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O atentado a Bolsonaro sob o olhar da psicanálise

Em entrevista ao ‘Nexo’, Christian Dunker fala dos efeitos do clima social sobre atos extremos e da violência política na história brasileira

 

 

Um ato de violência de grandes proporções, mesmo que realizado por um indivíduo aparentemente desequilibrado, pode ser dissociado do clima que toma conta de uma sociedade? O Nexo propôs essa questão a Christian Dunker, psicanalista e professor-titular do Instituto de Psicologia da USP, como introdução a uma análise do atentado contra Jair Bolsonaro ocorrido na quinta-feira (6).

 

O candidato do PSL à Presidência da República foi esfaqueado em Juiz de Fora, cidade mineira, num evento público de campanha realizado a pouco mais de um mês da votação de 7 de outubro de 2018. A agressão que levou o candidato à UTI, com sérios ferimentos na barriga, foi causada por Adelio Bispo de Oliveira, um homem de 40 anos que alega ter cometido o atentado “a mando de Deus”.

 

Bolsonaro, que ganhou projeção nacional com um discurso radical antissistema, com apologia a armas de fogo e contrário a uma política tradicional solapada por seguidos escândalos, lidera as pesquisas de intenção de voto nos cenários sem Luiz Inácio Lula da Silva. Ex-presidente, o líder petista está preso pela Operação Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro e foi considerado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, com base na Lei da Ficha Limpa.

 

Adelio Bispo de Oliveira diz ter atacado Bolsonaro por motivação religiosa, de forma individual, sem ajuda de outras pessoas. Mas sobressaem também alegações políticas e raciais, segundo o advogado que o representa. A defesa pediu uma perícia sobre sua sanidade mental. Parentes já relataram desequilíbrio do agressor. As investigações estão em curso, sob o comando da Polícia Federal.

 

Nesta entrevista, concedida por e-mail, Dunker analisa o clima social brasileiro, como ele pode influenciar atitudes extremas de indivíduos, e relembra os contextos mais amplos da violência política na história brasileira. 

 

Um ato de violência de grandes proporções, realizado por um indivíduo aparentemente desequilibrado, pode ser dissociado do clima que toma conta de uma sociedade?

 

CHRISTIAN DUNKER Margaret Thatcher [primeira-ministra britânica na década de 1980] dizia que é preciso ter cuidado com o que se pensa, porque o pensamento vira palavra. E que é preciso ter cuidado com o que se diz, porque a palavra vira ato. O clima discursivo acelerado pelos conflitos sociais e pelo declínio relativo das instâncias de mediação favorece que os desequilíbrios, transtornos e opressões se acentuem, passando de pensamentos a palavras e de palavras a atos.

 

A passagem da agressividade verbal para a violência em ato, assim como da violência isolada para a sua repetição em cadeia, é esperada em situações de tensão social como a que vivemos. Tragédias como a de Realengo [em 2011, quando um homem de 23 anos invadiu uma escola do Rio, assassinou 12 crianças e depois se suicidou] ou como a de Juiz de Fora [o atentado a Bolsonaro] não são criadas pela tensão social, mas pessoas em estado de agudo sofrimento psíquico são sensíveis à interpretação produzida sobre um determinado estado de mundo.

 

Na sua avaliação, o ódio político disseminado no país ajuda a explicar o ataque a faca contra Bolsonaro, mesmo diante do aparente desequilíbrio do agressor?

 

CHRISTIAN DUNKER É preciso entender que um discurso é muito mais do que um conjunto de teses que alguém defende ou representa. Um discurso compreende os efeitos de reprodução e reverberação do que alguém diz autorizando, incitando ou por outro lado reprimindo ou deslocando afetos e disposições de ação. Tomando um exemplo simples, considerando a linguagem digital em redes sociais, o discurso de alguém compreende os comentários que ele gera, o conjunto de efeitos, que frequentemente exageram e amplificam o que foi dito, preservando a mesma gramática.

 

O que muitos chamam de discurso de ódio ou de polarização está caracterizado por isso: criação e acusação de inimigos, valorização de armas ou violência, uso de provocação e desqualificação, ataque contra instâncias de mediação. Este tipo de discurso incita efeitos que a psicanálise situa no campo do imaginário, caracterizado pelas paixões de ódio ou fascinação, assim como espelhamento e inversão simétrica. Isso é um perigo pois atrai contra si pessoas e atitudes que valorizam os mesmos meios de violência e agressividade, só que em sentido inverso, criando uma espécie de barril de pólvora.

 

O autor do ataque atribuiu o ato a uma ‘ordem de Deus’ e costuma publicar delírios nas redes sociais. Como avalia esse perfil? É um perfil incomum?

 

CHRISTIAN DUNKER Não é incomum, trata-se de um discurso elaborado em torno de temas e agentes persecutórios, como a maçonaria e os partidos políticos, com o particular emprego de certos símbolos e grafismos. A interpretação conspiratória, em torno da hipótese de entes malignos que controlam o destino do mundo, com poderes de observação e onipresença, atravessa a história dos homens. Nas suas modalidades de megalomania, ciúmes, erotomania (certeza de que um determinado outro está apaixonado por nós) ou perseguição paranoica, tais interpretações de mundo se apresentam frequentemente combinadas com formas religiosas, projetos políticos e manifestações estéticas.

 

Os delírios são tentativas de estabilizar um mundo em desagregação e de reconstruir laços sociais. Delírios se tornam perigosos quando eles adquirem consistência social que sancionam e exigem uma “realidade suplementar” às suas figuras e temas, ou seja, por exemplo, quando um coletivo social começa a realmente acreditar que o mundo ou um país é controlado por uma conspiração de pessoas más, ou que nossos problemas serão resolvidos pela “eliminação” de tantas outras. Um delírio é um tipo de fantasia posta a céu aberto, e fantasias costumam captar um grupo (que com elas se satisfaz) em oposição a outros. Há políticos que pretendem catalisar explicitamente tais fantasias.

 

O Brasil é um país violento, com várias versões de violência, incluindo uma violência política já demonstrada em casos recentes, como o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio e nos tiros de arma de fogo disparados contra ônibus da caravana de Lula no Paraná. Como localizar a violência política na história do país? Ela esteve sempre aqui?

 

CHRISTIAN DUNKER A violência faz parte de nossa história desde os tempos da colonização portuguesa e da escravidão, mas esta não era a imagem na qual nos percebíamos. Podemos dizer que boa parte da violência, no campo e nas regiões pobres das grandes cidades, permanecia invisível para muitos dos brasileiros, que ainda assim a sentiam na carne ou a reproduziam desavisadamente. Isso é especialmente presente no caso da violência de classe, da violência de gênero e da violência de raça.

 

Isso pontua as mutações do poder desde a República da Espada até o crime da rua Tonelero [atentado contra o jornalista e político Carlos Lacerda, adversário de Getúlio Vargas, em agosto de 1954], sem falar no período militar, de 1964 a 1985. A violência nunca foi tematizada como um problema político; isso abre portas para seu retorno ostensivo como projeto de governo.

 

A descontinuidade institucional, gerada pelo afastamento de Dilma [Rousseff, alvo de um impeachment por manobras fiscais em 2016], pelo que a antecedeu e pelo que a sucedeu, representa um marco no sentido de tornar visível, ostensivo e generalizado o uso da violência em contexto de conflito de interesses. Esse princípio que desligou a autoridade do poder, levando ao sentimento social de que direito e justiça estão muito dissociados, que as instituições que deveriam promover tal aproximação não nos representam. Essa interpretação desceu dos estratos mais altos para os mais baixos em uma espécie de efeito de capilarização da injustiça.

 

A violência não é um fato natural, ela depende de nossas narrativas e interpretações, de nosso sentido de justiça e legitimidade, assim como do ressentimento social e do sentimento de vingança. Adelio mantinha em sua página a balança, símbolo da justiça, ainda que neste caso feita com as próprias mãos. Tal passagem ao ato tem uma relação com o sentimento, correto ou equivocado, de injustiça, com a impotência sentida diante de instituições e da política em geral.

 

 

 

 

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