Por que a carreira de professor atrai tão pouco, segundo este estudo

Em entrevista ao ‘Nexo’, Gregory Elacqua, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento, analisa resultados de pesquisa sobre o magistério na América Latina

    Um estudo publicado na sexta-feira (27), promovido pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), analisou o panorama educacional do Brasil e de alguns países da América Latina para entender os fatores que impactam na valorização do professor voltado à educação básica, do ensino fundamental ao médio.

    Baseado em pesquisas com estudantes e dados oficiais sobre salários e satisfação profissional, “Profissão: Professor na América Latina: por que a docência perdeu prestígio e como recuperá-lo?” traça um quadro pessimista, especialmente no Brasil: apenas 5% dos alunos brasileiros do ensino médio querem ser professores.

    Em países como Coreia do Sul, Hong Kong e Finlândia, todos com alto desempenho acadêmico em avaliações internacionais, “a porcentagem de estudantes que planejam se tornar professores é alta e às vezes até excede a porcentagem daqueles que querem se tornar engenheiros”.

    Além do pouco prestígio da profissão entre os jovens, o magistério é mal-remunerado. “Professores do Brasil, Chile e Peru ganham cerca de metade do salário de outros profissionais, enquanto os do Equador e do México ganham 77% e 83%, respectivamente. De modo geral, a desvantagem econômica dos professores é mantida, mesmo considerando-se o fato de que eles costumam trabalhar menos horas em média do que outros profissionais”, afirma o texto introdutório do relatório do BID.

    Para o relatório, “o professor é o fator mais importante no desempenho dos alunos e pode ajudar a eliminar as persistentes desigualdades socioeconômicas de aprendizagem na região”. Quando chega à sala de aula, entretanto, encontra infraestrutura precária e poucos recursos pedagógicos.

    Segundo o Laboratório Latino-americano de Avaliação da Qualidade da Educação, citado no relatório, foi constatado que 20% dos estabelecimentos de ensino na América Latina, em 2013, não tinham banheiros em bom estado, 54% não tinham sala de professores e 74% não contavam com laboratório de ciências.

    O estudo, contudo, destaca políticas públicas em cinco países - Chile, Equador, México, Colômbia e Peru - que podem indicar um caminho para recuperar o valor do magistério e reduzir deficits educacionais e de aprendizagem.

    O Nexo conversou por telefone com o americano Gregory Elacqua, um dos autores do relatório e economista principal da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ele analisa os resultados da pesquisa e comenta a situação do magistério no Brasil.

    O título do relatório fala em “prestígio” da profissão de professor. Como você define prestígio? E por que isso é importante para pensar a carreira de professor?

    GREGORY ELACQUA Prestígio é o status de determinada profissão. É algo que a sociedade projeta, é como ela percebe a profissão.

    No nosso trabalho, partimos de algumas linhas-mestras. Por exemplo, prestígio está relacionado à vontade de estudantes secundários a querer seguir determinada carreira. O prestígio também tem a ver com salários competitivos, comparáveis a outras profissões. Além disso, há o prestígio dos próprios programas de ensino superior, a constatação sobre sua qualidade, se são seletivos e rigorosos.

    Tudo isso são fatores que indicam o prestígio de determinada profissão. Não há uma medição perfeita, mas sim alguns dados indicativos. Nesses três aspectos, a profissão de professor está muito em baixa. 

    Que mecanismos ou políticas de Estado mais prestigiam o magistério?

    GREGORY ELACQUA As ações estão relacionadas aos três fatores de que falei. Primeiro, fortalecer os programas de pedagogia e de educação. Hoje em dia, o magistério é uma carreira de refúgio. Apesar de estudantes do ensino médio não declararem interesse nessa formação, quase 20% dos universitários no Brasil são estudantes de educação. Muitos acabam indo parar no magistério para poder obter um curso de educação superior a baixo custo, com baixa seletividade, e muitos participam de programas de ensino à distância, que não possuem tanta regulamentação. É preciso elevar os padrões. Esse é um caminho.

    O segundo ponto tem a ver com os salários: é preciso aumentá-los. Melhorar os salários não traz resultado no curto prazo, necessariamente. Mas é um investimento para o futuro, porque vai [aumentar a capacidade de] atrair bons estudantes para a pedagogia. Colômbia e México hoje têm salários muito competitivos, por exemplo.

    Outro caminho é fomentar uma carreira docente meritocrática, onde haja avaliações vinculadas ao desempenho, não apenas vinculadas à experiência e aos títulos acumulados durante a carreira.

    Não existe nenhuma evidência de que obter mais e mais títulos de pós-graduação altere o desempenho do professor em sala de aula. O que sabemos é que há um problema, no Brasil e na América Latina, de falta de prática nos programas de formação docente. Você vai a países como Coreia do Sul e Finlândia e nota que ali os estudantes de pedagogia passam muito mais horas treinando como professor auxiliar de algum mestre. Temos evidências de que isso é muito importante para obter resultados melhores em aula.

    Friso também outro dado relevante. Os professores jovens acabam indo dar aula em escolas afastadas do centro, em áreas carentes e periféricas. A maioria não possui ferramental pedagógico para lidar com as questões que vão se apresentar. Esse é outro problema que atinge o magistério na América Latina e precisa ser enfrentado.

    O relatório elenca uma série de iniciativas em toda a América Latina que tentam recuperar e valorizar a figura do docente. Em sua avaliação, que país latino-americano configura o melhor exemplo na valorização de seus professores? E como isso se dá?

    GREGORY ELACQUA Cada um dos cinco países analisados na segunda parte do relatório (Chile, Colômbia, México, Peru e Equador) fizeram reformas importantes para valorizar a carreira.

    No México e no Equador, os salários melhoraram muito. Equador ainda fortaleceu a seleção dos docentes. Estabelecimentos que não atingem determinado nível de qualidade exigido pelo governo são fechados. Todos esses países avaliam regularmente seus docentes.

    No Brasil, o que tem de importante são os concursos bastante rigorosos. O que falta no Brasil são duas coisas: maior regulação dos programas de formação e salários.

    O relatório trabalha com a definição de “eficiência” do magistério, medindo fatores como o tempo gasto na atividade pedagógica em sala. Comparados à América Latina, Japão, Coreia do Sul e Finlândia não são só mais “eficientes”: são também os lugares onde os alunos estão mais interessados na carreira de professor. Em que medida o apreço / desapreço cultural pela docência compromete a eficiência exigida do profissional?

    GREGORY ELACQUA Eu acho que compromete muito. Historicamente nem sempre foi assim. Docentes eram membros destacados da comunidade, sobretudo em lugares mais humildes, mais pobres.

    O que aconteceu no Brasil tem a ver com o aumento acelerado no número das matrículas: o governo teve de contratar muitos professores para dar conta da expansão, o que fez a qualidade da docência cair.

    Outro fator é a ligação da profissão do magistério com as mulheres. Antigamente, o magistério era uma das poucas opções qualificadas de acesso ao mercado de trabalho para elas. Hoje seguimos com uma maioria de mulheres no magistério, mas as mulheres têm muitas opções e disputam vagas em carreiras mais competitivas. Em países como Finlândia, onde muitos alunos de educação secundária afirmam querer ser professor - o índice é semelhante ao de alunos que declaram querer fazer engenharia - , a maioria dos professores de ensino fundamental ainda é mulher.

    O Brasil gasta 6% do PIB com educação, mais do que a média dos países da OCDE. Mas o gasto governamental médio por aluno, ao ano, é dos mais baixos (cerca de US$ 2,9 mil). Qual a diferença (se existe) entre gastar muito e gastar bem?

    GREGORY ELACQUA O problema é que, em termos absolutos, o Brasil gasta muito pouco. Na pesquisa, mostramos que países que gastam muito nem sempre apresentam melhor desempenho. Não existe uma correlação tão clara entre gasto e desempenho estudantil.

    Países como o Brasil precisam aumentar o gasto com educação, porque não há nenhum país, à exceção do Vietnã, que tenha grande desempenho e gaste menos de US$ 8 mil por aluno por ano.

    Os resultados dos estudantes brasileiros na prova internacional (Pisa) melhoraram, mas muito pouco. É preciso combinar as ações. Países como a Colômbia aumentaram os gastos com educação e introduziram mudanças na docência. A performance dos alunos, então, melhorou.

    A pesquisa Prova Brasil, aplicada pelo Ministério da Educação, apontou que, para os professores brasileiros, dados socioeconômicos do aluno são fatores mais importantes para justificar problemas de aprendizagem do que a própria atuação do docente e da escola. Como o senhor analisa essa percepção?

    GREGORY ELACQUA Imagine se um médico falar isso… Ou se o médico evitar tratar de alguém que é pobre, que tem menos condições de se alimentar e viver bem.

    Os professores têm que lidar com o nível que os alunos têm. Um bom professor consegue educar qualquer aluno, independentemente das características dele.

    Por outro lado, faz muito sentido que o professor brasileiro diga isso, porque ele não tem as ferramentas para lidar com alunos mais vulneráveis, com alguém que vive cercado de problemas em casa: quando esse aluno chega à escola, é muito difícil que o professor lide com isso.

    Acho que o Chile tem um exemplo muito interessante. Lá existe uma forma de financiamento que entrega mais apoio pedagógico e psicológico aos professores de áreas mais pobres. As maiores gratificações no Chile são para professores que enfrentam um cenário social mais difícil. Disponibilizam-se recursos para o diretor contratar psicopedagogos e psicólogos.

    A carência social não pode ser desculpa para o professor, mas eu os entendo: eles não são obrigados a resolver essas coisas sem apoio financeiro e recursos pedagógicos.

    Estamos fazendo uma pesquisa atualmente, em Recife, em que vemos que as escolas localizadas em lugares mais pobres recebem quase a metade da verba que recebe uma escola bem localizada, de rede pública. Os recursos no Brasil não são focalizados. As bonificações oferecidas a professores da rede pública brasileira que dão aula em áreas carentes giram em torno de 15%, no máximo. No Peru, esse valor compõe 30% do salário do professor. 

    Recentemente, o governo do Maranhão aumentou o piso salarial para professores em regime de 40 horas semanais. É o maior piso salarial para a categoria no país. Que mudanças estruturais uma decisão dessa natureza pode provocar?

    GREGORY ELACQUA No curto prazo, não provoca maiores mudanças. Temos evidências, em outra pesquisa que fizemos, numa análise sobre a Indonésia, que promoveu um aumento salarial bem grande. O aumento trouxe zero impacto.

    A mudança vem no médio e no longo prazos, na verdade. O aumento salarial faz a profissão ficar mais competitiva, mas não podemos esperar que isso impacte de forma radical no desempenho dos alunos.

    Se eu ou você recebermos um aumento salarial, é provável que sigamos fazendo o mesmo trabalho, com mais disposição e estando mais contentes, obviamente, mas não haverá um efeito imediato na qualidade do nosso trabalho.

    Mas vale dizer que, no Brasil, nem 5% dos estudantes querem ser professores. É capaz que esse aumento salarial atraia mais gente para o magistério já na próxima geração.

    Ainda sobre remuneração de professores, “Profissão Professor” afirma que, em 2013, só 64% dos municípios aplicavam a lei federal 4.266, que estabeleceu o piso salarial na rede pública. Com o congelamento de gastos aprovado por Michel Temer (PEC do Teto), a lei deve continuar a ser desobedecida. É possível garantir a qualidade da docência no país diante desse cenário?

    GREGORY ELACQUA Esse é claramente um tema difícil. O fator salarial é muito importante. A crise econômica e fiscal vai impactar diretamente os salários, que representam o maior gasto do governo na área da educação.

    Entretanto, o que pode ser feito para aumentar o prestígio dos professores está no âmbito das regras. Fortalecer a formação inicial, focalizar os recursos, ter como objetivo fomentar uma carreira docente competitiva, onde os aumentos de salários não sejam baseados só nos títulos e qualificações.

    Dá para avançar nesses quesitos sem mexer necessariamente nos gastos. O Brasil não pode parar de avançar na educação por causa de uma crise econômica. 

    Como incorporar as demandas de professores nas decisões mais amplas (regionais, estaduais, nacionais), de forma a democratizar a gestão do ensino?

    GREGORY ELACQUA Hoje em dia no Brasil e na América Latina, as escolas têm pouca autonomia em relação ao que se ensina. Quase não há recursos para implementar mudanças e as decisões são unilaterais.

    Com respeito às mudanças educacionais ocorridas no resto do continente, o que percebemos é que os sistemas que têm obtido mais êxito na implementação da reforma docente são os países que as desenharam junto com os professores, de forma democrática.

    O caso do Chile é interessante. O sindicato dos professores sempre estava à mesa de decisões. O Panamá também está fazendo isso, falando com todos os sindicatos, pedindo a participação dos cidadãos. Acho muito importante que eles sejam chamados a participar, porque as reformas mais exitosas são as democráticas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: