Como ler junho de 2013 com os olhos de 2018, segundo este pesquisador

Professor da UERJ aponta a emergência de novos sujeitos políticos após as manifestações, que, para ele, marcam ‘um antes e um depois’ na trajetória dos protestos no país

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    Em 2 de junho de 2013, um domingo, entrou em vigor a tarifa de R$ 3,20 do ônibus e do metrô, reajustada em R$ 0,20 pela Prefeitura de São Paulo e pelo governo estadual. No dia seguinte começaram protestos contra o aumento que, em pouco tempo, tomaram proporções inesperadas.

    Hoje, cinco anos depois, esses atos ainda provocam análises entre pesquisadores, que buscam entender as motivações e os desdobramentos daqueles protestos. Entre a classe política, eles tornaram-se uma fonte recorrente de preocupação, pelo temor de que algo semelhante volte a ocorrer – a exemplo do receio do governo Temer diante da paralisação dos caminhoneiros, no fim de maio.

    De 20 centavos a pedidos por mais direitos

    Os primeiros atos de 2013 em São Paulo foram organizados pelo MPL (Movimento Passe Livre), que defende a gratuidade do transporte público. Antes, outras manifestações já haviam ocorrido em capitais como Porto Alegre e Manaus.

    No caso da capital paulista, a repressão da Polícia Militar atraiu atenção e os protestos foram se tornando cada vez maiores. As autoridades diziam que a reação era para conter atos de vandalismo.

    O lema “não são só R$ 0,20” ganhou força e grupos diversos aderiram às manifestações, levando para as ruas outras reivindicações, como melhora dos serviços públicos e o combate à corrupção. Em meados de junho, havia atos também no Rio, Belo Horizonte e em capitais de outras regiões do país.

    Dos ‘sem partido’ aos novos grupos

    À medida em que as manifestações cresciam, aparecia a repulsa por parte de manifestantes à classe política. A presença de políticos e militantes de movimentos sociais associados à esquerda (como a CUT, Central Única dos Trabalhadores) passou a ser hostilizada, e a bandeira dos “sem partido” ganhou espaço.

    A amplitude dos atos fez os governos de São Paulo e do Rio recuarem do reajuste, medida repetida depois por outros prefeitos. A então presidente Dilma Rousseff propôs um pacto com promessas de melhora da qualidade dos serviços públicos – algo que não avançou.

     

    Nesse momento o MPL já havia anunciado sua saída dos protestos por discordar de certas reivindicações (como a defesa da redução da maioridade penal) e da reação contra partidos.

    A proximidade da Copa do Mundo, sediada no Brasil em 2014, serviu para manter focos de protesto principalmente no Rio, com cartazes pedindo saúde e educação “padrão Fifa”.

    Na esteira dessas manifestações, surgiram novos grupos, como o Vem Pra Rua e o MBL (Movimento Brasil Livre), que se tornaram os protagonistas dos atos pelo impeachment de Dilma, em 2015 e 2016.

    A relevância para a atualidade

    Para o professor Breno Bringel, um dos elementos mais intrigantes de junho de 2013 foi observar atores à esquerda e à direita “coexistindo nos mesmos espaços”.

    Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Bringel coordena projeto de pesquisa sobre os protestos e as transformações do ativismo no Brasil, com a participação de pesquisadores de outras cinco universidades federais (de Minas, Espírito Santo, Goiás, Pelotas e Rio Grande do Sul).

    Na entrevista abaixo, ele fala sobre as origens de 2013 e como aquelas manifestações marcam, segundo ele, “um antes e um depois” na trajetória dos protestos no país.

    Cinco anos depois, como o sr. define o que ocorreu em junho de 2013?

    Breno Bringel  Junho de 2013 é um evento com interpretações muito disputadas, mas ninguém nega já sua centralidade nos rumos do Brasil contemporâneo. Temos um leque muito variado de análises, que relacionam os protestos de 2013 à crise da Nova República, à emergência de novos sujeitos políticos, à emergência de uma “onda conservadora” e ao golpe [impeachment de Dilma Rousseff]. No entanto, cinco anos depois, ainda precisamos avaliar de maneira mais multidimensional suas origens e desdobramentos. A maioria das interpretações acabam focando em uma única dimensão ou simplificando demais as coisas.

    Por exemplo: não concordo com a ideia, bastante estendida, de que junho foi uma explosão de grupos somente de esquerda e que teria sido depois, progressivamente, capturado pela direita. A realidade é bem mais complexa. Tenho insistido desde então que foi, já em seu início, um ciclo de protestos altamente ambivalente e difuso com atores, discursos e demandas heterogêneas.

    Talvez um dos elementos mais interessantes e intrigantes seja justamente esse: atores à esquerda e à direita coexistindo nos mesmos espaços. E isso, lembremos, gerou muitos conflitos. Mas junho sobretudo foi um momento de abertura societária no país, com protestos que foram muito além dos movimentos organizados, chegando a indivíduos que antes não se mobilizavam (ou não estavam organizados) e à sociedade como um todo.

    Os atos de 2013 tiveram características regionais ou foram homogêneos?

    Breno Bringel  Em nossa pesquisa “Junho de 2013 e transformações do ativismo”, esse é um ponto central. Existe, a nosso ver, uma sobre-representação de São Paulo e, em menor medida, do Rio de Janeiro nas análises. Sem negar a importância de ambas as cidades e, inclusive, sua centralidade na cena política nacional, é importante construir um mapa mais abrangente.

    Isso implica, entre outras coisas, avaliar como as trajetórias prévias dos movimentos e as culturas políticas e militantes locais/estaduais influenciaram tanto emergências distintas dos protestos como desdobramentos diferenciados. Trata-se de ir além do que Francisco Tavares, coordenador da equipe da UFG (Universidade Federal de Goiás), tem definido como “sudestecentrismo” nas análises de junho de 2013 e nas ciências sociais, de forma mais geral. Embora um dos elementos mais emblemáticos tenha sido sua capilaridade em todo o território nacional, boa parte da academia, da militância e dos meios de comunicação criaram uma genealogia dos protestos iniciando-se em São Paulo com o MPL e depois difundindo-se para o resto do país. Mas, será que isso é realmente assim?

    Protestos importantes ocorreram antes e o MPL não estava organizado em muitos lugares do Brasil, nem sequer no Rio. A despeito de características similares, as correlações de forças também são distintas em várias cidades e estados e isso influenciou enormemente a configuração das manifestações. O momento posterior a junho de 2013 também foi diverso. Em alguns lugares como no Rio, os protestos seguiram com alta intensidade, com uma concatenação de mobilizações e greves (a maior delas a dos professores de escolas públicas, seguida de outras bastante simbólicas, como a dos garis, em fevereiro de 2014) que acabaram, na véspera da final da Copa em 2014, com a prisão de 23 ativistas.

    Em várias cidades seguiram acontecendo ocupações, mobilizações por direitos e por causas específicas, novas ações e trabalhos de base e um aprofundamento do experimentalismo cultural. Em Belo Horizonte, isso foi central para a criação de novas plataformas políticas como a “Muitas”, que viabilizou o mandato coletivo conhecido como “Gabinetona”. Em um polo oposto, em determinados casos, como Goiânia, a repressão e a criminalização pós-junho levou à desmobilização.

    As manifestações abriram um novo ciclo de protestos? Pode-se dizer que os atos contra Dilma em 2015 e 2016 decorrem delas?

    Breno Bringel  Junho de 2013 marcou um antes e um depois na trajetória dos protestos do Brasil contemporâneo. Após a emergência de um ciclo de protestos tão significativo, os movimentos iniciadores viram-se superados por outros atores que se uniram ao ciclo para fazer suas próprias reivindicações, sem necessariamente manter os laços com aqueles que desencadearam as manifestações e/ou repetir suas agendas, cultura organizacional, referências ideológicas e formas de ação. Dessa maneira, a criação do MBL, os atos contra Dilma em 2015 e 2016 e várias agitações de um campo de ação liberal e conservador são fruto desse processo, mas não podem ser vistos como a única expressão pós-2013.

    Lembremos que no final de 2015 e no início de 2016 tivemos uma onda significativa de ocupações de escolas secundárias que pareciam revitalizar um campo político juvenil mais autonomista, muito importante em junho. A diferença principal é que no caso das lutas estudantis estamos diante de um espaço mais invisível e subterrâneo de disputa da sociedade e de ressignificação da esquerda, enquanto no caso dos protestos anti-Dilma e anti-PT havia uma maior ligação com grupos poderosos e interesses concretos que visavam a restituição de um status quo neoliberal, com forte interface com os partidos e o sistema político, por mais que alguns deles se declarassem como “sem partido”.

    De 2013 para cá, o sr. observa um realinhamento de grupos ou seguimos vendo a emergência de novos atores políticos?

    Breno Bringel  A partir de junho de 2013 vimos, como dizia antes, a emergência pública de novos sujeitos políticos. Essa emergência não leva, no entanto, necessariamente ao desaparecimento dos atores prévios. Estamos diante de um cenário de transição, onde o “velho” não terminou de morrer e o “novo” ainda não floresceu totalmente.

    Por um lado, há uma multiplicação de coletivos e movimentos com atuações locais que renovam o compromisso com a justiça social e desafiam os códigos da esquerda hegemônica no Brasil nas últimas décadas. Não podemos esperar um impacto imediato dessas forças que, contudo, podem contribuir enormemente a uma renovação dos projetos transformadores no futuro próximo.

    Por outro lado, grupos de direita – liberais, mas também autoritários – passam a se organizar, às vezes com um formato movimentalista, com diferentes modalidades e objetivos políticos e, nesse caso, com impactos (inclusive eleitorais) mais rápidos. Diante disso, o PT e todo o seu campo político – incluindo partidos, sindicatos e movimentos – que emerge na redemocratização, nos anos 1970 e 1980, se vê duplamente desafiado, à direita e à esquerda.

    É sintomático observar, aliás, que aqueles que eram vistos como os “novos” atores na redemocratização são hoje vistos como “velhos”. Isso exige um reposicionamento e uma redefinição dos grupos mais consolidados na cena política brasileira. Alguns conseguiram se adaptar à nova realidade, abrindo-se a certa renovação. Outros parecem ainda não compreender que a sociedade brasileira mudou e estão se afundando.

    Em 2013 houve o coro dos sem partido. A paralisação dos caminhoneiros, em maio de 2018, falou em intervenção militar. Há relação entre esses momentos?

    Breno Bringel  Qualquer relação estabelecida entre esses dois momentos deve ser feita com muita cautela. O que talvez, sim, possamos pensar como algo mais geral que une esses protestos é que as formas de mobilização hoje mudaram muito, no Brasil e no mundo, e isso tem muito a ver com as transformações de nossas sociedades, mais individualizadas e fragmentadas e fortemente mediadas pelos dispositivos digitais.

    Os protestos na atualidade podem ser convocados de forma muito mais rápida e descentrada que antes, impedindo que sejam controlados pelos atores que o iniciam e permitindo que se difunda a setores amplos. Isso, por sua vez, faz com que as mobilizações incorporem agendas diversas e tornem-se profundamente difusas e heterogêneas. Dessa maneira, a conexão entre protesto e organização/movimento torna-se menos clara e direta e abre-se sempre um forte cenário de disputa sobre os sentidos das manifestações, como vimos tanto em junho de 2013 como na recente greve dos caminhoneiros.

    As demandas apresentadas cinco anos atrás foram atendidas pelos agentes políticos? Algo semelhante a 2013 pode voltar a ocorrer?

    Breno Bringel  Não é fácil responder a essa pergunta, pois as demandas das ruas eram muito heterogêneas e a distância entre a sociedade e a política, abismal. Em algumas cidades, conseguiu-se uma das demandas iniciais mais simbólicas (o passe livre) ou uma redução das tarifas do transporte público, embora em outras o preço do transporte público não tenha se alterado ou inclusive tenha subido.

    Algumas demandas pontuais mais direcionadas ao sistema político – como a oposição à PEC 37 [que limitaria os poderes do Ministério Público] – prosperaram. Aquelas mais genéricas, como os gastos da Copa, não tiveram uma canalização clara. Já pautas que pareciam inicialmente mais retóricas que reais, como o “Fora Cabral” no Rio ou o “Fora Dilma” em chave nacional, acabaram convertendo-se em realidade devido a um encadeamento complexo de acontecimentos.

    Não podemos menosprezar as vitórias recentes da(s) direita(s) no cenário pós-junho, mas tampouco é possível avaliar 2013 somente a partir de seus impactos imediatos e político-institucionais. Uma nova geração de jovens militantes de esquerda se formou e esse é um importante impacto biográfico de 2013. Parte da sociedade se politizou. Não sabemos ainda o que isso forjará no médio e no longo prazo, mas creio ser importante avaliar os impactos dos protestos e dos movimentos de forma mais ampla e crítica. Isso permitirá, inclusive, que não nos surpreendamos tanto com os novos junhos que virão.

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