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O conteúdo do livro atacado por Bolsonaro, segundo sua editora

Mell Brites, da Companhia das Letras, fala ao ‘Nexo’ sobre os critérios de edição e de publicação de obras infanto-juvenis que tratam da sexualidade

     

    Um dos momentos mais tensos e disputados da entrevista que o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) deu ao Jornal Nacional, da TV Globo, na noite de terça-feira (28), envolveu um livro chamado “Aparelho Sexual e Cia”.

    Aos 20 minutos de entrevista, falando alto e por cima dos entrevistadores, Bolsonaro tentou mostrar para as câmeras o que, segundo ele, eram ilustrações impróprias para crianças, contidas no livro escrito por Hèlene Bruller, com ilustrações de Philippe Chappuis, que assina com o codinome Zep.

    “Retire o filho da sala para ele não ver isso aqui”, advertiu o candidato enquanto erguia a publicação, em tom de denúncia. Na bancada, a jornalista Renata Vasconcellos intercedeu: “Candidato, vou pedir para o senhor não mostrar se as crianças não podem ver”.

    A cena sugeria que, de fato, tratava-se de material impróprio, mas o livro em questão se destina precisamente a crianças e jovens com idade entre 11 e 15 anos, e não para “criancinhas a partir de 6 anos de idade”, como diz Bolsonaro quando se refere ao que ele chama de “kit gay”, do qual, de acordo com o candidato, o livro faz parte.

    “Aparelho Sexual e Cia” já foi traduzido para dez idiomas, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos no mundo, derivando numa exposição infantil que percorreu diversos países da Europa durante sete anos, incluindo duas mostras realizadas pelo governo francês em Paris.

    O candidato disse, por fim, que o livro é adotado em escolas públicas brasileiras, mas a editora responsável pela publicação no Brasil, a Companhia das Letras, esclareceu que o livro “nunca foi comprado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura), como tampouco fez parte de nenhum suposto ‘kit gay’. O Ministério da Cultura comprou 28 exemplares em 2011, destinados a bibliotecas públicas".

    No dia seguinte à entrevista de Bolsonaro ao Jornal Nacional, o Nexo entrevistou Mell Brites, que há sete anos é editora da Companhia das Letras e que participou da edição brasileira do livro “Aparelho Sexual e Cia”.

    Brites disse que hoje, no Brasil, “a desinformação prevalece e o debate se restringe a críticas ou comentários elogiosos, sem que se busque entender o que de fato está em jogo, o contexto, a história”.

    Bolsonaro diz que o livro é destinado a crianças de 6 anos. Como uma editora calcula a idade à qual determinado livro se destina, do ponto de vista das etapas de alfabetização e dos recursos cognitivos envolvidos numa determinada publicação?

    Mell Brites É importante, antes de tudo, dizer que no catálogo da editora a sugestão é que o livro seja trabalhado entre crianças de 11 a 15 anos.

    Este cálculo da equivalência entre o conteúdo de uma obra e a idade de seu público não é nada simples: um aluno de 8 anos que estuda numa escola pública no Piauí terá provavelmente experiências e conhecimentos muito diferentes de um aluno que estuda numa escola particular em São Paulo, capital, ou de outro que estuda na periferia do Rio de Janeiro, ou de outro que estuda numa escola média no Sul e assim por diante.

    Portanto, nossas sugestões de idade são feitas com base nos documentos oficiais – como os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) –, mas entendemos que o conhecimento que o professor tem de seus alunos é fundamental para adequar um livro a uma faixa etária. Nós oferecemos o livro ao público porque acreditamos no seu potencial. No entanto, a decisão de adotar a publicação é sempre do professor e de sua comunidade escolar.

    Como é o processo de decisão dentro de uma editora grande, como a Cia das Letras, sobre a conveniência de traduzir e publicar um determinado livro infantil? Que tipo de profissional é envolvido? Que tipo de filtros e crivos existem?

    Mell Brites No caso dos livros infantis, os dois departamentos fundamentais para a decisão de um título costumam ser o editorial e o departamento de divulgação escolar.

    Adequação à linha editorial do selo, relevância do tema, qualidade literária e gráfica são alguns dos critérios que usamos. No caso de “Aparelho Sexual e Cia”, entendemos, na época de sua contratação, que o tema abordado era de grande importância e pouco difundido e discutido entre os jovens.

    Este livro especificamente é de um autor estrangeiro, foi traduzido em diversos idiomas e publicado em vários países. O que a sra. pode contar a respeito da receptividade que o livro teve internacionalmente desde que foi publicado pela primeira vez?

    Mell Brites A obra foi publicada em dez línguas, vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares no mundo e foi transformada em exposição, que ficou por duas vezes hospedada na Cité de Sciences et de la Industrie, em Paris, e depois viajou por sete anos pela Europa, sem que tivesse recebido qualquer acusação ou reprimenda. Ao contrário, virou um modelo de como informar os jovens sobre temas importantes e incontornáveis. Entendemos que o livro foi muito bem recebido internacionalmente, um grande sucesso.

    Como o livro aborda a questão da homossexualidade – que foi o que motivou o debate no Jornal Nacional?

    Mell Brites Não há uma seção específica para o tema, que aparece em uma ocorrência, quando se fala sobre desejo, da seguinte maneira:

    “Um menino pode gostar de outro menino? Alguns meninos sentem desejo por outros meninos. Às vezes, quando crescem, podem até passar a preferir as moças, e outros que preferiam meninas podem mudar de ideia também.”

    “E o que é normal? Todo mundo se faz esse tipo de pergunta e, com o tempo, encontra a resposta: ouça o seu coração, e acabará descobrindo se é heterossexual (um menino que prefere as meninas, e vice-versa) ou homossexual (um menino que prefere os meninos ou uma menina que prefere as meninas).”

    “Uma menina pode gostar de outra menina? Vale para as meninas o mesmo que para os meninos.”

    Como editora de livros infantis e infanto-juvenis de uma grande editora, como a sra. avalia o nível do debate público que está instalado hoje ao redor dessa publicação no Brasil?

    Mell Brites Como tem sido muito comum nos tempos atuais, a desinformação prevalece e o debate se restringe a críticas ou comentários elogiosos, sem que se busque entender o que de fato está em jogo, o contexto, a história. Sugiro, antes de qualquer coisa, que todos se dediquem a ler Aparelho Sexual e Cia. e então formulem suas opiniões.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que o livro "Aparelho Sexual e Cia" foi escrito Philippe Cahppuis, que assina como Zep. Na verdade, ele é autor das ilustrações. O texto é de Hèlene Bruller. A informação foi corrigida às 12h30 do dia 30 de agosto de 2018.

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