um golpe necessariamente.

    Eu acho que fazer isso abriria um flanco de questionamento ao Haddad, pois, dentro do PT, ele é visto como o mais tucano dos petistas. Se ele matiza essa relação, ele apanha pela esquerda e apanha dentro da direção partidária, uma direção partidária que, no primeiro turno, teve muita importância porque, afinal de contas, há uma dependência do candidato em relação à direção do partido.

    No segundo turno essa dependência diminui, enquanto as exigências tendem a aumentar. Fica muito mais dramático. E aí ele terá de fazer mea culpa [sobre os erros do partido]. Por cálculo eleitoral e pragmatismo, acredito que faça.

    Por fim, outra questão ligada ao antipetismo — e esse ponto precisa ser lido em contexto, não como informação solta, porque é delicado — é o antipetismo estético. É o um antipetismo de quem sempre achou o PT um partido sem o lustro, sem o charme dos tucanos, por exemplo. Essas coisas todas se juntam.

    Você junta tudo isso e põe por cima as fake news, está pronto. O WhatsApp foi uma coisa extraordinária nessa campanha. No sábado (6), levei meu filho num jogo de futebol. Lá, havia um sujeito dizendo que o “Jean Wyllys [deputado do PSOL do Rio] era do PT e tinha um projeto que descriminalizava a pedofilia e autorizava o casamento homossexual aos 12 anos de idade”. Primeiro, o Jean Wyllys não é do PT. Segundo, ele não tem nenhum projeto desse tipo. Isso é um absurdo. Eu disse isso para a pessoa. E ela me mostrou então o WhatsApp para dizer que era verdade.

    Então, tem essa somatória. Não é uma rejeição em bloco. É algo matizado. E as matizes são todas essas.

    A estratégia de associação direta de Haddad e de Lula funcionou inicialmente. É algo que deve permanecer ou Haddad precisa ganhar autonomia? Qual o cálculo embutido nessa relação?

    Carlos Melo Ele precisa ganhar autonomia porque ele sofreu críticas muito fortes, inclusive de setores de esquerda, por ter dado a impressão de ser um sujeito teleguiado — para usar a expressão de João Doria [candidato tucano ao governo paulista]: um fantoche.

    O presidente da República é a maior liderança política nacional. Ele não pode ser o segundo. Ele tem que ser o primeiro. Então, à parte o respeito e a solidariedade que o Haddad pode ter por Lula, ele precisa perceber que a bola é dele. Ninguém vai jogar por ele. Ou ele assume o desafio histórico ou ele vai ficar como um boneco de ventríloquo, o que não é bom em nenhum momento na política.

    O fato de o PT estar diante da candidatura de Bolsonaro, também muito rejeitada, leva o partido a repensar suas propostas, na área econômica especialmente, para atingir um eleitorado mais amplo no segundo turno? Só apelos pela democracia bastam?

    Carlos Melo Como a rejeição é matizada, ele não pode trabalhar apenas nesse campo. Ele tem que reduzir a resistência à sua política econômica, mas também em relação a questões morais e éticas. Tem que diminuir a resistência em todos os setores. Falar só de democracia — evidentemente que a democracia não é pouco importante — não me parece ser suficiente, porque a democracia não é exatamente um valor enraizado no todo da sociedade brasileira. Tem gente que não vai se sensibilizar por esse único apelo. Haddad vai ter que lidar com todos os campos da rejeição.

    Por que a esquerda tem dificuldades de emplacar um discurso consistente sobre segurança pública, uma das principais preocupações do brasileiro?

    Carlos Melo Há um conflito a respeito do significado dos direitos humanos. O termo foi apropriado pela direita mais reativa como direito de bandido, de facínoras. Eu acho que a esquerda perdeu essa guerra porque faltaram políticas mais efetivas no combate ao crime.

    Vai ter que mostrar que o combate ao crime será efetivo. Outro dia, Haddad estava falando que ia usar a Polícia Federal na segurança pública, no combate à violência. Eu não sei como fazer isso. Acho que a Polícia Federal pode ter um papel importante como inteligência, para desbaratar o crime organizado, mas a violência cotidiana requer fortes investimentos na polícia, na polícia dos estados.

    Faltou uma atenção da esquerda a isso, um discurso nessa direção. Teria de ser um discurso que não abandonasse a questão da prevenção, mas que se preocupasse também com a questão da repressão. A política de segurança urbana não é só repressiva. Ela tem que ser preventiva também. Mas ela também não pode ser só preventiva. O crime vai existir e tem que ser reprimido.

    O PT, nesse campo, deve buscar um meio termo. Existem coisas avançadas, projetos como o Sistema Único de Segurança Pública, mas isso é de difícil explicação para a massa. O partido terá de traduzir o que pensa em termos de segurança urbana para um eleitor que quer medidas rápidas e efetivas. Ele vai ter que dizer, por exemplo, que as medidas não são efetivas, embora sejam rápidas.

    A preocupação social, com a desigualdade, saiu do radar do eleitor? Ou ela ainda é capaz de mobilizar uma campanha?

    Carlos Melo Saiu do radar do eleitor porque perdeu centralidade. Quando você tem uma situação de bem-estar econômico, a questão da corrupção, por exemplo, se torna secundária. Ela existe, mas fica secundária. As questões éticas ficam periféricas.

    Aí, quando você tem crise, insatisfação, todas as questões periféricas assumem centralidade. A raiva e o desalento chamam muito mais a atenção para questões de segurança pública — por conta da questão repressiva — do que para questões que pudessem mitigar os problemas no longo prazo, como políticas públicas em educação, assistência, Bolsa Família, enfim, coisas que retirem o indivíduo da alça de mira do crime.

    No momento em que você tem bem-estar, essas questões são compreendidas de uma forma. No momento que você tem um enorme mal-estar econômico — e nós estamos vivendo uma crise de segurança pública que só o [candidato derrotado do PSDB] Geraldo Alckmin não reconhecia — essas questões se tornam todas secundárias.

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