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Profissão

Marlúcia B. Martins: do que o Brasil precisa e o que farei por isso

Marlúcia Bonifácio Martins nasceu no Rio e vive na Amazônia há mais de 30 anos. É pesquisadora e orientadora de programas de pós-graduação no Museu Paraense Emílio Goeldi, voltado ao estudo de sistemas naturais e socioculturais da Amazônia. Dedica suas pesquisas ao conhecimento dos insetos e à conservação da biodiversidade. Durante dez anos, coordenou um programa de pesquisa em biodiversidade da Amazônia oriental pelo governo federal. Entre suas publicações, está o livro ‘Amazônia maranhense: diversidade e conservação’ (MPEG, 2011), que ressalta a importância biológica da região mais devastada da floresta brasileira, onde há mais de 50 espécies ameaçadas de extinção.

Este texto é parte de um projeto de breves entrevistas com membros da sociedade civil, que durante a campanha eleitoral vão falar de suas expectativas para o próximo mandato presidencial e apontar suas próprias ações na tentativa de contribuir para o futuro do país.

Do que o Brasil precisa nos próximos quatro anos?

“O que é urgente no Brasil é restabelecer o Estado de direito, devolvendo-lhe a soberania para garantir os direitos constitucionais fundamentais de qualidade de vida e um meio ambiente saudável.

A impunidade aos crimes ambientais é um dos grandes entraves ao cumprimento das metas nacionais para garantir a sustentabilidade dos ecossistemas, a conservação da biodiversidade e a repartição justa e equitativa dos benefícios advindos da biodiversidade.

Não basta ampliar a fiscalização: é preciso desmontar as redes internacionais de tráfico de madeira, de animais e produtos da floresta. Estamos enfrentando batalhas judiciais e legislativas inimagináveis contra retrocessos em termos de violação dos direitos dos povos indígenas, das populações tradicionais e da constituição de um dos mais importantes instrumentos de conservação no Brasil, o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação).

O avanço do conhecimento no Brasil é notório. O desenvolvimento da tecnologia é promissor. Mas esses avanços não têm resultado em aprimoramento das políticas ou melhorias na sua efetividade. Precisamos ampliar o debate, ofertar informação de qualidade, dar voz aos povos da floresta e melhorar a compreensão da sociedade sobre a natureza dos problemas que a afetam.”

E o que você vai fazer para isso, para além do voto?

“Tenho apostado na restauração florestal como um mecanismo que se contrapõe ao processo desenvolvimentista devastador. Ela pode trazer para a pauta da sociedade o valor da floresta e de outras formas de vegetação nativa do território brasileiro.

Uma cadeia produtiva de restauração, além de ser favorável ao meio ambiente, cria oportunidade de trabalho e renda. Melhora as expectativas do agricultor familiar e do grande produtor, que ganham com o acúmulo do capital natural — pelo aumento de disponibilidade de água, pela facilitação da polinização e redução do risco de desastres. Traz perspectivas de desenvolvimento tecnológico por meio do aproveitamento sustentável da biodiversidade. Com a formação de SAFs (Sistemas Agroflorestais), suas técnicas contribuem ainda para a melhoria da segurança alimentar das populações locais. Há também o benefício da garantia e manutenção das culturas dos povos tradicionais, conferindo a eles meios de sobrevivência e reprodução.

Entendo como importante, enquanto produtora de conhecimento e educadora, fortalecer as bases de sustentação da restauração e continuar com os esforços pela manutenção da floresta e dos ambientes nativos do país. Ajudar a sociedade a compreender o valor da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, de modo a empenhar-se a construir bases sustentáveis de desenvolvimento.

Faço isso desenvolvendo pesquisa nos temas pertinentes e formando pesquisadores e professores. Participo também de fóruns nacionais e internacionais que estimulam o debate e as ações de conservação. Trabalho de forma direta na construção de propostas de fortalecimento das populações indígenas para a manutenção e recuperação das suas florestas. Luto com as armas do conhecimento para implantar o quanto seja possível de cidadania. Faço parte de um coletivo que não desiste. Vejo a situação desfavorável em que se encontram os alicerces da sociedade — a ciência, a educação, a saúde, a arte e o direito — como passageira, passível de superação. É nesta perspectiva que atuo para além do voto.”

Com produção de Mariana Vick

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