Ir direto ao conteúdo
Profissão

Ana C. Lourenço: do que o Brasil precisa e o que farei por isso

Ana Carolina Lourenço é cientista social com mestrado pela Uerj. Atualmente é coordenadora executiva do escritório da fundação latino-americana Cidadania Inteligente. Em 2018, coordenou diversos projetos com foco na participação cidadã nas eleições e na promoção de candidaturas de mulheres, mulheres negras e LGBTs.

Este texto é parte de um projeto de breves entrevistas com membros da sociedade civil, que durante a campanha eleitoral vão falar de suas expectativas para o próximo mandato presidencial e apontar suas próprias ações na tentativa de contribuir para o futuro do país.

Do que o Brasil precisa nos próximos quatro anos?

“No domingo (7), dia da eleição, não importa o resultado, nós, brasileiros, vamos saber que este processo eleitoral teve muitas perdas e muitas vitórias para a sociedade civil.

No campo das perdas, tivemos um processo eleitoral absolutamente violento, marcado por ataques diretos, tanto de violência física quanto violência simbólica. O discurso de ódio se tornou um ativo político para mobilizar candidaturas de todos os espectros e campos, seja do Legislativo, seja do Executivo. Perdemos enquanto sociedade quando valores como esses, absolutamente antidemocráticos, entram no centro do debate sobre a eleição.

Mas tivemos grandes vitórias. Esta eleição promoveu talvez um dos maiores movimentos e protestos protagonizados por mulheres na história do Brasil, que foi a movimentação do dia 29 de setembro, pelo #elenão, em mais de 300 cidades em todo o mundo. Tivemos também uma renovação direta de perfis políticos. Há muitos jovens, muitas mulheres, muitas mulheres negras, candidaturas e grupos LGBTs. Eles aceitaram o desafio de construir candidaturas, pensar em inovação política, mandatos coletivos.

Mas, não importando o resultado no domingo, nós sabemos que temos muitos desafios nos próximos quatro anos. Eles passam diretamente por nossa capacidade promover a democracia como um sistema de governo que reivindica a diferença, que ensina o poder do diálogo, do entendimento, a necessidade de ceder quando os valores democráticos estão em jogo. Só nesse modelo é possível cumprir a promessa democrática de criar melhores vidas, vidas mais justas, com mais direitos. Os próximos quatro anos serão anos de trabalho. Temos que nos repensar como sociedade e projeto de democracia.”

E o que você vai fazer para isso, para além do voto?

“A primeira resposta possível é dizer que vou continuar fazendo o que já faço, me adequando aos cenários que vão ser postos depois da eleição.

A Fundação Cidadania Inteligente, da qual faço parte, trabalha com o Conselho da Ação Democrática na América Latina. Promovemos tanto projetos de incidência quanto de criação de ferramentas para grupos, movimentos e organizações da sociedade civil.

Para as eleições, e junto com outras organizações, elaboramos três projetos. O primeiro é o Me Representa, uma plataforma que busca promover o encontro entre candidaturas pró-direitos humanos e eleitores dispostos a encontrar candidatos que defendem essas pautas. Nesse projeto, por meio de filtros e do algoritmo, priorizamos candidaturas que representam grupos minorizados, como mulheres, mulheres negras e LGBTs.

Outro projeto que fizemos para as eleições foi o Rio Por Inteiro, uma iniciativa que convida candidaturas fluminenses a se comprometerem com pautas que importam para a sociedade civil e busca aproximá-las dos eleitores interessados nesses assuntos.

O terceiro projeto de que participamos foi o Tretaqui!, uma coalização de mais de oito organizações que busca melhorar o processo de denúncias de crimes de ódio realizados por candidaturas ou contra candidaturas no período eleitoral.

Todos esses projetos nos rendem uma responsabilidade muito grande depois do processo eleitoral. Continuaremos com esse compromisso absoluto com a diversidade na política, principalmente no Legislativo. Depois do dia sete, verificaremos o quanto algumas candidaturas que se utilizaram de uma identidade política pró-direitos humanos conseguiram converter essa identidade como ativo político nas urnas.

Além disso, teremos uma preocupação. Num cenário de acirramento do ódio e de desrespeitos, tanto candidaturas eleitas quanto as que não irão para o Legislativo terão mais visibilidade, por isso talvez correrão mais riscos. Por esse motivo, nos próximos quatro anos, vou continuar fazendo a redução de danos que possam cair sobre esses grupos, que agora estão mais visíveis. Uma democracia mais forte passa pelo compromisso de uma classe política socialmente mais justa, construída a partir da diversidade dos setores da sociedade e com lógicas e regras responsáveis pela construção desse projeto. Vou continuar defendendo esse compromisso nos próximos quatro anos.”

Com produção de Mariana Vick

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!