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A autoficção em quadrinhos da equatoriana Power Paola

Em entrevista ao ‘Nexo’, quadrinista fala de seu trabalho recém-lançado no Brasil, feminismo e o uso da própria vida na criação

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    De passagem pelo Brasil, a quadrinista Power Paola, nascida em Quito e criada na Colômbia, lançou “qp” no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, realizado entre 30 de maio e 3 de junho de 2018.

    No sábado, dia 2 de junho, desenhou ao vivo retratos de quem se sentou diante dela no estande da feira da editora paulistana Lote 42.

     

    O exercício faz todo o sentido: é de sua própria vida, dos encontros com quem a cruza, que são feitas as histórias de Paola. Ela experimenta com esses acontecimentos e os transfigura em seu traço fino, preciso e detalhado. Qualificá-lo como “delicado” ou “feminino” lhe parece uma redução incômoda.

    Foto: Reprodução/Lote 42
    Ilustração de 'qp'
     

    Segunda HQ da autora publicada no país – a primeira foi “Vírus Tropical”, em 2015 –, “qp” é a crônica do relacionamento de 6 anos de duração de Paola com o escritor referido por ela como “Q”.

    Foto: Reprodução/Lote 42
    Página de 'qp'
     

    O quadrinho é composto de histórias independentes do cotidiano do casal nos vários países onde moraram: 13 das que integram a edição brasileira são inéditas. Por ter sido feito ao longo de um período relativamente extenso, documenta, também, o desenvolvimento técnico e criativo da própria artista.

    Por e-mail, Paola falou ao Nexo sobre sua maneira de criar, a relação com o feminismo e quadrinistas para se prestar atenção.

    Você esteve recentemente no Brasil para lançar seu novo trabalho e participou do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Como você vê a produção contemporânea de quadrinhos no Brasil e na América Latina?

    Power Paola É interessante como o mundo das histórias em quadrinhos cresceu nos últimos anos na América Latina. O que mais me emociona é ver propostas diferentes quanto à forma de narrar, desenhar e editar. Vejo muito isso nos desenhistas jovens e nas propostas fanzineiras.

    Como foi ver “Vírus Tropical” se tornar filme?

    Power Paola Foi super emocionante, uma vez que, como livro, foi um trabalho quase solitário. Agora que virou filme foi todo um trabalho em equipe com gente que admiro e gosto. Creio que alcançamos algo interessante, inclusive com todas as falhas e erros.

    Gostei do desafio de ter trabalhado com mais gente, que eles tenham tido liberdade criativa e, ao mesmo tempo, respeito pela obra original. Além disso, ter desenhado durante 5 anos para o filme me deu um ofício e vontade de passar para algo novo.

    Foto: Divulgação
    Frame de ‘Vírus Tropical’, animação de 2017 baseada no quadrinho homônimo de Power Paola
     

    Qual o diálogo possível entre quadrinhos e cinema?

    Power Paola Há muito diálogo. A sequência de imagens já faz com que pensemos, de uma forma ou de outra, na imagem em movimento, em um espaço e um tempo.

    Aliás, quando Santiago Caicedo (o diretor do filme) leu o quadrinho inteiro, foi até a produtora (Carolina Barrera) e disse: ‘veja, esse é o filme que quero fazer, aqui está o storyboard’.

    Como foi a elaboração de “qp”?

    Power Paola Fui fazendo “qp” enquanto vivia a relação com Q. Dei início a ela quando comecei a desenhar quadrinhos, fui seguindo minha vida cotidiana durante 6 anos e, quando terminei com Q, me dei conta que tinha um livro desses 6 anos de relação.

    É por isso que se veem diferentes técnicas, a evolução do desenho, do texto e da experimentação na hora de fazer os quadrinhos, e a evolução do próprio relacionamento.

    Você ficcionaliza sua biografia? O que pensa da ideia de autoficção?

    Power Paola É uma boa ferramenta para criar. Para mim, os momentos da minha vida são a matéria-prima. Posso me aproveitar deles, exagerá-los, diminuir o volume de situações barulhentas. Experimentar com a própria vida.

    Se inspira em outros quadrinistas que façam o mesmo?

    Power Paola Totalmente. Adoro os artistas que trabalham com suas próprias vidas e não apenas quadrinistas: escritores, artistas, jornalistas, todos que usam suas próprias vidas na hora de criar. Como, por exemplo, Sophie Calle, On Kawara, Kevin Simón Mancera.

    Em um segmento de “QP”, você reclama para Q do uso constante do adjetivo “feminino” para descrever o trabalho de quadrinistas mulheres. Qual a sua experiência e suas críticas quanto a esse tipo de recepção?

    Foto: Reprodução/Lote 42
    Trecho de 'qp'
     

    Power Paola  Sim, houve um momento em que me incomodei com o fato de que os jornalistas sempre falavam do trabalho das mulheres a partir do feminino. E de um feminino com o qual, sinceramente, não me identifico. Quando falam do trabalho dos homens, porém, nunca falam que seu trabalho é masculino. Então dão a entender que esse é o padrão.

    Foto: Reprodução/Lote 42
     

    Você é feminista? Diria que sua arte é feminista?

    Power Paola Totalmente. Pelo simples fato de me revelar como uma mulher que desenha, que decide e que mostra outro tipo de relações. Que a mulher pode ser o que lhe der vontade e não como o padrão que nos impõem.

    Quem são os quadrinistas latinos para se prestar atenção?

    Power Paola Muriel Bellini, Estefania Cloti, Pedro Franz, Fabio Zimbres, María Luque, Pablo Vigo, Camila Torre Notari, Inechi etc.

     

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