Profissão

Irene Rizzini: do que o Brasil precisa e o que farei por isso

Irene Rizzini é professora da PUC-Rio e diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Primeira Infância na mesma faculdade. Em âmbito internacional, foi presidente da Rede Internacional de Pesquisa sobre a Infância entre 2002 e 2009. É psicóloga, mestre em assistência social pela Universidade de Chicago e doutora em sociologia. Entre suas principais obras estão ‘O século perdido: raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil’ (Cortez, 2011) e ‘Cuidado familiar e saúde mental: a atenção a famílias e seus filhos na infância e na adolescência’ (PUCRio, 2013).

Este texto é parte de um projeto de breves entrevistas com membros da sociedade civil, que durante a campanha eleitoral vão falar de suas expectativas para o próximo mandato presidencial e apontar suas próprias ações na tentativa de contribuir para o futuro do país.

Do que o Brasil precisa nos próximos quatro anos?

“Por muitos anos venho me dedicando à pesquisa e à ação social com foco na população infantil e juvenil. Uma das muitas riquezas de nosso país é sua população jovem. São 60 milhões de brasileiros abaixo dos 19 anos — uma riqueza rara em muitos países! O Brasil, no entanto, tem deixado a desejar no que tange ao cuidado com essa população.

O Brasil precisa de estratégias a curto e longo prazo para reduzir a pobreza e as desigualdades. Avançamos muito em nossos acordos nacionais e internacionais no campo dos direitos humanos. Entretanto, se nossa população infantil e juvenil continua vivendo em condições de pobreza e desigualdades, suas vidas e o futuro do país ficam ameaçados. Não estamos caminhando em uma boa direção para isso.

No Brasil, pelo terceiro ano consecutivo, os índices de pobreza extrema aumentaram, atingindo 14,8 milhões de pessoas. Pela primeira vez em duas décadas, assistimos ao aumento da mortalidade infantil. Há significativas desigualdades de acesso a direitos entre negros e brancos, um dos principais aspectos quando falamos em redução da pobreza.

O Brasil precisa de políticas efetivas, com previsão orçamentária adequada e sem as usuais descontinuidades de investimento atreladas a governos e partidos políticos. Precisa de ações que possibilitem condições de vida digna às famílias e aos responsáveis pelas crianças. Isso implica, de imediato, recursos materiais e suporte às famílias e filhos vivendo em contextos de vulnerabilidade e violência.”

E o que você vai fazer para isso, para além do voto?

“Como pesquisadora e cidadã, venho buscando contribuir para a elaboração e implementação de políticas públicas que beneficiem crianças, adolescentes e jovens em nosso país.

Trabalhando sempre com diversos parceiros dos setores governamental e não governamental, principalmente profissionais que atuam junto à população infantil e juvenil em contextos de vulnerabilidade e junto a moradores de comunidades profundamente afetadas pela violência, temos produzido e divulgado pesquisas, indicando caminhos para melhorar as políticas públicas voltadas para esse segmento. Também temos trabalhado para fortalecer os mecanismos de ação em defesa do bem-estar das crianças, como é o caso de nossa participação na recente aprovação do Comentário Geral da ONU com foco na população em situação de rua.

Nos últimos anos temos enfatizado a importância da participação no desenvolvimento das políticas públicas de diversos grupos cujas vozes normalmente não são ouvidas, como familiares e lideranças que atuam nas favelas e nas periferias, assim como as crianças e os adolescentes. O Conanda (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) aprovou resoluções que demandam a participação desse grupo nos conselhos de direitos, mas o Brasil ainda resiste. Uma de nossas prioridades no presente tem sido a de preparar lideranças jovens que desenvolvam sua participação cidadã, a fim de atuarem nos espaços públicos onde serão tomadas decisões sobre suas vidas.

É verdade que as crianças mais vulneráveis, sobretudo aquelas na primeira infância, precisam ter prioridade nas políticas públicas, porém importa o bem-estar de todas. É um dever de qualquer país para com sua população. As crianças não são apenas o futuro do país — elas são também o hoje e estão ao nosso redor, aqui e agora.”

Com produção de Mariana Vick

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