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O que há de particular na categoria dos caminheiros, segundo esta psicóloga

Luna Gonçalves faz atendimento clínico de profissionais do setor do transporte há mais de dez anos. Ela comenta sobre o ineditismo da união da classe

     

    A partir do dia 21 de maio de 2018, milhares de caminhoneiros e de empresas de transporte paralisaram as rodovias do Brasil. Eles protestavam principalmente contra a alta do óleo diesel. E cobravam do governo ajustes na política de preço da Petrobras.

    Por pelo menos dez dias, os manifestantes se mantiveram nas estradas e causaram uma crise de desabastecimento em diversos setores. Hospitais, supermercados e postos de gasolina sofreram os efeitos da greve, que acabou forçando o presidente Michel Temer a ceder à maior parte das demandas dos caminhoneiros. O governo federal se comprometeu a subsidiar a redução do preço do diesel — e para isso vai ter que tirar dinheiro de outros setores.

    Parte da dificuldade das negociações entre o governo Temer e os grevistas se deu pela falta de lideranças claras no movimento dos caminhoneiros. Enquanto cúpulas sindicais firmavam acordos, motoristas autônomos e pequenas empresas de transporte ignoravam os acertos formais feitos em Brasília e permaneciam nos bloqueios, se comunicando via WhatsApp.

    O tom político da paralisação acabou se amplificando, abalando a própria estabilidade do governo federal. Manifestantes chegaram a pedir uma “intervenção militar” para destituir o presidente. As Forças Armadas foram acionadas, mas para desbloquear rodovias e escoltar caminhões rumo a seus destinos finais.

    A dinâmica desses protestos chamou a atenção para uma nova forma de organização. E, também, chamou a atenção para a situação da classe dos caminhoneiros.

    Para entender mais sobre quem são esses profissionais, o Nexo entrevistou a psicóloga Luna Gonçalves, doutora pela USP e autora de pesquisas desenvolvidas com motoristas de caminhão. Gonçalves é psicóloga clínica no Sest Senat (Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) em São Paulo, instituição do sistema S que presta serviços de ensino e assistência em saúde à população do setor.

    Ela fala sobre as características peculiares à categoria dos caminhoneiros e sobre como o movimento conseguiu unir trabalhadores que, em geral, reclamam de fragmentação e desunião.

    É possível falar em características psicológicas que diferenciem os caminhoneiros enquanto classe? Que características seriam essas?

    Luna Gonçalves  Antes de mais nada, vale lembrar que não estamos falando de uma categoria profissional com perfil universal, ela está incluída dentro de uma dada realidade cultural, social, histórica, política e econômica. Mesmo na realidade brasileira, podemos identificar a pluralidade existente dentro da própria categoria, na medida em que nos deparamos com questões de gênero no trabalho, tendo a presença de mulheres em uma atividade realizada, majoritariamente, por homens; bem como os diferentes tipos de vínculos de trabalho entre os profissionais (contratados, agregados, terceirizados e quarteirizados). Sendo assim, a identidade profissional e suas características psicológicas podem apresentar-se de forma bastante diversificada quando consideramos tais aspectos. Entretanto, ainda assim, é possível identificar aspectos de uma “personalidade profissional” bastante interessante.

    Motoristas de caminhão, de modo geral, costumam trabalhar nesta área porque: aprenderam a profissão com familiares; sentem-se livres e com autonomia nas estradas; o caminhão torna-se veículo (literalmente) de descobrimento de novos destinos, pessoas e cenários; porque dificilmente conseguem adaptar-se em lugares fixos e fechados, gostam de circular e do dinamismo; porque a expectativa da ida e da volta provoca uma espécie de adrenalina e a estrada torna-se um “vício”.

    A sra. pesquisa a questão dos caminhoneiros na psicologia social há pelo menos dez anos. A paralisação e os caminhos que ela tomou surpreenderam a sra.?

    Luna Gonçalves  Durante a minha experiência trabalhando com caminhoneiros, tanto na área da pesquisa quanto clínica, atendendo esses profissionais e seus familiares, já observei algumas manifestações anteriores da categoria, porém, tímidas e enfraquecidas. Não me recordo de ter visto no Brasil uma manifestação com esta magnitude e proporções. Independentemente se greve ou locaute, considero o movimento legítimo e um marco histórico em toda a sociedade. Finalmente essa categoria conseguiu se fazer vista com um simples ato: o de parar. A força e os reflexos desta greve, evidentemente, atingiram todo um país em muitos níveis e fortaleceram uma categoria, anteriormente, enfraquecida e cansada.

    Esta greve trouxe muitas questões a serem refletidas por nós: o fortalecimento de uma categoria profissional de extrema relevância para a economia do país; a greve como sintoma de uma crise crônica e histórica do sistema de transporte no Brasil, onde o monopólio do modal rodoviário e do petróleo foram colocados em xeque; a greve como um possível despertar da sociedade para uma rebelião tributária, como bem explicou o economista Eduardo Giannetti; a lentidão de tomada de decisão de um governo impopular, enfraquecido e encurralado pela greve e a passividade e desunião de uma população diante de governos corruptos.

    O final dessa mobilização foi marcado por pedidos da volta da ditadura militar ao país. De que maneira esse tipo de pensamento aparece nos estudos que a sra. realiza?  

    Luna Gonçalves  Observando o percurso desta greve, ao meu ver, ficaram muito claros dois momentos: as reivindicações justas da categoria e as de cunho, estritamente, político. Esta última pode incluir interesses políticos distintos dos solicitados pelos profissionais, incluindo, a intervenção militar. Vejo como um movimento praticado por uma minoria que, aproveitando a força da manifestação, pegou carona na greve a fim de ganhar visibilidade. É possível que exista o apoio de motoristas e algumas transportadoras em ambos os momentos, mas não entendo este segundo momento como o movimento de caminhoneiros propriamente dito.

    Uma das características dessa crise foi a dificuldade de encontrar representantes legitimados pelos próprios caminhoneiros, que pudessem conduzir as negociações com credibilidade. A horizontalidade ou a pulverização do poder é uma característica inerente a esse grupo?

    Luna Gonçalves  Sempre ouvi de motoristas de caminhão queixas de desunião e fragmentação entre eles. Contudo, esta histórica manifestação evidenciou ao governo, à sociedade e à própria categoria profissional que a força de trabalhadores e cidadãos em prol de melhorias para trabalhar e viver é possível. Infelizmente, a fragmentação e desunião não é uma característica apenas desta categoria. Como pudemos observar nestes dias, está presente na população brasileira.

    Caminhoneiros do Brasil deram uma aula à nossa sociedade de democracia, de luta pelos seus direitos frente a governos corruptos e da importância de se organizar para um bem coletivo. Ficou evidente  que o caos nacional já existia antes da paralisação; que o governo diante de uma força coletiva precisa atender aos interesses de uma nação; que as grandes mídias prestaram um desserviço à sociedade, com um discurso de pânico e pouca reflexão.

     Mas, ao meu ver, o mais preocupante disso tudo foi o papel da população brasileira que, apesar de ter apoiado a greve, em sua maioria, se mostrou mais preocupada em abastecer seus automóveis.  Diante de um cenário deste, uma sociedade que só sai às ruas para ir ao posto de gasolina brigar (literalmente) pelo seu combustível, vai levar muito tempo ainda para aprender sobre democracia e luta por direitos coletivos.

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