Ir direto ao conteúdo

Como era a vida das mulheres no cangaço, segundo esta autora

Escrito pela jornalista Adriana Negreiros, ‘Maria Bonita’ traz foco inédito sobre as cangaceiras que faziam parte do bando

Foto: Benjamin Abrahão
Maria em trajes de festa:cabelo ao estilo das melindrosas, dedos tomados por anéis e pescoço cheio de colares
 

Perseguidos por quase duas décadas pelas forças policiais do Estado e por caçadores de cangaceiros, interessados nas recompensas oferecidas por sua captura, Maria Gomes de Oliveira e Virgulino Ferreira da Silva, a rainha e o rei do cangaço, foram assassinados em julho de 1938, junto a outros nove cangaceiros, na chacina de Angico, em Sergipe.

Um detalhe desse desfecho não escapou à jornalista Adriana Negreiros, que o descreve em seu livro “Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço”: decapitado, assim como os outros dez corpos, o de Maria foi abandonado no local da chacina com as pernas abertas e um pedaço de madeira enfiado na vagina.

Embora a naturalização da violência – não só da parte dos cangaceiros, mas também da polícia –  não vitimizasse apenas mulheres no sertão da década de 1930, elas eram alvo de crimes específicos. Muitas eram estupradas, inclusive coletivamente, mortas e marcadas a ferro.

A presença de mulheres nos bandos de cangaceiros passou a ser permitida por Lampião após a chegada ao bando de sua companheira, conhecida então como Maria de Déa ou Maria do Capitão, no início de 1930. Antes dela, que é a primeira cangaceira, nenhuma mulher havia acompanhado o grupo.

Ao contrário de Maria, que decidiu voluntariamente acompanhar Lampião, muitas das mulheres do bando haviam sido raptadas pelos cangaceiros e forçadas a viver com eles.

Foto: Benjamin Abrahão
Maria e Lampião e os cães de estimação. Ele mostra para a câmera um exemplar da revista 'A Noite Ilustrada'
 

É a partir do ponto de vista feminino, centrado na figura de Maria Bonita, que Negreiros constrói sua narrativa sobre o cangaço. Seu livro conta, de certa maneira, a história da conversão de Maria Gomes de Oliveira (em vida) em Maria Bonita (após a morte).

O mito não é estranho ao fenômeno do cangaço. Mas, no caso da figura de Maria Bonita e outras cangaceiras, a mitificação ganhou força somente após o movimento, depois da morte da própria companheira de Lampião, já que, enquanto durou o cangaço, eram poucas as informações que circulavam sobre as bandoleiras.

Em entrevista ao Nexo, Adriana Negreiros fala sobre as condições de vida das sertanejas no cangaço, o machismo e as violências sofridas por elas, e das dificuldades enfrentadas em sua pesquisa. Também são reproduzidos, abaixo, alguns trechos do livro.

Por que e como a figura de Maria Bonita foi convertida no que é hoje?

Adriana Negreiros De uma forma geral, ideias equivocadas sobre algum fenômeno histórico ocorrem em função da ausência de informações. No caso do cangaço, foi mais ou menos isso que aconteceu.

Nos anos 1930, havia poucas informações sobre as mulheres no cangaço. O que os jornais geralmente reproduziam a respeito da presença delas eram informações fornecidas pelas fontes oficiais, que eram as chamadas “forças volantes” – a polícia, os comandos de caça aos cangaceiros.

De forma geral, a polícia tratava as mulheres do bando como criminosas. Eram tidas como bandidas mesmo, embora muitas delas não fossem.

“A transformação de Maria Gomes de Oliveira, a Maria de Déa, em estrela nacional começou no dia 29 de dezembro de 1936. Naquela terça-feira, os leitores de ‘O Povo’, de Fortaleza, viram, pela primeira vez, a imagem da mulher que largara o marido para viver com o fora-da-lei mais procurado do Brasil”

Adriana Negreiros

Em 'Maria Bonita'

Havia aquelas que tinham se tornado cangaceiras porque quiseram, como era o caso da Maria, mas havia muitas que estavam no cangaço contra a sua própria vontade.

Eram então retratadas como combatentes, quase como mulheres sanguinárias, o que era uma ideia muito equivocada: muitas nem sequer pegavam em armas, não participavam dos combates. Mas eram retratadas com um certo tom de periculosidade.

Ao longo do tempo, a figura da Maria Bonita como uma cangaceira valentona, justiceira, foi se transformando em uma espécie de ícone feminista, que é o que chega a nós hoje em dia

Isso foi rapidamente apropriado pela indústria do entretenimento, ainda que com uma roupagem um pouco mais romanceada. Foi essa a imagem [das cangaceiras] retratada pelo cinema, pela literatura, pela literatura de cordel.

Ao longo do tempo, essa figura da Maria Bonita como uma cangaceira valentona, justiceira, foi se transformando em uma espécie de ícone feminista, que acaba sendo o que chega a nós hoje em dia. Fazendo uma certa genealogia do mito, eu arriscaria essa explicação. 

Foi difícil encontrar informações sobre as cangaceiras? Como elas aparecem em registros históricos?

Adriana Negreiros Como disse, há poucas informações sobre as mulheres no cangaço. De fato, na década de 1930, elas eram retratadas como mulheres perigosas, ainda que as informações fossem muito escassas.

Posteriormente, mesmo na literatura que se produziu sobre o cangaço, elas eram muito desconsideradas e, várias vezes, desacreditadas

Pouco se falava sobre as mulheres [cangaceiras] nos jornais e nas revistas. Geralmente, a atenção recaía sobre os cangaceiros, sobre Lampião e Corisco, que eram as grandes celebridades. As mulheres eram um pouco esquecidas.

Posteriormente, mesmo na literatura que se produziu sobre o cangaço, elas eram muito desconsideradas nessas narrativas e, várias vezes, desacreditadas.

Quando falaram sobre suas existências no bando de Lampião, as cangaceiras foram tidas por mentirosas, exageradas, dramáticas. Muitos diziam que elas queriam aparecer

Algumas delas sobreviveram ao cangaço. Dadá morreu em 1994, teve tempo para dar muitas entrevistas, deixou registros em vídeo, escreveu livros com a ajuda de outras pessoas. Sila também deixou livros publicados e deu entrevistas. Deixaram bastante informação sobre o período que viveram no cangaço.

O que é curioso e triste é que muitas vezes, quando falaram sobre suas existências ali no bando de Lampião, as cangaceiras foram tidas por mentirosas, exageradas, dramáticas. Muitos diziam que elas queriam aparecer, que estavam interessadas em se tornar celebridades.

Então o registro sobre essas mulheres é muito precário e, quando há informações, elas são rapidamente postas em questão, como se o discurso delas não pudesse ser levado em consideração, não tivesse credibilidade histórica. 

Foto: Benjamin Abrahão
As cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha
 

Como era, em geral, a vida das mulheres (levando em conta diferenças de classe) no sertão nordestino na década de 1930?

Adriana Negreiros Era uma vida terrível. A vida no sertão para uma pessoa pobre, como era boa parte da população, era bastante difícil.

Imagine que era uma vida isolada. Se hoje o sertão é esquecido pelo poder público, nos anos 1930, era completamente negligenciado. Era uma vida sem perspectivas, em um lugar sem acesso à educação, longe de tudo, com uma grande dificuldade: a seca.

As mulheres tinham uma vida bastante complicada nesse cenário. Além de cuidar dos afazeres domésticos, muitas vezes tinham que participar também da lavoura. Também eram vítimas frequentes de violência. No período do cangaço, as mulheres eram grandes vítimas da violência policial e também por parte dos cangaceiros. Ficavam no meio do fogo cruzado.

As mulheres eram tidas como objeto para punir os homens. Era muito comum estuprar a filha de um sertanejo que tivesse dado guarida a cangaceiro, ou que houvesse denunciado o paradeiro dos cangaceiros para a polícia

Utilizava-se muito como arma contra elas a violência sexual. Muitas vezes, esposas e filhas de coiteiros sofriam violência sexual dos cangaceiros e das forças volantes.

“Coiteiro” era como eram chamados os sertanejos que davam abrigo aos cangaceiros. Não porque quisessem, mas porque não tinham opção. Se chegasse um grupo de cangaceiros em uma casa no sertão pedindo proteção, ou você dava ou morria, era torturado. Não havia saída.

E as mulheres eram tidas como objeto para punir os homens. Era muito comum estuprar a filha de alguém para dar uma lição a um sertanejo que havia dado guarida a cangaceiro, ou então a um sertanejo que houvesse denunciado o paradeiro dos cangaceiros para a polícia. 

Quais eram as violências aplicadas pelos cangaceiros especificamente às vítimas mulheres?

Adriana Negreiros O Zé Baiano, que era um cangaceiro bastante violento, tinha esse hábito de marcar as mulheres com um ferro em brasa, com as iniciais JB [de José Baiano].

Seus motivos podiam ser porque a mulher tivesse cabelo curto ou usasse uma roupa curta, ou porque era mulher de um soldado – de um “macaco”, como eles chamavam – ou porque fez algo que, por alguma razão, eles não gostaram, então ela era submetida a esse castigo.

Esses mesmos motivos eram mobilizados para justificar a violência sexual também. Houve uma moça que foi vítima de um estupro coletivo porque era casada com um homem muito mais velho do que ela.

O estupro não era para puni-la – o que demonstra o quanto eles consideravam a mulher uma propriedade dos homens –, mas para punir o outro homem. No caso específico dessa moça, ela foi estuprada na frente do senhor para que ele tivesse vergonha, conforme Lampião justificaria depois. Até mesmo quando eram castigadas, o castigo era para atingir seus ‘proprietários’.

Quais eram as formas de uma mulher se juntar ao bando?

Adriana Negreiros Maria [Bonita] se juntou a Lampião porque realmente quis, porque havia um relacionamento entre eles. Ela tinha um casamento terrível, fracassado, com Zé de Neném, que era um sapateiro. Ele era bastante mulherengo e, segundo se dizia, também não a satisfazia sexualmente.

“Maria de Pancada entrara no grupo recém-saída da infância. O marido não fazia o tipo carinhoso. Certa vez, irritado, obrigou a mulher a acompanhá-lo, a pé, enquanto viajava a cavalo. Para aumentar o sofrimento da moça, arrastava-a pelo cabelo quando o bicho corria a galope. A tortura durou o dia inteiro”

Adriana Negreiros

Em 'Maria Bonita'

Ela então iniciou um relacionamento com Lampião. Ela sempre espalhava pela região a bravata de que queria um homem como Lampião, um valentão, e que ela teria coragem de fugir com o bando e, de fato, ela o seguiu, porque havia afeto entre eles.

Outras mulheres se juntaram pelo mesmo motivo. Durvinha, que acompanhou Virgínio, tinha um relacionamento com ele, era de fato apaixonada por ele e resolveu largar a vida terrível de uma sertaneja, sem nenhuma perspectiva – um dia se nascia, morria, e era sempre a mesma existência – e acompanhar o bando de cangaceiros era alguma possibilidade de uma vida mais aventureira, uma vida diferente daquela que elas tinham à disposição.

Então muitas mulheres foram em busca de aventura, em busca de amor. Mas muitas delas foram vítimas de rapto dos cangaceiros. Eram meninas muito jovens. Dadá, por exemplo, tinha 12 anos quando foi raptada por Corisco. A Sila, raptada pelo Zé Baiano, tinha 11 anos.

Não havia opção. Havia um terror mesmo no sertão. Era algo como “quem tem filhas, esconda-as em casa que os cangaceiros estão vindo”.

Se calhasse de algum cangaceiro gostar da sua filha, não tinha muito o que fazer. Ou ela acompanhava o bando ou podia ser morta, assim como a família.

E o que é mais complicado é que, muitas vezes, quando as meninas seguiam, mesmo à força, com o bando de cangaceiros, a família passava a ser vista pela polícia como coiteira. Mesmo que a família fosse vítima, que a filha tivesse sido raptada.

A partir de então, aquela menina era considerada uma cangaceira, uma bandida, sua família tinha implicação com cangaceiros, e a vida de todo mundo virava um inferno.

Qual era o status delas no bando?

Adriana Negreiros  Dentro do bando, as mulheres viviam uma situação de extrema opressão. Havia um código de conduta do bando que era profundamente machista, previa uma série de normas para as mulheres.

Por exemplo, elas tinham que ser extremamente fiéis aos seus homens, em qualquer circunstância, obviamente, mesmo aquelas que tinham sido raptadas.

Caso fossem flagradas ou houvesse alguma suspeita de que uma delas tivesse traído seu companheiro, poderiam ser punidas com a morte.

 

Foi o caso da Lídia, morta pelo Zé Baiano, da Lili do Moita Brava e da Cristina do Português. No caso da Cristina, nem sequer houve a constatação de adultério.

Apenas uma suspeita de que ela era muito próxima ao Gitirana, e decidiu-se que ela deveria ser morta. Ainda que ela falasse que eles tinham uma relação de amizade, ela foi morta e ele, curiosamente, não, porque ele era um cantor, ele animava os bailes e festas.

“Como regra, depois da morte de seus maridos, as mulheres ficavam à disposição dos outros cabras, como um patrimônio sem herdeiro certo. Um cangaceiro solteiro poderia, se quisesse, pegar a moça para ele. (...) Caso não despertasse o interesse de ninguém, o mais recomendável era que fosse morta, pois, caso voltasse para casa, poderia entregar os segredos do grupo para a polícia. A presença de mulheres solteiras era rigorosamente proibida no bando. Só ficava ali quem tinha dono”

Adriana Negreiros

Em 'Maria Bonita'

Elas não tinham [direito ao] querer, à vontade. Não podiam criar seus filhos. Engravidavam frequentemente, porque não havia métodos contraceptivos. Quando as crianças nasciam, elas não podiam ficar com elas, tinham que entregá-las para famílias ou abandoná-las, porque bebês não combinavam com a rotina do bando.

Bebês choram, podiam chamar atenção das forças volantes. Não tinham esse direito. Posteriormente, em uma das entrevistas que deu, a Dadá definiria essa dor – de ter um filho e ter que entregar para alguém criar – como a maior dor do mundo.

Comparativamente às mulheres de sua época (no campo e na cidade), as cangaceiras gozavam de uma condição diferente em relação aos homens?

Adriana Negreiros Muita gente defende a tese de que as mulheres no cangaço tinham uma situação mais igualitária em relação aos homens do que as mulheres sertanejas que ficavam em casa. Mas eu acho que isso é um equívoco.

Foto: Benjamin Abrahão
Maria penteia Lampião, em raro registro da intimidade do casal
 

Geralmente, quem defende essa tese se apega ao fato de que, no bando, havia uma certa divisão das tarefas domésticas [entre homens e mulheres], o que não existia para as mulheres das grandes cidades nem para as mulheres sertanejas.

Se os cangaceiros faziam de fato algumas tarefas atribuídas às mulheres, como cozinhar e costurar, não era porque estivessem preocupados com a igualdade na divisão das tarefas domésticas, mas porque já era um hábito deles.

Os homens caçavam e preparavam a carne para comer e também costuravam, mas porque é uma tradição do vaqueiro, que produz sua roupa de couro, por exemplo.

Acho que as mulheres cangaceiras tinham uma vida ainda pior que as outras. Porque eram submetidas a violências muito mais constantes, enfrentavam a fome e a sede, não tinham pouso certo, estavam constantemente fugindo da polícia e eram tidas como bandidas por todos os lados, oprimidas tanto por parte dos seus homens, os cangaceiros, quanto por parte da polícia.

Acho que era uma existência ainda pior do que a das mulheres sertanejas convencionais e das que estavam nas grandes cidades.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!