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Eleição sem prévia: o balanço do grupo que tentou emplacá-la

Bianca Tavolari fala ao ‘Nexo’ sobre a experiência e a insistência do Quero Prévias ao tentar mudar a forma como os partidos escolhem seus candidatos

     

     

    No Brasil, a escolha dos nomes dos candidatos que disputarão uma determinada eleição é feita sem participação popular. Normalmente, é a cúpula de cada partido político quem decide. E, no fim, apresenta o nome desse candidato escolhido aos eleitores do país – que, na urna eletrônica, votam nesse candidato. Ou não.

    Quando a eleição presidencial de outubro de 2018 era ainda uma marca distante no calendário, um grupo de intelectuais, movimentos sociais, coletivos, ativistas e estudantes tentou mudar a forma como esse processo acontece.

    Quando o movimento Quero Prévias foi lançado, em novembro de 2016, a ideia era envolver os cidadãos no processo de escolha dos que viriam a disputar cargos públicos agora.

    A iniciativa estava aberta a todos os partidos, mas, na prática, funcionou circunscrita a debates no interior de partidos de esquerda, como PT e PSOL, chamados pelos membros do Quero Prévias de “progressistas”.

    O Nexo entrevistou por escrito uma das representantes do movimento, Bianca Tavolari, que é doutoranda pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo Direito e Democracia do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que participa do Quero Prévias desde a origem da ideia.

    Nenhum partido realizou prévias, como o grupo propunha, incluindo o campo da centro-esquerda, alvo principal do Quero Prévias. Mas, nem por isso, Tavolari considera que houve uma derrota ou trabalho perdido, como ela explica na entrevista abaixo.

    Que objetivos do Quero Prévias foram alcançados?

    Bianca Tavolari Antes de tudo, acho que é bacana contextualizar o Quero Prévias. A gente lançou o Quero Prévias no segundo semestre de 2016, com uma ideia muito simples e, ao mesmo tempo, muito ambiciosa: escolher quem pode ser escolhido nas eleições de 2018, por meio de um processo amplo de debate de ideias e de programa para uma candidatura única do campo progressista. Por trás dessa ideia estava o diagnóstico de que existe um divórcio entre, por um lado, a sociedade civil cada vez mais ativa e pulsante – com inúmeros coletivos, organizações e movimentos debatendo intensamente questões de fundamental importância para o país – e, por outro, o sistema político cada vez mais fechado em si mesmo.

    Então pedir por prévias é pedir pelo aprofundamento da democracia, demandar que os partidos do campo progressista deixem de decidir de maneira hierárquica, apenas a partir das cúpulas, sem levar em conta as discussões feitas na base da sociedade. E a gente acha que o mecanismo das prévias é o meio mais democrático para organizar essa espécie de nova cultura política, em que partidos e sociedade teriam de estar conectados.

    “O Quero Prévias é uma ideia – qualquer pessoa que se identificar com ela pode realizar debates, propor iniciativas de prévias, se organizar para implementá-la. Não tem grupo fixo ou carteirinha para entrar, a proposta é ser uma arena”

    Também é importante dizer que Quero Prévias é uma ideia – qualquer pessoa que se identificar com ela pode realizar debates, propor iniciativas de prévias, se organizar para implementá-la. Não tem grupo fixo ou carteirinha para entrar, a proposta é ser uma arena.

    Tivemos uma agenda intensa desde que lançamos a ideia. Num primeiro momento, conversamos com representantes de partidos e de movimentos sociais organizados, lançamos um site com um manifesto e com assinaturas. Foi um primeiro momento de convencimento de que a ideia era boa e de que era viável. Também era um chamado para dizer: se os partidos do campo progressista não se abrirem, é o próprio campo que vai ser dizimado. A rejeição completa do sistema político é real, cresce cada vez mais a sensação de que “não me representam”. Se os partidos continuarem com seus muros levantados, essa sensação só tende a crescer.

    Acho que conseguimos trazer esta ideia para a esfera pública. Também realizamos diversos debates temáticos para mostrar que era possível ter uma conversa franca e programática entre representantes dos partidos políticos progressistas e integrantes de movimentos sociais. Em São Paulo, fizemos um debate sobre o futuro do trabalho, com Fernando Haddad (PT), Marcelo Freixo (PSOL) e representantes de movimentos e da academia. No Rio de Janeiro, fizemos um debate sobre segurança pública com Alessandro Molon (então Rede, hoje PSB), com representantes de movimentos da Maré, de ONGs sobre segurança pública, acadêmicos. E, nesse debate do Rio, a gente teve a oportunidade única de contar com a Marielle Franco (PSOL), que seria brutalmente executada alguns meses depois. Em Belo Horizonte, debatemos a experiência das Muitas e a colaboração na Câmara entre vereadoras do PT e do PSOL.

    Em meio aos debates programáticos, discutimos intensamente – junto com outros novíssimos movimentos de renovação da democracia – a proposta de reforma política que foi aprovada no Congresso no ano passado.

    E, por fim, agora no final de junho, fizemos um debate programático chamado “O que nos une” com as coordenadoras e os coordenadores de programa das principais pré-candidaturas do campo progressista. Tivemos representantes das pré-candidaturas de Lula, Manuela D’Ávila, Ciro Gomes e Guilherme Boulos. Foi o primeiro debate desse tipo inteiramente organizado pela sociedade civil.

    Que objetivos não foram alcançados?

    Bianca Tavolari  Bom, não tivemos prévias do campo progressista. Apesar de as prévias não terem acontecido, a ideia não morreu. A ideia de prévias pode ser utilizada em qualquer eleição, seja nas eleições para vereadores em diversas cidades do Brasil, seja nas eleições presidenciais de 2022.

    É uma ideia de longo alcance, é um processo de transformação profunda, que leva tempo para acontecer. Tem que estar para além do período eleitoral. É por isso que dizemos que uma transformação de cultura política.

    Quais as lições aprendidas?

    Bianca Tavolari O cenário da democracia brasileira é desolador. Tem muita gente mobilizando sofrimento social real em direção a propostas autoritárias, no Brasil e no resto do mundo.

    Acho que um dos nossos aprendizados vem da percepção de que existem muitos mais pontos que unem o campo progressista do que aqueles que separam. A ideia não é forjar uma unidade forçada, eliminando todas as diferenças. Mas os debates que a gente promoveu mostraram que, enquanto campo, nossas divergências são completamente diferentes daquelas que nos separam do campo conservador.

    Qual será o futuro do projeto?

    Bianca Tavolari Queremos continuar debatendo programa e medidas concretas de aprofundamento da democracia, durante e depois da eleição. A reforma política aprovada no ano passado encurtou o período eleitoral, o prazo para registro das candidaturas foi postergado, os programas oficiais das candidaturas estão sendo divulgados apenas nesta semana. Aprofundar o debate programático é urgente.

    Também estamos pensando em dar subsídio para processos de prévias internas a partidos que, no futuro, venham a decidir escolher suas candidaturas de maneira democrática, seja para o Executivo ou para o Legislativo. Também apostamos em todas as iniciativas que estão rompendo com os muros altos da política. As Muitas em Belo Horizonte e a Bancada Ativista em São Paulo são alguns exemplos.

    As prévias não aconteceram em 2018, mas é cada vez mais urgente que elas aconteçam.

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